Agradeço a Adriano Nunes por me ter chamado a atenção para o seguinte, belo poema do Roberto Bozzetti:
O gato metonímico
ou: Disiecta membra
cabeça de camundongo
de calango língua
rabo de lagartixa
penas de sabiá
cambacica
juriti
carriça
carapaça de escaravelho
ao sol ressecada
pele de jararaca
escamas da sardinha roubada
à beira da vala me olha com olhos de rã
gourmet rigoroso
à sua maneira
o gato oferece
suas metonímias
BOZZETTI, Roberto. "O gato metonímico". In:_____. Blog "Firma irreconhecível". Acesso em 27/10/2017.
29.10.17
27.10.17
Horácio: Carmen IV.I / Ode IV.1: trad. por Pedro Braga Falcão
Ode IV.1
De novo moves, Vênus, guerras
há tanto interrompidas? Poupa-me, rogo-te, rogo-te.
Já não sou quem era, no reinado
da boa Cínara. Deixa, cruel mãe
dos doces Desejos,
de vergar com suaves ordens um homem empedernido
que já quase cinco décadas viveu.
Vai, para onde te reclamam as doces preces dos jovens.
Mais a tempo te irás divertir
para casa de Paulo Máximo,
nos teus purpúreos cisnes voando,
se inflamar procuras um coração que te convenha.
E depois de assaz se ter rido
ao triunfar sobre os sumptuosos presentes do rival,
perto dos lagos albanos
uma estátua de mármore colocará sob um telhado de cedro.
Aí, ao nariz te há-de chegar
o perfume de muitos incensos, deleitar-te-ás
com as melodias conjuntas da lira,
da tíbia de Berecinto, e também da siringe.
Ai, duas vezes por dia,
rapazes com gentis virgens, louvando tua divindade,
três vezes no chão hão-de bater
com o cândido pé, como é costume dos Sálios.
Quanto a mim, nem mulheres,
o nem rapazes, nem a crédula esperança num amor recíproco
me agradam, nem as ébrias rixas,
nem cingir a testa com frescas flores.
Mas então por que, ah, Ligurino,
porque escorre por minha face rara lágrima?
Por que, a meio de uma palavra,
cai minha eloquente língua no indecoroso silêncio?
Em noturnos sonhos
ora te tenho cativo, ora a ti voando te sigo
através do campo de Marte,
a ti, cruel, através das volúveis águas.
HORÁCIO. Ode IV.1. In:_____. Odes. Trad. por Pedro Braga Falcão. Lisboa: Cotovia, 2008.
Carmen IV.I
Intermissa, Venus, diu
rursus bella moves? Parce precor, precor.
Non sum qualis eram bonae
sub regno Cinarae. Desine, dulcium
mater saeva Cupidinum,
circa lustra decem flectere mollibus
iam durum imperiis: abi,
quo blandae iuvenum te revocant preces.
Tempestiuius in domum
Pauli purpureis ales oloribus
comissabere Maximi,
si torrere iecur quaeris idoneum;
namque et nobilis et decens
et pro sollicitis non tacitus reis
et centum puer artium
late signa feret militiae tuae,
et, quandoque potentior
largi muneribus riserit aemuli,
Albanos prope te lacus
ponet marmoream sub trabe citrea.
Illic plurima naribus
duces tura, lyraque et Berecyntia
delectabere tibia
mixtis carminibus non sine fistula;
illic bis pueri die
numen cum teneris virginibus tuum
laudantes pede candido
in morem Salium ter quatient humum.
Me nec femina nec puer
iam nec spes animi credula mutui
nec certare iuvat mero
nec vincire novis tempora floribus.
Sed cur heu, Ligurine, cur
manat rara meas lacrima per genas?
Cur facunda parvm decoro
inter verba cadit lingua silentio?
Nocturnis ego somniis
iam captum teneo, iam volucrem sequor
te per gramina Martii
campi, te per aquas, dure, volubilis.
