1.4.23

Gregório de Matos: "À instabilidade das coisas do mundo"

 



À instabilidade das cousas do mundo



Nasce o sol, e não dura mais que um dia,

Depois da luz, se segue a noite escura,

>m tristes sombras morre a formosura,

Em contínuas tristezas, a alegria.


Porém, se acaba o sol, por que nascia?

Se é tão formosa a luz, por que não dura?

Como a beleza assim se transfigura?

Como o gosto da pena assim se fia?


Mas, no sol, e na  luz, falta a firmeza;

Na formosura, não se dê constância, 

E, na alegria, sinta-se tristeza.


Começa o mundo enfim pela ignorância, 

E tem qualquer dos bens por natureza:

A firmeza, somente na inconstância.





MATOS, Gregório de. "A instabilidade das cousas do mundo". In: "Gregório de Matos". In: AMORA, Antonio Soares (org.). Panorama da poesia brasileira. Vol. I. "Era luso-brasileira". Editora Civilização Brasileira, S.A. Rio de Janeiro - São Paulo - Bahia, 1959




17.3.23

Waly Salomão: "ORAÇÃO AOS MOÇOS"

 




ORAÇÃO AOS MOÇOS




De tanto ver triunfar as nulidades

..........................

.............................

................................

..................................

.....................................

.............nutro grandes esperanças.









"ORAÇÃO AOS MOÇOS". In: SALOMÃO, Waly. In: "Tarifa de embarque. 2000". In: Poesia total. São Paulo: Companhia das Letrss, 2014. 

10.3.23

Nelson Ascher: "Outra gata"

 



OUTRA GATA

                                                           P/ HAROLDO, felinófilo

 

A minha gata feita
de pelo e de preguiça
ronrona satisfeita
e às vezes se espreguiça.


Seu pelo é muito preto,
seu passo é muito leve,
seu pulo é tão quieto
quanto o cair da neve.

Nobreza não lhe falta
no jeito aristocrata,
sua linhagem alta
se chama vira-lata.

De dia, no seu canto,
diverte-se sozinha
tomando sol enquanto
mastiga uma sardinha.

À noite, paciente,
embosca a sua presa
que, quando nem pressente,
é pega de surpresa.

Possui um fino olfato
de caçadora inata
que, se não acha rato,
persegue até barata.

Com garras afiadas
retalha em mil fatias
após suas caçadas
as presas arredias.

A minha gata feita
de pelo e de preguiça
ronrona satisfeita
e às vezes se espreguiça. 

 






ASCHER, Nelson. "Outra gata". In: Algo de sol. São Paulo: Editora 34. 1996.

4.3.23

Emily Dickinson: Não sou ninguém. Poemas. Tred. de Augusto de Campos




        23


Quer-se o Prazer -- antes --

Depois -- não sentir Dor --

Depois -- alguns Calmantes

Para lhe contrapor --


Depois -- adormecer --

Depois -- se bem prouver

Ao seu Inquisidor

O Luxo de morrer --




        23


The Heart asks Pleasure -- first -- 

And then -- Excuse from Pain --

And then -- those little Anodynes

That deaden suffering --


And then -- to go to sleep --

And then -- if it should be

The will of it's Inquisitor

The Luxury to die --


        (c.1862)






DICKINSON, Emily; Não sou ninguém; Poemas. Traduções de Augusto de Campos. 2ª ed. rev. e ampl. Campinas: Editora da Unicamp, 2015.

20.2.23

Eugen Gomringer: "der linie folgen" / "seguir a linha"

 



seguir a linha

ficar no espaço


abandonar a linha

ficar no espaço


abandonado no espaço

seguir a linha


abandonar o espaço

seguir a linha


abandonar a linha

encontrar o ponto









der linie folgen

im raum bleiben


die linie verlassen

im raum bleiben


velassen im raum

der linie folgen


den raum verlassen

der linie folgen


die linie verlassen

den punkt finden






GOMRINGER, Eugen. "der linie folgen". In: BLUME, Rosvitha Friesen; WEININGER, Markus J. (org.).. Seis décadas de poesia alemã. Do pós-guerra ao início do século XXI. Florianópolis: Editora UFSC, 2012.






12.2.23

 



Os meus Haikais



caridade


Desfolha-se a rosa:

parece até que floresce

o chão cor-de-rosa



infância


Um gosto de amora

comida com sol. A vida

chamava-se "Agora".





ALMEIDA, Guilherme de. "Os meus Haikais". In: Poesia.br: modernismo. Org. por Sergio Cohn. Rio de Janeiro: Beco do Azougue,2012.

9.2.23

Alice Ruiz: "Sim"

 



Sim.

Todos os poemas

são de amor.

Pela rima,

pelo ritmo,

pelo brilho

ou por alguém,

alguma coisa

que passava

na hora

em que a vida

virava palavra.





RUIZ, Alice S. "Sim". São Paulo. Companhia das Letras. Medida do Silêncio. Uma antologia comemorativa. 35 anos. 2021.