27.2.07
Nietzsche traduzido por Paulo César de Souza
Acabo de receber da Companhia das Letras um volume com as traduções, feitas por Paulo César de Souza, de O anticristo e Ditirambos de Dionísio, de Nietzsche. Ainda não as li, mas Paulo César de Souza é uma garantia de grande qualidade. Não conheço melhor tradutor de filosofia para o português.
Ser e nada em Hegel
Não é surpreendente que o início da Lógica de Hegel, sobre a identidade de SER e NADA, provoque alguma confusão e perplexidade. Tal como se apresenta, ele me parece extremamente brilhante e, à primeira vista, claro: ofuscantemente claro; súbito, obscuro.
Transcrevo a seguir o parágrafo de O mundo desde o fim [Ed. Francisco Alves, 1995, cap.IV, § 16, p.77 ss.] em que critico a passagem, na Lógica de Hegel, do A. SER e do B. NADA para C. DEVIR:
Hegel, para deixar claro que nada ficou de fora do absoluto, principia sua Lógica pela categoria ao mesmo tempo mais universal e mais e mais simples, pela imediaticidade simples do puro ser. "O começo", diz Hegel introdutoriamente,
precisa ser absoluto ou, o que aqui é equivalente, ser começo abstrato; ele não deve pressupor nada, não deve ser mediatizado por nada nem ter um fundamento; deve ao contrário ser ele mesmo fundamento da ciência inteira. Deve portanto ser absolutamente um imediato, ou antes apenas a imediaticidade mesma. Como não pode ter determinação em relação a outra coisa, tampouco pode ter determinação em si, ou conteúdo, pois tal seria diferença e relação de diferentes uns com os outros e, com isso, uma mediação. O começo é, portanto, o ser puro. [HEGEL, G. Wissenschaft der Logik. Hamburg: Felix Meiner, 1932 primeiro livro, p.54]
O começo absoluto é, portanto, o começo abstrato, isto é, o absoluto abstrato. Em que consiste mesmo esse absoluto abstrato ou essa abstração absoluta? O ser puro não possui nenhuma determinidade, nenhuma diferença interna ou externa, nenhuma positividade, particularidade, relatividade. E Hegel adiciona, num parágrafo merecidamente famoso:
Nada há nele a intuir, se é que de intuição pode ser falado aqui; ou ele é apenas essa pura e vazia intuição mesma. Tampouco há algo nele a pensar, ou ele é do mesmo modo apenas esse puro pensamento vazio. O ser, o imediato indeterminado, nada é de fato, e nem mais nem menos que nada. [Ibid., primeira parte, primeiro capítulo, p.66-67]
O ser é o pensamento puro. "O ser puro", diz Hegel na Enzyklopädie,
Constitui o começo porque é tanto puro pensamento quanto o imediato indeterminado, simples, o e o primeiro início não pode ser nada mediado ou mais determinado. [HEGEL, G. "Enzyklopädie der philosophischen Wissenschaften im Grundrisse I". In:. Werke. Vol.8. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1970, § 86, p.182-2]
A Lógica se dá inteira no elemento do pensamento livre. Nesse sentido, ela pressupõe a Fenomenologia, que trouxe a consciência ao conceito da ciência, ou ao saber puro. É por isso que o ser puro pode ser concebido como idêntico ao puro intuir ou ao puro pensamento. O puro pensamento é o pensamento que abstraiu de si absolutamente toda determinidade, o pensamento pensante. Este se identifica com o puro nada. O ser é o nada. Da mesma maneira, quando concebo o nada, estou concebendo o pensamento pensante, o ser abstrato-abstrainte. O nada é o ser.
A verdade do ser e do nada é, para Hegel, o devir, pois "o que é a verdade não é nem o ser nem o nada mas que o ser passa -- ou melhor, já passou -- ao nada e o nada ao ser." [HEGEL, G. Wissenschaft... ibid.]
