Pronominais
Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro
BLOG DE ANTONIO CICERO: poesia, arte, filosofia, crítica, literatura, política
Pronominais
Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro
Geografia
sombras ancestrais
claras manhãs
em que margem?
ainda que a memória esbata as horas
o que há são espaços perdidos
uma casa
uma viagem
cabelos soltos em minhas mãos
GUIMARÃES, Júlio Castañon. "Geografia". In: FÉLIX, Moacyr (org.). 41 poetas do Rio. Rio de Janeiro: Funarte, 1998.
Tambores
Para Elton Medeiros
Sou da terra
dos tambores que falam.
E guardo no corpo a memória
que acorda o silêncio.
Eu vi a lua descer
para assistir minha mãe
dançar.
a camponesa que amava
latim.
eu vi a mão preta açoitar
o tambor; eu ouvi
roncar a madeira sagrada:
o rito da voz ancestral
antes do cogito e da parabólica.
XII
Confinado num corpo
de dúbia propriedade
provido de um contorno
muito bem delineado,
procura na palavra
(por mais escarnecida)
a possibilidade
de uma quase saída
rumo a um outro eu
novo do cerne à casca
ou então, faute de mieux,
a uma boa máscara.
BRITTO, Paulo Henriques. "XII" da série Caderno. In: SABINO, Paulo (org.). A estante dos poetas. Antologia. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2020.
Miragem em abismo
não sei de que tecido é feito o ser.
meus planos sonhos enganos
se tecem na fábrica da vida
e se destecem na arquitetura do caos.
vou criando edifícios em que me
demoro
e de onde salto em busca de não sei.
meu ser é parte dessa miragem
em abismo
um espelho em que me não vejo
e em me não vendo acendo a chama
que se chama desejo.
talvez do outro lado exista um cais.
sei que sempre existe certa distância
entre mim
e o circo da minha circunstância
CARNEIRO, Geraldo. "Miragem em abismo". In: SABINO, Paulo (org.). A estante dos poetas. Antologia. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2020.
Linha de fundo
Assim meio jogado pra escanteio,
volto ao poema, este local do crime.
Mas é o desprezo que melhor exprime
aquilo que no verso eu trapaceio.
Se nada do que digo me define,
cópia pirata de um desejo alheio,
revelo a ti, leitor, o que eu anseio:
um abutre no cadáver do sublime.
A matéria é talvez muito indigesta,
me obriga a convocar um mutirão
para acabar com toda aquela festa
de pétalas e plumas de plantão.
Memória derrubada pelo vento,
quero aqui só lembrar o esquecimento.
SECCHIN, Antonio Carlos. "Linha de fundo". In: SABINO, Paulo (org.). A estante dos poetas. Antologia. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2020.
A cebola
Cortá-la camada
por camada
até chegar
ao centro.
((Ao bulbo do nada
do eu mais
dentro)).
Não chorar.
ESPÍNOLA, Adriano. "A cebola". In: SABINO, Paulo (org.). A estante dos poetas. Antologia. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2020.