20.3.22
16.3.22
Eugénio de Andrade: "Eu amei esses lugares"
Eu amei esses lugares
Eu amei esses lugares
onde o sol
secretamente se deixava acariciar.
Onde passaram lábios,
onde as mãos correram inocentes,
o silêncio queima.
Amei como quem rompe a pedra,
ou se perde
na vagarosa floração do ar.
12.3.22
Antero de Quental: "Nocturno"
Nocturno
Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...
Como um canto longínquo – triste e lento –
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...
A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o etemo Bem.
E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém!
QUENTAL, Antero de. "Nocturno". In:_____ Sonetos. Edição organizada por António Sérgio. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1963.
9.3.22
Vasco Gato: "A mdmória"
A memória
A memória
do dia em que
o teu cão morreu
e entendeste que
a roupa da vida
não pára de encolher
há-de ser revisitada
até servir
de tecto ao coração.
A capela sistina
é uma manta de retalhos
e tu
dois dedos
que jamais se tocam.
GATO, Vasco. "A memória". In:_____ Um passo sobre a terra. São Paulo: Corsário-Satã, 2021.
6.3.22
Marco Lucchesi: "Luz"
Luz
modula
a pupila
nas trevas
o raio
do poema
em sua
tão densa
luz
LUCCHESI, Marco. "Luz". In:_____ Clio. São Paulo: Blblioteca Azul, 2014.
4.3.22
Paul Valéry: "Le Sylphe" / "O Silfo": Nelson Ascher
O Silfo
Entrevisto e esquivo,
Eu sou esse aroma
Finado mas vivo
Que no vento assoma!
Entrevisto e incerto,
Acaso ou talento?
Mal se chega perto,
Concluiu-se o intento!
Entrelido e oculto?
Que erros, ao arguto,
Foram prometidos!
Entrevisto e alheio
Lapso nu de um seio
Entre dois vestidos!
Le Sylphe
Ni vu ni connu
Je suis le parfum
Vivant et défunt
Dans le vent venu !
Ni vu ni connu
Hasard ou génie ?
À peine venu
La tâche est finie !
Ni lu ni compris ?
Aux meilleurs esprits
Que d’erreurs promises !
Ni vu ni connu,
Le temps d’un sein nu
Entre deux chemises
VALÉRY, Paul. "Le Sylphe / "O Silfo". In: ASCHER, Nelson. Poesia alheia. 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Imago, 1998.
1.3.22
Luís Miguel Nava: "Sem outro intuito"
Sem outro intuito
Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.