29.5.19

Bocage: "Soneto XLVIII"




Soneto XLVIII

Já por bárbaros climas entranhado,
Já por mares inóspitos vagante,
Vítima triste da fortuna errante,
Té dos mais desprezíveis desprezado:

Da fagueira esperança abandonado,
Lassas as forças, pálido o semblante,
Sinto rasgar meu peito a cada instante
A mágoa de morrer expatriado.

Mas, ah! Quem bem maior, se contra a sorte
Lá do sepulcro no sagrado hospício
Refúgio me promete a amiga Morte!

Vem, pois, ó nume aos míseros propício,
Vem livrar-me da mão pesada e forte,
Que de rastos me leva ao precipício!




BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. "Soneto XLVIII. In:_____. Sonetos de Bocage. São Paulo: Edições Saraiva, 1956, tomo II.

27.5.19

Conferência de Antonio Cicero: "Poesia e música a partir de Homero"



Eis a conferência “Poesia e música a partir de Homero”, que fiz na Academia Brasileira de Letras no dia 16 de maio. Ela fez parte do ciclo de conferências “Poesia cantada: melodia e verso”, sob a coordenação do Acadêmico e jornalista Zuenir Ventura. A Acadêmica e escritora Ana Maria Machado é a coordenadora geral dos ciclos de conferências de 2019.


25.5.19

Ricardo Silvestrin: "Ofício"




Ofício

Não tem atalho
na travessia do artista.

Seu nome é trabalho,
embora o ócio
faça parte do ofício.

Embora ria enquanto
pega no pesado.

Outros sonhem 
com aposentadoria.

O trabalho do artista
vai até o último dia.




SILVESTRIN, Ricardo. "Ofício". In:_____. Sobre o que. São Paulo: Patuá, 2019.

23.5.19

"Poesia e Prosa": programa de Maria Bethania em homenagem a Waly Salomão




Assistam à bela homenagem que Maria Bethania fez ao poeta Waly Salomão, em seu programa "Poesia e Prosa", no canal Arte 1. Do programa participaram José Miguel Wisnik, Jards Macalé e Antonio Cicero.


20.5.19

Luís de Camões: "Oh, como se me alonga, de ano em ano"




Oh, como se me alonga, de ano em ano,
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
Este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
Perde-se-me um remédio, que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece,
Mil vezes caio, e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
Se os olhos ergo a ver se inda parece,
Da vista se me perde e da esperança.





CAMÕES, Luís de. "Oh, como se me alonga, de ano em ano". In:_____. Lírica. São Paulo: Cultrix, 1981.

18.5.19

Alain: "Le vrai poète..." \ "O verdadeiro poeta..."





Le vrai poète est celui qui trouve l’idée en forgeant le vers.





O verdadeiro poeta é aquele que encontra a ideia ao forjar o verso.






ALAIN. Préliminaires à l'esthétique. Paris: Gallimard, 1939.







16.5.19

Jorge Luis Borges: "El ciego" / "O cego": trad. de Augusto de Campos




O cego

I

Foi despojado do diverso mundo,
Dos rostos, que ainda são o que eram antes,
Das ruas próximas, hoje distantes,
E do côncavo azul, ontem profundo.

Dos livros lhe restou só o que deixa
A memória, essa fórmula do olvido
Que o formato retém, não o sentido,
E que apenas os títulos enfeixa.

O desnível espreita. Cada passo
Pode levar à queda. Sou o lento
Prisioneiro de um tempo sonolento

Que não registra aurora nem ocaso.
É noite. Não há outros. Com o verso
Lavro este meu insípido universo.





El ciego

II

Lo han despojado del diverso mundo,
De los rostros, que son lo que eran antes.
De las cercanas calles, hoy distantes,
Y del cóncavo azul, ayer profundo.

De los libros le queda lo que deja
La memoria, esa forma del olvido
Que retiene el formato, no el sentido,
Y que los meros títulos refleja.

El desnivel acecha. Cada paso
Puede ser la caída. Soy el lento
Prisionero de un tiempo soñoliento

Que no marca su aurora ni su ocaso.
Es de noche. No hay otros. Con el verso
Debo labrar mi insípido universo.




BORGES, Jorge Luis. "El ciego" / "O cego". In: CAMPOS, Augusto de. (Org. e trad.). Quase Borges. 20 poemas e uma entrevisa. São Paulo: Terracota, 2013.