Mas pode objetar-se que não há trânsito efetivo do nada ao ser ou vice-versa. Se o ser é conceitualmente o mesmo que o nada, e o nada, o mesmo que o ser, então só uma ilusão pode levar alguém a falar de transição, pois o mesmo não transita ao mesmo. Prevendo essa possível objeção, Hegel afirma que
tão correta quanto a unidade de ser e nada é porém também que são absolutamente distintos -- que um não é o que o outro é. Apenas, uma vez que a diferença aqui ainda não se determinou, pois justamente ser e nada são ainda o imediato, ela é, como se encontra neles, o indizível, a mera opinião. [HEGEL, G. Enzyklopädie I, § 88, p.188]
Contudo, a verdade é que essa diferença jamais se torna mais precisa. Ela não é capaz de superar o status de doxa, imaginação, ilusão. O tornar-se não pode ser a identidade do ser absoluto e do nada absoluto justamente porque ele é diferente tanto de um quanto de outro, que são idênticos. O ser absoluto é conceitualmente idêntico ao nada absoluto, e isso basta. Por essa razão, resulta ininteligível a explicação de Hegel para a coagulação do tornar-se no estar aí (Dasein) ou no ser determinado:
O tornar-se contém em si o ser e o nada, e de tal maneira que esses dois simplesmente se transformam um no outro e se superam mutuamente. Com isso, o tornar-se se demonstra como inteiramente inquieto, mas incapaz de se manter nessa inquietação abstrata; pois na medida em que ser e nada se esvanecem no devir e só isto é o seu conceito, ele próprio é um esvanecente, feito um fogo que se consome em si mesmo enquanto devora o seu material. Mas o resultado desse processo não é o nada vazio mas o ser idêntico à negação, que chamamos estar aí (Dasein)... [Ibid., § 89, p.195]
Ora, como já foi dito, se o ser é idêntico ao nada, não há tornar-se um o outro. Isso significa que, dado que o devir é o elo entre o momento do ser-nada e o momento do estar aí (Dasein), isto é, do ser determinado, pode declarar-se insatisfatória a passagem crucial do primeiro para o segundo capítulo da Lógica. Isso não significa que não haja uma diferença fundamental entre o ser ou o nada absoluto e o ser determinado. Muito pelo contrário: trata-se da verdadeira diferença ontológica. O que a insuficiência da derivação hegeliana significa é que o conceito de ser absoluto ou o absoluto abstrato não pode ser reduzido a uma representação inadequada do ser determinado. Assim, desde o primeiro passo não se realiza a pretensão hegeliana de que o absoluto abstrato não passe da mais pobre das definições do absoluto, destinada a ser relativamente superada por todos os significados subseqüentes revelados pela Lógica.
Há outras formas de considerar a relação entre o ser absoluto e a determinidade. Chegamos ao ser absoluto ou ao nada absoluto através da abstração absoluta. Trata-se da atividade de negação absoluta. Em primeiro lugar, uma tal atividade se constitui como o não-ser de todas as outras coisas, como o nada dessas coisas, não porque as destrua mas porque as nega de si ou se nega a elas. Ao negá-las de si, isto é, ao negá-las da negação, a negação absoluta se dá como negação negante e as coisas negadas são por ela constituídas como negações negadas. A negação negada é positividade. Logo, a positividade pode ser também considerada como negação relativa. É, portanto, a negação relativa, ou melhor, a negação negada, que normalmente dizemos ser isto ou aquilo. A negação absoluta, porém, nada tem de relativo, nada tem de negado. Ela consiste em pura negação negante.
