5.9.18

Fernando Pessoa / Álvaro de Campos: "Grandes são os desertos, e tudo é deserto"



Grandes são os desertos, e tudo é deserto.

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes -
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incómodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida.

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem).
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro.
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar a mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.
Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei-de arrumá-la e fechá-la;
Hei-de vê-la levar de aqui,
Hei-de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim.




PESSOA, Fernando. “Poesias de Álvaro de Campos”. In:_____. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.

4.9.18

Alex Varella: "Mar Sophia"



MAR SOPHIA


I

O poeta ensinou às coisas a falar e dizer seu nome.

Por exemplo, o mar.

Do mar são prateleiras,

platibandas,

licor de cor de laranja,

minha fruta-cor amarela.

As coisas do mar são além-delas.




II

As coisas ensinaram o poeta a falar e dizer seu nome.

Meu nome é o mar.

Meu mar é o mar sophia, que é todo poesia.

Mar da poeta Sophia,

em sua concreta sabedoria.




VARELLA, Alex. "Mar Sophia". In:_____. Céu em cima, mar em baixo. Rio de Janeiro: Topbooks, 2012.

31.8.18

Guilherme de Almeida: "Noturno"



Noturno

Na cidade, a lua:
a joia branca que boia
na lama da rua.




ALMEIDA, Guilherme de. "Noturno". In: CALCANHOTTO, Adriana (org.) Haicai do Brasil. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2014.

29.8.18

Paulo Henriques Britto: "Da metafísica"



Da metafísica

Ser parte de alguém ou algo
tão grande que não se entenda:
toda crença, ao fim e ao cabo,
se resume a essa lenda --

o mais rematado dislate,
coisa jamais entendida,
que eleva ao sumo quilate
o caco mais reles de vida.




BRITTO, Paul Henriques. "Da metafísica". In:_____. Nenhum mistério. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

27.8.18

Alberto da Costa e Silva: "Ode a Marcel Proust"



Ode a Marcel Proust

Teus olhos, no retrato,
destilam lágrimas
e abraçam silentes o horizonte.
Tua face, na noite,
é um soluço inútil.

Por entre as moças em flor,
revejo o silêncio das ruelas
dos teus passeios noturnos,
assombrados de insônia,
pelos caminhos insondáveis
do amor e da infância.

Retiras da memória
um mundo ignoto e novo,
e acompanhas, nas tuas vigílias,
os passos dos homens nos tapetes
e as palavras doces que não foram pronunciadas.

A cada instante, um encontro inesperado:
um peixe, uma gravata ou uma flor apenas entreaberta.
Tuas mãos repelem a morte, enluvadas,
e escrevem como se nada mais existira
a não ser a torre da matriz de Combray.

Proust, repercute em mim
toda a tua agonia, companheiro.
Deixa, Marcel, que recolha tua tristeza,
como lágrimas num lenço,
do tumulto das páginas de teus livros,
e
grave na minha boca
o sentido mais oculto de tuas palavras.

Teus olhos, no retrato,
derramam-se na bruma.
E colocas, agora, mansamente,
com requintes de estranha vaidade,
uma flor – talvez orquídea –
            na lapela.




COSTA E SILVA, Alberto da. "Ode a Marcel Proust". In:_____. Poemas reunidos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.




25.8.18

Giuseppe Ungaretti: "Vanità" / "Vaidade": trad. por Geraldo Holanda Cavalcanti



Vaidade

De repente
se eleva
sobre os escombros
a límpida
maravilha
da imensidão.

E o homem
curvado
sobre a água
surpreendida
pelo sol
se descobre
uma sombra

Embalada
pouco a pouco
desfeita


Vanità

D’improvviso
è alto
sulle macerie
il limpido
stupore
dell’immensità

E l’uomo
curvato
sull’acqua
sorpresa
dal sole
si rinviene
un’ombra

Cullata e
piano
franta





UNGARETTI, Giuseppe. "Vanità" / "Vaidade". In:_____. Poemas. Org. e trad. por Geraldo Holanda Cavalcanti. São Paulo: USP, 2017.

23.8.18

Antonio Carlos Secchin: "Drummond; poesia e aporia"




Assistam à brlhante conferência do acadêmico Antonio Carlos Secchin intitulada "Drummond: poesia e aporia". Essa conferência, que teve lugar no teatro R. Magalhães, na ABL, no dia 16 do corrente, fez parte do ciclo de conferências "Cadeira 41", coordenado pela acadêmica Ana Maria Machado. Não tendo podido conduzir essa mesa por estar de viagem, Ana Maria pediu-me que a substituísse, o que fiz com prazer.