15.5.21

Oswald de Andrade: "Pronominais"

 



Pronominais


Dê-me um cigarro

Diz a gramática

Do professor e do aluno

E do mulato sabido

Mas o bom negro e o bom branco

Da Nação Brasileira

Dizem todos os dias

Deixa disso camarada

Me dá um cigarro








ANDRADE, Oswald. "Pronominais". In: MORICONI, Ítalo (org.). Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

13.5.21

Júlio Castañon Guimarães: "Geografia"

 



Geografia


sombras ancestrais

claras manhãs

em que margem?

ainda que a memória esbata as horas

o que  há são espaços perdidos

uma casa

uma viagem

cabelos soltos em minhas mãos




GUIMARÃES, Júlio Castañon. "Geografia". In: FÉLIX, Moacyr (org.). 41 poetas do Rio. Rio de Janeiro: Funarte, 1998.


11.5.21

Salgado Maranhão: "Tambores"

 



Tambores

                    Para Elton Medeiros


Sou da terra

dos tambores que falam.

E guardo no corpo a memória

que acorda o silêncio.


Eu vi a lua descer

para assistir minha mãe

dançar.


a camponesa que amava

latim.


eu vi a mão preta açoitar

o tambor; eu ouvi

roncar a madeira sagrada:


o rito da voz ancestral

antes do cogito e da parabólica.






MARANHÃO, Salgado. "Tambores". In: SABINO, Paulo (org.). A estante dos poetas. Antologia. Rio de Janeiro: Ibis Libris.

8.5.21

Paulo Henriques Britto: "XII". Da série Caderno

 



XII



Confinado num corpo

de dúbia propriedade

provido de um contorno

muito bem delineado,


procura na palavra

(por mais escarnecida)

a possibilidade

de uma quase saída


rumo a um outro eu

novo do cerne à casca

ou então, faute de mieux,

a uma boa máscara.




BRITTO, Paulo Henriques. "XII" da série Caderno. In: SABINO, Paulo (org.). A estante dos poetas. Antologia. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2020.

6.5.21

Geraldo Carneiro: "Miragem em abismo"

 



Miragem em abismo


não sei de que tecido é feito o ser.

meus planos sonhos enganos

se tecem na fábrica da vida

e se destecem na arquitetura do caos.

vou criando edifícios em que me

                                           demoro

e de onde salto em busca de não sei.

meu ser é parte dessa miragem

                                           em abismo

um espelho em que me não vejo

e em me não vendo acendo a chama

que se chama desejo.


 talvez do outro lado exista um cais.

sei que sempre existe certa distância

                                          entre mim

e o circo da minha circunstância

 


CARNEIRO, Geraldo. "Miragem em abismo". In: SABINO, Paulo (org.). A estante dos poetas. Antologia. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2020.

4.5.21

Antonio Carlos Secchin. "Linha de fundo"

 



Linha de fundo


Assim meio jogado pra escanteio,

volto ao poema, este local do crime.

Mas é o desprezo que melhor exprime

aquilo que no verso eu trapaceio.

Se nada do que digo me define,

cópia pirata de um desejo alheio,

revelo a ti, leitor, o que eu anseio:

um abutre no cadáver do sublime.

A matéria é talvez muito indigesta,

me obriga a convocar um mutirão

para acabar com toda aquela festa

de pétalas e plumas de plantão.

Memória derrubada pelo vento,

quero aqui só lembrar o esquecimento.





SECCHIN, Antonio Carlos. "Linha de fundo". In: SABINO, Paulo (org.). A estante dos poetas. Antologia. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2020.

2.5.21

Adriano Espínola: "A cebola"

 



A cebola



Cortá-la camada

por camada

até chegar


ao centro.


((Ao bulbo do nada

do eu mais

dentro)).


Não chorar.




ESPÍNOLA,  Adriano. "A cebola". In: SABINO, Paulo (org.). A estante dos poetas. Antologia. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2020.