Transcrevo a seguir o parágrafo de O mundo desde o fim [Ed. Francisco Alves, 1995, cap.IV, § 16, p.77 ss.] em que critico a passagem, na Lógica de Hegel, do A. SER e do B. NADA para C. DEVIR:
Hegel, para deixar claro que nada ficou de fora do absoluto, principia sua Lógica pela categoria ao mesmo tempo mais universal e mais e mais simples, pela imediaticidade simples do puro ser. "O começo", diz Hegel introdutoriamente,
precisa ser absoluto ou, o que aqui é equivalente, ser começo abstrato; ele não deve pressupor nada, não deve ser mediatizado por nada nem ter um fundamento; deve ao contrário ser ele mesmo fundamento da ciência inteira. Deve portanto ser absolutamente um imediato, ou antes apenas a imediaticidade mesma. Como não pode ter determinação em relação a outra coisa, tampouco pode ter determinação em si, ou conteúdo, pois tal seria diferença e relação de diferentes uns com os outros e, com isso, uma mediação. O começo é, portanto, o ser puro. [HEGEL, G. Wissenschaft der Logik. Hamburg: Felix Meiner, 1932 primeiro livro, p.54]
O começo absoluto é, portanto, o começo abstrato, isto é, o absoluto abstrato. Em que consiste mesmo esse absoluto abstrato ou essa abstração absoluta? O ser puro não possui nenhuma determinidade, nenhuma diferença interna ou externa, nenhuma positividade, particularidade, relatividade. E Hegel adiciona, num parágrafo merecidamente famoso:
Nada há nele a intuir, se é que de intuição pode ser falado aqui; ou ele é apenas essa pura e vazia intuição mesma. Tampouco há algo nele a pensar, ou ele é do mesmo modo apenas esse puro pensamento vazio. O ser, o imediato indeterminado, nada é de fato, e nem mais nem menos que nada. [Ibid., primeira parte, primeiro capítulo, p.66-67]
O ser é o pensamento puro. "O ser puro", diz Hegel na Enzyklopädie,
Constitui o começo porque é tanto puro pensamento quanto o imediato indeterminado, simples, o e o primeiro início não pode ser nada mediado ou mais determinado. [HEGEL, G. "Enzyklopädie der philosophischen Wissenschaften im Grundrisse I". In:. Werke. Vol.8. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1970, § 86, p.182-2]
A Lógica se dá inteira no elemento do pensamento livre. Nesse sentido, ela pressupõe a Fenomenologia, que trouxe a consciência ao conceito da ciência, ou ao saber puro. É por isso que o ser puro pode ser concebido como idêntico ao puro intuir ou ao puro pensamento. O puro pensamento é o pensamento que abstraiu de si absolutamente toda determinidade, o pensamento pensante. Este se identifica com o puro nada. O ser é o nada. Da mesma maneira, quando concebo o nada, estou concebendo o pensamento pensante, o ser abstrato-abstrainte. O nada é o ser.
A verdade do ser e do nada é, para Hegel, o devir, pois "o que é a verdade não é nem o ser nem o nada mas que o ser passa -- ou melhor, já passou -- ao nada e o nada ao ser." [HEGEL, G. Wissenschaft... ibid.]
Mas pode objetar-se que não há trânsito efetivo do nada ao ser ou vice-versa. Se o ser é conceitualmente o mesmo que o nada, e o nada, o mesmo que o ser, então só uma ilusão pode levar alguém a falar de transição, pois o mesmo não transita ao mesmo. Prevendo essa possível objeção, Hegel afirma que
tão correta quanto a unidade de ser e nada é porém também que são absolutamente distintos -- que um não é o que o outro é. Apenas, uma vez que a diferença aqui ainda não se determinou, pois justamente ser e nada são ainda o imediato, ela é, como se encontra neles, o indizível, a mera opinião. [HEGEL, G. Enzyklopädie I, § 88, p.188]
Contudo, a verdade é que essa diferença jamais se torna mais precisa. Ela não é capaz de superar o status de doxa, imaginação, ilusão. O tornar-se não pode ser a identidade do ser absoluto e do nada absoluto justamente porque ele é diferente tanto de um quanto de outro, que são idênticos. O ser absoluto é conceitualmente idêntico ao nada absoluto, e isso basta. Por essa razão, resulta ininteligível a explicação de Hegel para a coagulação do tornar-se no estar aí (Dasein) ou no ser determinado:
O tornar-se contém em si o ser e o nada, e de tal maneira que esses dois simplesmente se transformam um no outro e se superam mutuamente. Com isso, o tornar-se se demonstra como inteiramente inquieto, mas incapaz de se manter nessa inquietação abstrata; pois na medida em que ser e nada se esvanecem no devir e só isto é o seu conceito, ele próprio é um esvanecente, feito um fogo que se consome em si mesmo enquanto devora o seu material. Mas o resultado desse processo não é o nada vazio mas o ser idêntico à negação, que chamamos estar aí (Dasein)... [Ibid., § 89, p.195]
Ora, como já foi dito, se o ser é idêntico ao nada, não há tornar-se um o outro. Isso significa que, dado que o devir é o elo entre o momento do ser-nada e o momento do estar aí (Dasein), isto é, do ser determinado, pode declarar-se insatisfatória a passagem crucial do primeiro para o segundo capítulo da Lógica. Isso não significa que não haja uma diferença fundamental entre o ser ou o nada absoluto e o ser determinado. Muito pelo contrário: trata-se da verdadeira diferença ontológica. O que a insuficiência da derivação hegeliana significa é que o conceito de ser absoluto ou o absoluto abstrato não pode ser reduzido a uma representação inadequada do ser determinado. Assim, desde o primeiro passo não se realiza a pretensão hegeliana de que o absoluto abstrato não passe da mais pobre das definições do absoluto, destinada a ser relativamente superada por todos os significados subseqüentes revelados pela Lógica.
