2.11.22

Régis Bonvicino: "Suor"

 



Suor



O mar o mormaço o meio-dia

um cão se delicia

nas ondas do mar

verde, a mata


verde avança

no rochedo

o esqueleto de um peixe 

na areia da praia


a brisa

o que tenho a dizer?

o que ela diz


o rouco marulho das ondas

sim 

e nada além de ser





BONVICINO,  Régis. "Suor". In: Até agora: poemas reunidos. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2010.

18.10.22

Mário de Andrade: "Na rua Aurora eu nasci"

 



Na rua Aurora eu nasci



Na rua Aurora eu nasci

na aurora de minha vida

E numa aurora cresci.


no largo do Paiçandu

Sonhei, foi luta renhida,

Fiquei pobre e me vi nu.


nesta rua Lopes Chaves

Envelheço, e envergonhado

nem sei quem foi Lopes Chaves.


Mamãe! me dá essa lua,

Ser esquecido e ignorado

Como esses nomes da rua.





ANDRADE, Mário de. "Na rua Aurora eu nasci". In:_____ "Lira Paulistana". In:_____. Poesias completas. Edição crítica de Diléa Zanotto Manfio. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1987.

12.10.22

ABL em defesa da democracia

 




Declaração da ABL em defesa da democracia


Com a aproximação do pleito de 30 de outubro, a Academia Brasileira de Letras reafirma seu compromisso em defesa da manutenção da democracia e seu repúdio a tentativas de enfraquecê-la por meio de intimidações aos poderes constituídos.

Opomo-nos a práticas ofensivas à liberdade de expressão, à diversidade étnica e de gênero. Manifestamos nosso irrestrito apoio à ciência, à preservação ambiental e nosso profundo respeito ao povo de todas as regiões do país, no endosso da livre e viva pluralidade cultural que nos caracteriza.

29.9.22

Armando Freitas Filho: "Longa vida"

 


Longa vida



Escrevo 

em último caso

ou como quem alcança

o último carro

como quem

por um triz

por um fio

não fica

no fim da linha

de uma estação sem flores

a ver navios









FREITAS FILHO, Armando. "Longa vida". In: Máquina de escrever.  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003.

18.9.22

Giuseppe Ungaretti: "Il porto sepolto": trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti

 



Il porto sepolto


Mariano il 29 giugno 1916


Vi arriva il poeta

e poi torna alla luce con i suoi canti

e li disperde


Di questa poesia

mi resta

quel nulla

d’inesauribile segreto







O porto sepulto


Mariano, 29 de junho de 1916



Ali chega o poeta

e depois regressa à luz com seus cantos

e os dispersa


Desta poesia 

me sobra

aquele nada

de inesgotável segredo








UNGARETTI, Giuseppe. "Il porto sepolto". In:_____:Poemas. Edição bilíngue. Trad. por Geraldo Holanda Cavalcanti. São Paulo: EDUSP, 2017,


10.9.22

Derek Walcott: "Map of the new world -- archipelagoes" / "Mapa do novo mundo -- arquipélagos: trad. por Nelson Ascher




Mapa do novo mundo -- arquipélagos



Ao cabo desta frase, choverá

À beira-chuva, uma vela.


A vela aos poucos perderá de vista as ilhas;

A fé nos portos de uma raça inteira

sumirá na neblina.


A guerra de dez anos terminou.

O cabelo de Helena: uma nuvem grisalha.

Tróia: um fosso branco de cinzas

junto ao mar onde garoa.


A garoa se retesa como as cordas de uma harpa.

Um homem de olhos nublados toma em mãos a chuva

e tange o primeiro verso da Odisseia.







Map of the new world --  archipelagoes



At the end of this sentence, rain will begin.

At the rain's edge, a sail.


Slowly the sail will lose sight of islands;

into a mist will go the belief in harbours

of an entire race.


The ten-years war is finished.

Helen's hair, a grey cloud.

Troy, a white ashpit

by the drizzling sea.


The drizzle tightens like the strings of a harp.

A man with clouded eyes picks up the rain

and plucks the first line of the Odyssey. 








WALCOTT, Derek. "Map of the new world -- archipelagoes" / "Mapa do novo mundo -- arquipélagos". Trad. por Nelson Ascher. In: ASCHER, Nelson. Poesia alheia. 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Imago, 1998.




4.9.22

João Cabral de Melo Neto: "As nuvens"

 



As nuvens


As nuvens são cabelos

crescendo como rios;

são os gestos brancos

da cantora muda;


são estátuas em voo

à beira de um mar;

a flora e a fauna leves

de países de vento;


são o olho pintado

escorrendo imóvel;

a mulher que se debruça

nas varandas do sono;


são a morte (a espera da)

atrás dos olhos fechados;

a medicina, branca!

nossos dias brancos.





MELO NETO, João Cabral de. "As nuvens". In: GULLAR, Ferreira (org.). O prazer do poema. Uma antologia pessoal. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2014.