HORACE. Carmen IV.I. In:_____. Odes and Epodes. Org. por Paul Shorey. Chicago: Benj. H. Sanborn & Co., 1919.
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Poema
25.10.17
Sobre o album "Rei Ninguém", de Arthur Nogueira
Acabo de ler -- e recomendo -- um excelente artigo de Mauro Ferreira sobre o album Rei Ninguém, de Arthur Nogueira. Fica aqui: http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/post/poesia-guia-reino-das-palavras-e-sons-do-quarto-album-de-arthur-nogueira.html.
António Botto: "Venham ver a maravilha"
Venham ver a maravilha
Do seu corpo juvenil!
O sol encharca-o de luz,
E o mar, de rojos, tem rasgos
De luxúria provocante.
Avanço. Procuro olhá-lo
Mais de perto… A luz é tanta
Que tudo em volta cintila
Num clarão largo e difuso…
Anda nu - saltando e rindo,
sobre a areia da praia
Parece um astro fulgindo.
Procuro olhá-lo; - e os seus olhos,
Amedrontados, recusam,
Fixar os meus… - Entristeço…
Mas nesse lugar fugidio -
Pude ver a eternidade
Do beijo que eu não mereço…
BOTTO, António. "Venham ver a maravilha". In:_____. Canções e outros poemas. Org. por Eduardo Pitta. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2007.
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Poema
22.10.17
Antonio Carlos Secchin: "Poema promíscuo"
Poema promíscuo
Disseram que voltei muito mecanizado,
com ritmo correto, muita rima rica,
que não tolero nada que não seja aquilo
que seja exatamente o que o Bilac dita.
Disseram que com a forma estou bem preocupado
e corre por aí, com a maior certeza,
que muito pouco vale tanta velharia
de alguém que ainda pensa em produzir beleza.
Não sei o que o futuro guarda de armadilha,
porém não vou ficar parado e prisioneiro
de quem, pajé pujante em sua antiga taba,
dali pretende governar o mundo inteiro.
Pra cima da poesia não vale esse veneno,
que já destila seu sabor de cianureto.
Enquanto a tribo grita "Por aí não passa",
passa um poema concreto ao lado de um soneto.
SECCHIN, Antonio Carlos. "Poema promíscuo". In:_____. Desdizer e antes. Rio de Janeiro: Topbooks, 2017.
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Poema
20.10.17
Stefan George: "Ein gleiches" / "Despedida". trad. por Eduardo de Campos Valadares
Despedida
Comove-me o abraço e o brinde do adeus
A todas! Mãos calorosas: qual deus
Hoje leve me sinto · imune a amigos
E inimigos · rumo a novos perigos.
Ein gleiches
Da mich noch rührt der spruch der abschieds-trünke
Ihr all! und eure hand noch wärmt: wie dünke
Ich heut mich leicht wie nie · vor freund gefeit
Und feind · zu jeder neuen fahrt bereit.
GEORGE, Stefan. "Ein gleiches" / "Despedida". In:_____. Crepúsculo. Org. e trad. por Eduardo de Campos Valadares. São Paulo: Iluminuras, 2000.
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Stefan George
18.10.17
Mário Quintana: "O poeta começa o dia"
O poeta começa o dia
Pela janela atiro meus sapatos, meu ouro, minha alma ao meio da rua.
Como Harum-al-Raschid, eu saio incógnito, feliz de desperdício...
Me espera o ônibus o horário a morte - que importa?
Eu sei me teleportar: estou agora
Em um Mercado Estelar... e olha!
Acabo de trocar
- em meio aos ruídos da rua -
alheio aos risos da rua -
todas as jubas do Sol
por uma trança da Lua!
QUINTANA, Mário. "O poeta começa o dia". In:_____. Nova antologia poética. 2ª ed. Rio de Janeiro: Codecri, 1981.
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