Há outras formas de considerar a relação entre o ser absoluto e a determinidade. Chegamos ao ser absoluto ou ao nada absoluto através da abstração absoluta. Trata-se da atividade de negação absoluta. Em primeiro lugar, uma tal atividade se constitui como o não-ser de todas as outras coisas, como o nada dessas coisas, não porque as destrua mas porque as nega de si ou se nega a elas. Ao negá-las de si, isto é, ao negá-las da negação, a negação absoluta se dá como negação negante e as coisas negadas são por ela constituídas como negações negadas. A negação negada é positividade. Logo, a positividade pode ser também considerada como negação relativa. É, portanto, a negação relativa, ou melhor, a negação negada, que normalmente dizemos ser isto ou aquilo. A negação absoluta, porém, nada tem de relativo, nada tem de negado. Ela consiste em pura negação negante.
23.2.07
21.2.07
Ser e nada
Em Póvoa de Varzim um grupo de escritores conversava casualmente um dia sobre os grandes inícios de romances. Entre os mais conhecidos mencionaram-se, é claro, o de Dom Quixote, o da Recherche, o de Moby Dick, o de Brás Cubas, o de L’Étranger etc. A conversa me levou a pensar nos grandes inícios também de obras filosóficas, como o da Metafísica de Aristóteles ou o do Discours de la méthode, de Descartes, e me lembrou uma coisa que eu já havia quase esquecido. É que, décadas atrás, ao ler o livro Beginnings, de Edward Saïd, fiquei decepcionado ao constatar que ele sequer mencionava um início que me parecia pelo menos tão notável quanto qualquer outro: o da Ciência da lógica, de Hegel. É claro que Saïd não era filósofo e se preocupava sobretudo com a literatura, mas, a meu ver, o começo da Ciência da lógica não é apreciável apenas enquanto filosofia, de modo que merece figurar em qualquer discussão sobre inícios importantes ou geniais. A bem da verdade, é preciso também reconhecer que não me refiro aqui ao começo absoluto do livro, uma vez que abstraio dos seus prefácios e da sua introdução; entretanto creio que, mesmo sem ser o início literal do livro, o primeiro capítulo da primeira parte do primeiro livro da Ciência da lógica pode e deve ser considerado como o início da LÓGICA propriamente dita de Hegel. Esse começo compreende, segundo o esquema dialético, três partes: A. Ser; B. Nada; e C. Devir. Não sou hegeliano e penso – como aliás explico no meu livro O mundo desde o fim – que a terceira parte, não obstante sua crucialidade para toda a dialética hegeliana, é simplesmente sofística. Entretanto, o que aqui me interessa é chamar atenção para as partes A. e B., que, conjuntamente, considero como um dos mais impressionantes princípios de um livro e um dos exemplos supremos do sublime filosófico. Sei que, longe de ser uma novidade, trata-se de um clássico que os filósofos, os professores e os estudantes de filosofia certamente já terão lido, relido e comentado, mas acredito que jamais o poderiam fazer em demasia; e que as outras pessoas provavelmente lucrarão com a leitura, ao menos uma vez na vida, do breve princípio desse grande e difícil livro. Ei-lo, primeiro em tradução para o português e, a seguir, no original alemão.
C.W.F. Hegel
Ciência da Lógica
Primeiro Livro
Primeira Parte
Primeiro Capítulo
A. Ser
Ser, ser puro, – sem qualquer outra determinação. Em sua imediaticidade indeterminada ele é igual apenas a si mesmo e também não é desigual a outra coisa, destituído de distinção interna ou externa. Através de qualquer determinação ou conteúdo que o diferenciasse internamente ou que o supusesse como diferente de outra coisa, ele perderia sua pureza. Ele é indeterminação e vazio puros. – Não há nada nele a ser contemplado, se é que se pode aqui falar de contemplação; ou então ele é só essa pura e vazia contemplação mesma. Tampouco há algo nele a ser pensado, ou então ele é do mesmo modo só esse puro pensamento. O ser, o imediato indeterminado é na verdade nada, e não mais nem menos que nada.
