12.12.19

Ana Chiara: "XXII"




XXII


Mundos esferas
Sangue passando por veias
Diluição da vida cotidiana
Nada impede o sortilégio
Trens noturnos, estação sob forte neblina
Impossível dizer se embarco
Tudo dependerá de minha fecunda imaginação
E do gosto exagerado pelo real mais erradio.
Improviso com a metade do que me foi dado ler
Assim um drama
Palavras olham para fora
Limite possível e improvável da significação
Andarilhas perdidas no caminho do sagrado
Bolhas ardentes nas solas dos pés.





CHIARA, Ana. "XXII". In:_____. Poema da travessia. Rio de Janeiro: TextoTerritório, 2019.

10.12.19

Bertolt Brecht: "Die Vergessenen" / "Os deslembrados": trad. por André Vallias




Os deslembrados


Eles vivem e morrem por aí –
Numa estrangeira viela
A vida com violência os atropela
E se põe a fugir.
Viveram e morreram e lutaram duro
E criaram suas crianças
E aí na mais distante deslembrança
Terminam seu percurso.




Die Vergessenen


Sie leben und sterben irgendwo
An einem fremden Steg
Das Leben geht vorüber roh
Und über sie hinweg.
Sie lebten und starben und rangen schwer
Und zogen Kinder auf
Und dann in ferner Vergessenheit hehr
Sie enden ihren Lauf.





BRECHT, Bertolt. "Die Vergessenen" / "Os deslembrados". In:_____. Bertolt Brecht: Poesia. Introdução e tradução por André Vallias. São Paulo: Perspectiva, 2019.

9.12.19

Bertolt Brecht: POESIA: Introdução e tradução de André Vallias


É hoje, na Livraria da Travessa de Botafogo, o lançamento das excelentes traduções que o poeta André Vallias fez dos maravilhosos poemas de Bertolt Brecht:




8.12.19

Jorge Luis Borges: "Spinoza": trad. de Augusto de Campos




Spinoza


As translúcidas mãos desse judeu
Em meio à sombra lavram os cristais.
É medo e frio a tarde que morreu
(E às tardes as tardes são iguais.)

Tanto as mãos como o espaço de jacinto
Que empalidece no confim do Gueto
Quase inexistem para o homem quieto
Que está sonhando um claro labirinto.

Nem o perturba a gloria, esse reflexo
Dos reflexos do sonho de outro espelho,
Nem o amor temeroso das donzelas.

Liberto da metáfora e do mito
Lavra um árduo cristal: o infinito
Mapa do Ser que é todas as estrelas.





Spinoza


Las traslúcidas manos del judío
Labran en la penumbra los cristales
Y la tarde que muere es miedo y frío.
(Las tardes a las tardes son iguales.)

Las manos y el espacio de jacinto
Que palidece en el confín del Ghetto
Casi no existen para el hombre quieto
Que está soñando un claro laberinto.

No lo turba la fama, ese reflejo
De sueños en el sueño de otro espejo,
Ni el temeroso amor de las doncellas.

Libre de la metáfora y del mito
Labra un arduo cristal: el infinito
Mapa de Aquel que es todas Sus estrellas.






BORGES, Jorge Luis. "Spinoza". In:_____. Quase Borges. 20 poemas e uma entrevista. Traduções de Augusto de Campos. São Paulo: Terracota, 2013.

6.12.19

Antonio Cicero: "Elo"





Elo

Dizem ser Marcelo mar e céu
Dizem ser vão ser e ser poeta
Só sei que desde que me aconteceu
Esse horizonte azul assim sem reta
Quero ser não o poeta
Ser o verso de Marcelo
Ser a rima de Marcelo
Ser esse elo
Entre ar mar céu nome ser não ser Marcelo








CICERO, Antonio. "Elo". In:_____. Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996.

4.12.19

Friedrich Hölderlin: "Die Liebenden" / "Os amantes": trad. de Paulo Quintela




Os amantes



     Queríamos separar-nos, tínhamos isso por bom e sensato;

          Quando o fizemos, por que nos assustou, como homicídio,
                                                                                          [a ação?

               Ai! Pouco nos conhecemos,

                    Pois em nós reina um Deus.








Die Liebenden



     Trennen wollten wir uns, wähnten es gut und klug;

          Da wir's taten, warum schröckt' uns wie Mord die Tat?

               Ach! Wir kennen uns wenig,

                    Denn es waltet ein Gott in uns.







HÖLDERLIN, Friedrich. "Die Liebenden" / "Os amantes". In:_____. Poemas. Org. e trad. de Paulo Quintela. Coimbra: Atlântida, 1959.

1.12.19

Carlos Drummond de Andrade: "Liberdade"




Liberdade


O pássaro é livre
na prisão do ar.
O espírito é livre
na prisão do corpo.
Mas livre, bem livre,
é mesmo estar morto.





ANDRADE, Carlos Drummond de. "Liberdade". In:_____. Farewell. Rio de Janeiro: Record, 1996.