Definição ostensiva
Cerúleo:
o céu
o mar
os olhos dos alemães
os cabelos dos indianos
a noite
a morte
CICERO, Antonio. "Cerúleo". In:_____ Definição ostensiva. In: Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.
BLOG DE ANTONIO CICERO: poesia, arte, filosofia, crítica, literatura, política
Definição ostensiva
Cerúleo:
o céu
o mar
os olhos dos alemães
os cabelos dos indianos
a noite
a morte
CICERO, Antonio. "Cerúleo". In:_____ Definição ostensiva. In: Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.
Voltar
Minha lembrança eram imagens,
no instante, de ti:
essa expressão e um matiz
dos olhos, um pouco suave
na inflexão de tua voz,
e teus bocejos furtivos
de lebréu que dormiu mal
toda a noite em meu quarto.
Voltar, passados os anos,
rumo à felicidade
—para ver-se e recordar
que estou também mudado.
Volver
Mi recuerdo eran imágenes,
en el instante, de ti:
esa expresión y un matiz
de los ojos, algo suave
en la inflexión de la voz,
y tus bostezos furtivos
de lebrel que ha maldormido
la noche en mi habitación.
Volver, pasados los años,
hacia la felicidad
—para verse y recordar
que yo también he cambiado.
Não me deste o retrato
do que hoje ou ontem se passou.
Não sei a cor, as dimensões,
as palavras exactas.
Não tenho apontados no diário
os factos com cê pronunciado,
as caras das pessoas,
donde vinham. Se estava
chuva ou sol, ou ventania.
A História de Cantù.
Ter o que foi, em mim,
é ter esquecido.
TAMEN, Pedro. "Não me deste o retrato". In:_____ Memória indescritível. Lisboa: Gótica, 2000.
I
Mais que sonetos este livro aninha,
Mais que éclogas, capítulos, canções.
Tu, Bembo ou Sannazaro, aqui não pões
Nem líquidos cristais e nem florinhas.
Marignan madrigais não escrevinha
Aqui, onde há caralhos sem bridões,
Que em cu ou cona lépidos dispõem-se
Como confeitos dentro da caixinha.
Gente aqui há que fode e que é fodida,
De conas e caralhos há caudal
E pelo cu muita alma já perdida.
Fode-se aqui com graça sem igual,
Alhures nunca assaz reproduzida
Por toda a jerarquia putanal.
Enfim loucura tal
Que até dá nojo essa iguaria toda,
E Deus perdoe a quem no cu não foda.
I
Questo è un libro d’altro che sonetti,
Di capitoli, d’egloghe o canzone,
Qui il Sannazaro o il Bembo non compone
Nè liquidi cristalli, nè fioretti.
Qui il Marignan non v’ha madrigaletti,
Ma vi son cazzi senza discrizione
E v’è la potta e ‘ l cul, che li ripone
Appunto come in scatole confetti.
Vi son genti fottenti e fottute
E di potte e di cazzi notomie
E ne’ culi molt’anime perdute.
Qui vi si fotte in più leggiadre vie,
Ch’in alcun loco si sien mai vedute
Infra le puttanesche gerarchie;
In fin sono pazzie
A farsi schifo di si buon bocconi
E chi non fotte in cul, Dio gliel perdoni.
ARENTINO, Pietro. "Questo è un libro d'altro que sonetti" / "Mais que sonetos este livro aninha". In:_____ Sonetos luxuriosos. Org. e trad. de José Paulo Paes. Rio de Janeiro: Record, 1981.
Solilóquio sem fim e rio revolto
Solilóquio sem fim e rio revolto
mas em voz alta, e sempre os lábios duros
ruminando as palavras, e escutando
o que é consciência, lógica ou absurdo.
A memória em vigília alcança o solto
perpassar de episódios, uns futuros
e outros passados, vagos, ondulando
num implacável estribilho surdo.
E tudo num refrão atormentado:
memória, raciocínio, descalabro...
Há também a janela da amplidão;
e depois da janela esse esperado
postigo, esse último portão que eu abro
para a fuga completa da razão.
LIMA, Jorge de. "Solilóquio sem fim e rio revolto". In: Antologia poética. Org. por Paulo Mendes Campos. Rio de Janeiro: Joséo Olympiio, 1978.
O carrinho de mão ou as grndes invenções
O pavão abre o leque
o acaso faz o resto
Deus toma assento
e o homem empurra.
La brouette ou les grandes inventions
Le paon fait la roue
le hasard fait le reste
Dieu s'assoit dedans
et l'homme le pousse.
PRÉVERT, Jacques. "La brouette ou les grandes inventions" / "O carrinho de mão ou as grandes invenções". In:_____ Poemas. Org. e trad. por Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
Tentas, de longe
Tentas, de longe, dizer que estás aqui.
Com peso triste caminha na rua o Outono.
O meu coração debruça-se à janela
a ver pessoas e carros, e as folhas caindo.
Mastigo esta solidão
como quando era pequeno e jantava
diante dos pais zangados:
devagar, ausente.