B. Nada
Nada, nada puro é simples igualdade consigo mesmo, perfeito vazio, ausência de determinação e conteúdo; em si mesmo, indiferenciação. – Porquanto contemplação ou pensamento possam aqui ser mencionados, vale como uma diferença se algo ou se nada é contemplado ou pensado.
Se são diferentes, então nada contemplar ou pensar tem um significado; logo nada é (existe) em nossa contemplação ou pensamento; ou melhor, ele é a contemplação ou o pensamento vazio mesmo, a mesma contemplação ou pensamento vazio que o próprio ser. – Nada é, portanto, a mesma determinação, ou melhor, a mesma indeterminação, que o puro ser e, com isso, simplesmente o mesmo que o puro ser.
Wissenschaft der Logik
Erstes Buch
Erster Abschnitt
Erstes Kapitel
A. Sein
Sein, reines Sein, - ohne alle weitere Bestimmung. In seiner unbestimmten Unmittelbarkeit ist es nur sich selbst gleich und auch nicht ungleich gegen Anderes, hat keine Verschiedenheit innerhalb seiner noch nach außen. Durch irgendeine Bestimmung oder Inhalt, der in ihm unterschieden oder wodurch es als unterschieden von einem Anderen gesetzt würde, würde es nicht in seiner Reinheit festgehalten. Es ist die reine Unbestimmtheit und Leere. - Es ist nichts in ihm anzuschauen, wenn von Anschauen hier gesprochen werden kann; oder es ist nur dies reine, leere Anschauen selbst. Es ist ebensowenig etwas in ihm zu denken, oder es ist ebenso nur dies leere Denken. Das Sein, das unbestimmte Unmittelbare ist in der Tat Nichts und nicht mehr noch weniger als Nichts.
B. Nichts
Nichts, das reine Nichts; es ist einfache Gleichheit mit sich selbst, vollkommene Leerheit, Bestimmungsund Inhaltslosigkeit; Ununterschiedenheit in ihm selbst. - Insofern Anschauen oder Denken hier erwähnt werden kann, so gilt es als ein Unterschied, ob etwas oder nichts angeschaut oder gedacht wird. Nichts Anschauen oder Denken hat also eine Bedeutung; beide werden unterschieden, so ist (existiert) Nichts in unserem Anschauen oder Denken; oder vielmehr ist es das leere Anschauen und Denken selbst und dasselbe leere Anschauen oder Denken als das reine Sein. - Nichts ist somit dieselbe Bestimmung oder vielmehr Bestimmungslosigkeit und damit überhaupt dasselbe, was das reine Sein ist.
C.W.F. Hegel
Ciência da Lógica
Primeiro Livro
Primeira Parte
Primeiro Capítulo
A. Ser
Ser, ser puro, – sem qualquer outra determinação. Em sua imediaticidade indeterminada ele é igual apenas a si mesmo e também não é desigual a outra coisa, destituído de distinção interna ou externa. Através de qualquer determinação ou conteúdo que o diferenciasse internamente ou que o supusesse como diferente de outra coisa, ele perderia sua pureza. Ele é indeterminação e vazio puros. – Não há nada nele a ser contemplado, se é que se pode aqui falar de contemplação; ou então ele é só essa pura e vazia contemplação mesma. Tampouco há algo nele a ser pensado, ou então ele é do mesmo modo só esse puro pensamento. O ser, o imediato indeterminado é na verdade nada, e não mais nem menos que nada.
B. Nada
Nada, nada puro é simples igualdade consigo mesmo, perfeito vazio, ausência de determinação e conteúdo; em si mesmo, indiferenciação. – Porquanto contemplação ou pensamento possam aqui ser mencionados, vale como uma diferença se algo ou se nada é contemplado ou pensado.
