4.3.23

Emily Dickinson: Não sou ninguém. Poemas. Tred. de Augusto de Campos




        23


Quer-se o Prazer -- antes --

Depois -- não sentir Dor --

Depois -- alguns Calmantes

Para lhe contrapor --


Depois -- adormecer --

Depois -- se bem prouver

Ao seu Inquisidor

O Luxo de morrer --




        23


The Heart asks Pleasure -- first -- 

And then -- Excuse from Pain --

And then -- those little Anodynes

That deaden suffering --


And then -- to go to sleep --

And then -- if it should be

The will of it's Inquisitor

The Luxury to die --


        (c.1862)






DICKINSON, Emily; Não sou ninguém; Poemas. Traduções de Augusto de Campos. 2ª ed. rev. e ampl. Campinas: Editora da Unicamp, 2015.

20.2.23

Eugen Gomringer: "der linie folgen" / "seguir a linha"

 



seguir a linha

ficar no espaço


abandonar a linha

ficar no espaço


abandonado no espaço

seguir a linha


abandonar o espaço

seguir a linha


abandonar a linha

encontrar o ponto









der linie folgen

im raum bleiben


die linie verlassen

im raum bleiben


velassen im raum

der linie folgen


den raum verlassen

der linie folgen


die linie verlassen

den punkt finden






GOMRINGER, Eugen. "der linie folgen". In: BLUME, Rosvitha Friesen; WEININGER, Markus J. (org.).. Seis décadas de poesia alemã. Do pós-guerra ao início do século XXI. Florianópolis: Editora UFSC, 2012.






12.2.23

 



Os meus Haikais



caridade


Desfolha-se a rosa:

parece até que floresce

o chão cor-de-rosa



infância


Um gosto de amora

comida com sol. A vida

chamava-se "Agora".





ALMEIDA, Guilherme de. "Os meus Haikais". In: Poesia.br: modernismo. Org. por Sergio Cohn. Rio de Janeiro: Beco do Azougue,2012.

9.2.23

Alice Ruiz: "Sim"

 



Sim.

Todos os poemas

são de amor.

Pela rima,

pelo ritmo,

pelo brilho

ou por alguém,

alguma coisa

que passava

na hora

em que a vida

virava palavra.





RUIZ, Alice S. "Sim". São Paulo. Companhia das Letras. Medida do Silêncio. Uma antologia comemorativa. 35 anos. 2021.

20.1.23

Paul Éluard: "Belle épouse" / "Bela esposa": trad. de Maria Gabriela Llansol

 



BELA ESPOSA


Bela esposa de que não há memória

Ela saiu do seu leito

Como se entra na história






BELLE ÉPOUSE


Belle épouse de mémoire

Elle sortit de son lit

Comme on entre dans l'histoire.





ÉLUARD, Paul. "Belle épouse" / "Bela esposa". In: Últimos poemas de amor. Derniers poèmes d'amour. Tradução de Maria Gabriela Llansol. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2002. 

14.1.23

W.B. Yeats: "The coming of wisdom with time" / "Com o tempo a sabedoria": trad. por José Agostinho Baptista

 



COM O TEMPO A SABEDORIA



Embora muitas sejam as folhas, a raiz é só uma;

Ao longo dos enganadores dias da mocidade

Oscilaram ao sol minhas folhas, minhas flores;

Agora posso murchar no coração da verdade.






THE COMING OF WISDOM WITH TIME



Though leaves are many, the root is one;

Through all the lying days of my youth

I swayed my leaves and flowers in the sun;

Now I may wither into the truth.




YEATS, W.B. "The comingo of wisdom with time" / "Com o tempo a sabedoria". In: Uma antologia. Seleção e tradução por José Agostinho Baptista. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010.   


10.1.23

Gastão Cruz: "O tempo a vida"

 



O TEMPO A VIDA



Não coincide o tempo com a vida

tão tarde o aprendemos


Fora dele vivida conhecemos

antes de nela entrarmos a saída


Num retrocesso intemporal vivemos

intemporal decerto é a nossa vida






CRUZ, Gastão. "O tempo a vida". In: Rua de Portugal. Lisboa: Assírio & Alvim, 2002.