Se são diferentes, então nada contemplar ou pensar tem um significado; logo nada é (existe) em nossa contemplação ou pensamento; ou melhor, ele é a contemplação ou o pensamento vazio mesmo, a mesma contemplação ou pensamento vazio que o próprio ser. – Nada é, portanto, a mesma determinação, ou melhor, a mesma indeterminação, que o puro ser e, com isso, simplesmente o mesmo que o puro ser.
Wissenschaft der Logik
Erstes Buch
Erster Abschnitt
Erstes Kapitel
A. Sein
Sein, reines Sein, - ohne alle weitere Bestimmung. In seiner unbestimmten Unmittelbarkeit ist es nur sich selbst gleich und auch nicht ungleich gegen Anderes, hat keine Verschiedenheit innerhalb seiner noch nach außen. Durch irgendeine Bestimmung oder Inhalt, der in ihm unterschieden oder wodurch es als unterschieden von einem Anderen gesetzt würde, würde es nicht in seiner Reinheit festgehalten. Es ist die reine Unbestimmtheit und Leere. - Es ist nichts in ihm anzuschauen, wenn von Anschauen hier gesprochen werden kann; oder es ist nur dies reine, leere Anschauen selbst. Es ist ebensowenig etwas in ihm zu denken, oder es ist ebenso nur dies leere Denken. Das Sein, das unbestimmte Unmittelbare ist in der Tat Nichts und nicht mehr noch weniger als Nichts.
B. Nichts
Nichts, das reine Nichts; es ist einfache Gleichheit mit sich selbst, vollkommene Leerheit, Bestimmungsund Inhaltslosigkeit; Ununterschiedenheit in ihm selbst. - Insofern Anschauen oder Denken hier erwähnt werden kann, so gilt es als ein Unterschied, ob etwas oder nichts angeschaut oder gedacht wird. Nichts Anschauen oder Denken hat also eine Bedeutung; beide werden unterschieden, so ist (existiert) Nichts in unserem Anschauen oder Denken; oder vielmehr ist es das leere Anschauen und Denken selbst und dasselbe leere Anschauen oder Denken als das reine Sein. - Nichts ist somit dieselbe Bestimmung oder vielmehr Bestimmungslosigkeit und damit überhaupt dasselbe, was das reine Sein ist.
17.2.07
Portugal
No Pap'Açorda, em Lisboa, o romancista Leandro Müller, o poeta Gastão Cruz, eu e o poeta Eucanaã Ferraz
Do dia 6 a 16 de fevereiro estive em Portugal. É o que explica o fato de que este blog tenha estado, nesse período, relativamente inativo.
Em Póvoa do Varzim, cidade próxima ao Porto, participei, pela segunda vez, do encontro anual de escritores de expressão ibérica Correntes D'Escritas, magistralmente coordenados por Manuela Costa Ribeiro e Francisco Guedes. Mais uma vez, esse encontro me deu a oportunidade extraordinária de conviver com escritores que admiro, conhecer novos e reencontrar velhos amigos, e trocar idéias não só sobre a literatura, mas sobre todas as coisas e mais algumas. Correndo o risco de esquecer pessoas entretanto inesquecíveis, destaco as presenças de Ana Paula Tavares, de Angola, de Carlos Quiroga, da Galiza, de Enrique Vila-Matas e Perfecto Cuadrado, da Espanha, e de Fernando Pinto do Amaral, Helder Macedo, Inês Pedrosa, Lídia Jorge, Onésimo Teotónio de Almeida e Ana Luíza Amaral, de Portugal. Ana Luíza recebeu o principal prêmio literário das Correntes D'Escritas pelo seu belo livro A gênese do amor. Foi premiado também o jovem escritor Nuno Atalaia Rodrigues, de quem provavelmente ainda ouviremos muito. Os brasileiros em Póvoa fomos eu, o poeta Eucanaã Ferraz e a escritora Nélida Piñon, que pronunciou a conferência de abertura, "A memória secreta da mulher".
Depois das Correntes D'Escritas, Eucanaã Ferraz e eu fomos para Lisboa, onde, no dia 12, na Fundação Luso-Brasileira de Cultura, em seguida a uma mesa sobre poesia com os poetas portugueses Pedro Tamen e Gastão Cruz, foram pronunciadas, pela ensaísta e professora na Universidade do Porto, Rosa Maria Martelo, belas e perspicazes apresentações do meu livro de ensaios Finalidades sem fim e do livro de poemas de Eucanaã, Rua do mundo, cujas edições portuguesas, da Editora Quasi, acabam de ser lançadas.
No dia seguinte, assistimos ao extraordinário desempenho de Pedro Cardoso no seu O autofalante, no teatro A Barraca. Em seguida ao espetáculo, no bar do teatro, após sermos apresentados ao público pelo maravilhoso ator e recitador de poesia Changuito, fizemos uma leitura de poemas. Eucanaã leu coisas suas, li coisas minhas e Pedro Cardoso leu trechos de Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima.
Hoje, no jornal Expresso, de Lisboa, o crítico literário Francisco Belard, escrevendo sobre as Correntes D'Escrita, intitula seu artigo "Póvoa, rua do mundo". Cito a seguir o trecho em que ele se refere a mim e a Eucanaã:
"O título a que recorro acima é porém tomado a Eucanaã Ferraz, poeta brasileiro que uma vez mais nos visitou, para apresentar Rua do Mundo (Quasi, 2007). Mas também ele o tomou de empréstimo à lisboeta Rua do Mundo (ou de «O Mundo», jornal extinto), hoje Rua da Misericórdia, como ressalta do poema com o mesmo título. Nessa rua viveu Luiza Neto Jorge, como Eucanaã sabe e lembrou. É o quarto livro do autor (a edição brasileira é de 2004) e o segundo a sair entre nós, depois de Desassombro (2001). Uma leitura penetrante da sua obra em relação com outras poéticas é feita no posfácio por Rosa Maria Martelo.
"Eucanaã é um dos autores a quem outro brasileiro presente na Póvoa, Antonio Cicero, agradece «sugestões e estímulo» na introdução à recolha de ensaios Finalidades sem Fim (Quasi, 2007, dedicando-lhe um deles, «Poesia e filosofia»), um dos mais importantes livros que por ali passaram sem dar muito nas vistas, o que não causa espanto, pois os romances e os romancistas costumam provocar maior alarido e atraem mais pedidos de autógrafos e de entrevistas. Já ali encontráramos Cicero, com os poemas de A Cidade e os Livros (2006) e um CD brasileiro de poesia dita por ele. Se andássemos à procura de coincidências, podíamos notar que a frase de Blanchot segundo a qual a literatura se encaminha «para a sua essência, que é o desaparecimento» (1959), surge num dos estudos de Cicero e no texto ficcional de Vila-Matas Doutor Pasavento (Teorema, 2007). Nenhum deles mostra aderir à frase, que em Vila-Matas podia mesmo desviar-se do uso metafórico para ser o recurso literal de um tema, o desaparecimento físico, que assombra parodicamente ficções do escritor barcelonês. Mas esses dois autores, cujas obras não podiam ser mais diferentes, manifestam aguda consciência da literariedade, do espaço literário ou da experiência dos limites e ainda da reflexão crítica e respectiva subversão."
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Efemérides
10.2.07
PROVA
PROVA
Para José Miguel Wisnik
Traçada em vermelho sangue, a nota, sob
o triângulo retângulo formado
por uma dobra ao canto superior
direito da folha de papel almaço
pautado que suportara aquela prova
final de matemática, reprovava-o.
Justa recompensa para quem em toda
aula refolhando-se em si mesmo, sáfaro,
ensimesmado e contudo alienado
de si, não reconhece jamais a imagem
pura que dele o duro espelho cifrado
da matemática, ao refletir, refrange.
Distrai-se a ouvir sirenes, risos de moças
lá longe, lotações, bondes, bicicletas
a fugir da escola rumo a nebulosas
destinações. Vê que esqueceu a caneta.
Acha um toco de lápis que com os dentes
e as unhas aponta e, surdo para leis
que alguém que não ele mesmo delibere –
gênio, deus, demônio, anjo, monstro ou rei –,
debruça-se em seu caderno a rabiscar
quiçá uma gramática especulativa
ou uma característica universal
excogitada por via negativa
e abstrusa, e acintosamente descura
das matérias do curso e dos professores
e alunos que o cercam e jamais capturam.
A sineta toca. Pelos corredores
pensa no pai, na mãe, na avó, no vexame
e na decepção de todos. Seu fastio
é enorme: despreza a vida e a gravidade
com que a encaram. Pondera o suicídio
e se sente mais leve. Pode atirar-se
do terraço do prédio do consultório
do seu dentista, alto sobre a cidade.
Fora da escola toma um sorvete e um ônibus
até o ponto final, no centro. Caminha
até o edifício, pega o elevador
até o último andar, depois ainda
galga um lance de escadas e alcança ao pôr-
do-sol a cidade alâmbar a seus pés.
Decide escrever uma carta ou uma nota
no próprio papel da prova, mas cadê
o toco de lápis? Largara-o na escola.
Resolve deixar para alguma outra hora
o suicídio. Dobra o papel, desdobra,
dobra e o solta a dar voltas, revoltas, voltas
acima de todas as coisas, gaivota.
Para José Miguel Wisnik
Traçada em vermelho sangue, a nota, sob
o triângulo retângulo formado
por uma dobra ao canto superior
direito da folha de papel almaço
pautado que suportara aquela prova
final de matemática, reprovava-o.
Justa recompensa para quem em toda
aula refolhando-se em si mesmo, sáfaro,
ensimesmado e contudo alienado
de si, não reconhece jamais a imagem
pura que dele o duro espelho cifrado
da matemática, ao refletir, refrange.
Distrai-se a ouvir sirenes, risos de moças
lá longe, lotações, bondes, bicicletas
a fugir da escola rumo a nebulosas
destinações. Vê que esqueceu a caneta.
Acha um toco de lápis que com os dentes
e as unhas aponta e, surdo para leis
que alguém que não ele mesmo delibere –
gênio, deus, demônio, anjo, monstro ou rei –,
debruça-se em seu caderno a rabiscar
quiçá uma gramática especulativa
ou uma característica universal
excogitada por via negativa
e abstrusa, e acintosamente descura
das matérias do curso e dos professores
e alunos que o cercam e jamais capturam.
A sineta toca. Pelos corredores
pensa no pai, na mãe, na avó, no vexame
e na decepção de todos. Seu fastio
é enorme: despreza a vida e a gravidade
com que a encaram. Pondera o suicídio
e se sente mais leve. Pode atirar-se
do terraço do prédio do consultório
do seu dentista, alto sobre a cidade.
Fora da escola toma um sorvete e um ônibus
até o ponto final, no centro. Caminha
até o edifício, pega o elevador
até o último andar, depois ainda
galga um lance de escadas e alcança ao pôr-
do-sol a cidade alâmbar a seus pés.
Decide escrever uma carta ou uma nota
no próprio papel da prova, mas cadê
o toco de lápis? Largara-o na escola.
Resolve deixar para alguma outra hora
o suicídio. Dobra o papel, desdobra,
dobra e o solta a dar voltas, revoltas, voltas
acima de todas as coisas, gaivota.
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Antonio Cicero,
Poesia
8.2.07
A MORTE DE ARQUIMEDES DE SIRACUSA
A MORTE DE ARQUIMEDES DE SIRACUSA
Os equilíbrios dos planos, as quadraturas
das parábolas, os cálculos da areia,
das esferas, dos cilindros e das estrelas:
nada do que realizei se encontra à altura
do que há por fazer. A matemática é longa,
a vida breve; e logo agora Siracusa,
sitiada, quer alavancas, catapultas,
dispositivos catóptricos, cuja obra
suga meu sangue, que é meu tempo. Por milagre,
hoje deixaram-me em paz. Na garganta trago
intuições por formular: áspero e amargo
pássaro engasgado. Nas paredes não cabe
mais diagrama algum. Traço-os no chão do períbolo,
na terra. Quem vem lá? Não pises nos meus círculos!
Os equilíbrios dos planos, as quadraturas
das parábolas, os cálculos da areia,
das esferas, dos cilindros e das estrelas:
nada do que realizei se encontra à altura
do que há por fazer. A matemática é longa,
a vida breve; e logo agora Siracusa,
sitiada, quer alavancas, catapultas,
dispositivos catóptricos, cuja obra
suga meu sangue, que é meu tempo. Por milagre,
hoje deixaram-me em paz. Na garganta trago
intuições por formular: áspero e amargo
pássaro engasgado. Nas paredes não cabe
mais diagrama algum. Traço-os no chão do períbolo,
na terra. Quem vem lá? Não pises nos meus círculos!
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