19.7.13

Charles Baudelaire: "Le chat" / "O gato": trad. de Ivan Junqueira






O gato (II)

De seu pêlo louro e tostado
Um perfume tão doce flui
Que uma noite, ao mima-lo, fui
Por seu aroma embalsamado.

É a alma familiar da morada;
Ele julga, inspira, demarca
Tudo o que seu império abarca;
Será um deus, será uma fada?

Se neste gato que me é caro,
Como por ímãs atraídos,
Os olhos ponho comovidos
E ali comigo me deparo,

Vejo aturdido a luz que lhe arde
Nas pálidas pupilas ralas,
Claros faróis, vivas opalas,
Que me contemplam sem alarde.



Le chat (II)

De sa fourrure blonde et brune
Sort un parfum si doux, qu'un soir
J'en fus embaumé, pour l'avoir
Caressée une fois, rien qu'une.

C'est l'esprit familier du lieu;
Il juge, il préside, il inspire
Toutes choses dans son empire;
Peut-être est-il fée, est-il dieu?

Quand mes yeux, vers ce chat que j'aime
Tirés comme par un aimant,
Se retournent docilement
Et que je regarde en moi-même,

Je vois avec étonnement
Le feu de ses prunelles pâles,
Clairs fanaux, vivantes opales,
Qui me contemplent fixement.




BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. Tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.



16.7.13

"Antigo verão", de Antonio Cicero, e "L'embarquement pour Cythère", de Watteau






“Antigo verão” descreve minha memória de um dia de verão típico de um breve momento de minha juventude, nos anos setenta, no Rio de Janeiro. O título alude à obra prima do poeta Salvatore Quasimodo, “Antico inverno”. E é claro que Citera, em cujas águas nasceu Afrodite, é a ilha do amor. Ao fazer esse poema, lembrava-me do clima do quadro “L'embarquement pour Cythère”, de Watteau. Ei-lo:





Eis o poema:


             Antigo verão
                            para Oscar Ramos

Primeiro a praia, depois uma estreia,
depois o Baixo e, finalmente, a festa
de madrugada, numa cobertura:
e eis que as nuvens a cobrir a lua
e o Corcovado já se dispersavam,
auspiciando uma manhã de praia
para um rapaz que àquela altura era
o derradeiro barco pra Citera.



15.7.13

Arthur Nogueira e Antonio Cicero: "Antigo Verão"





Arthur Nogueira fez do poema "Antigo verão", de Antonio Cicero (A cidade e os livros. Rio de Janeiro: Record, 2002), uma bela canção:


Show de Arthur Nogueira




Clique na imagem para aumentá-la:

13.7.13

W. H. Auden: "In memory of W. B. Yeats" / "Em memória de W. B. Yeats": trad. por Margarida Vale de Gato






Em memória de W. B. Yeats


Desapareceu no rigor do Inverno:
Os regatos gelados, os aeroportos praticamente desertos,
E a neve desfigurava as estátuas da praça;
O mercúrio afundava-se na boca do dia que morria.
Ó, os instrumentos todos são unânimes,
Que o dia da sua morte foi um frio e escuro dia.

Longe da sua agonia
Corriam os lobos pelas florestas perenes,
O rio da província desdenhava os cais elegantes;
Pelas línguas pesarosas
A morte do poeta furtou-se aos seus poemas.

Mas para ele foi a tarde derradeira de si próprio,
Uma tarde de enfermeiras e rumores;
As províncias do seu corpo em revolta,
Os sectores do seu cérebro esvaziados,
O silêncio invadiu os subúrbios,
Estancou a torrente do seu sentir; tornou-se nos seus admiradores.

Agora está disperso por centenas de cidades,
E de todo entregue aos afectos alheios;
Para achar a felicidade num outro tipo de bosque
E sofrer o castigo de um código de consciência estrangeiro.
As palavras de um morto
Modificam-se nas entranhas dos vivos.

Mas na importância e no ruído de amanhã
Quando os corretores rugirem como feras no salão da Bolsa,
E os pobres padecerem dos martírios a que já se habituaram,
E cada um na cela de si mesmo quase se convencer da sua liberdade;
Uns parcos milhares pensarão neste dia
Como se pensa num dia em que se fez algo um tanto invulgar.
Ó, os instrumentos todos são unânimes
Que o dia da sua morte foi um escuro e frio dia.

2

Foste tonto como nós; a tudo sobreviveu o teu talento;
À paróquia das ricas senhoras, à decadência física,
A ti mesmo; a louca Irlanda feriu-te para a poesia.
Agora a Irlanda tem ainda a sua loucura, a sua temperatura,
Porque a poesia não faz acontecer nada: sobrevive
No vale do seu dizer, onde os executivos
Não gostariam nunca de lavrar; corre para Sul
Das herdades isoladas e das mágoas agitadas,
Rudes cidades em que acreditamos e morremos; sobrevive
Uma forma de acontecer, uma boca.

3

Recebe, ó terra, um hóspede honrado;
William Yeats jaz descansado:
Que repouse a vasilha vazia
Deste irlandês sem a sua poesia.

O tempo que é intolerante
Para com os bravos e inocentes,
E numa semana indiferente
Ao físico mais elegante,

Venera a linguagem e perdoa
Todos os que ela povoa;
Perdoa a vaidade e a cobardia,
E aos seus pés faz cortesia.

O tempo, que com tal justificação
Perdoou de Kipling a opinião,
E perdoará a Paul Claudel,
Perdoa-lhe a ele pela escrita fiel.

No pesadelo do breu
Ladram os cães europeus,
E aguardam as nações vivas,
Pelos seus ódios cativas.

A desgraça intelectual
No rosto humano é geral,
E há oceanos de pesar
Trancados e pétreos no olhar.

Vai, poeta, segue afoito
Até ao fundo da noite,
Com teu canto livrador
Traz-nos ainda o esplendor.

Com um verso bem arado
Faz vinha deste mau fado,
Canta o humano insucesso
Num arroubo de possesso.

Que nos regue o coração
A fonte da regeneração,
E ao homem, preso em seus dias,
Dá-lhe um canto de alforria.




In memory of W. B. Yeats


He disappeared in the dead of winter:
The brooks were frozen, the airports almost deserted,
And snow disfigured the public statues;
The mercury sank in the mouth of the dying day.
O all the instruments agree
The day of his death was a dark cold day.

Far from his illness
The wolves ran on through the evergreen forests,
The peasant river was untempted by the fashionable quays;
By mourning tongues
The death of the poet was kept from his poems.

But for him it was his last afternoon as himself,
An afternoon of nurses and rumours;
The provinces of his body revolted,
The squares of his mind were empty,
Silence invaded the suburbs,
The current of his feeling failed; he became his admirers.

Now he is scattered among a hundred cities
And wholly given over to unfamiliar affections,
To find his happiness in another kind of wood
And be punished under a foreign code of conscience.
The words of a dead man
Are modified in the guts of the living.

But in the importance and noise of to-morrow
When the brokers are roaring like beasts on the floor of the Bourse,
And the poor have the sufferings to which they are fairly accustomed,
And each in the cell of himself is almost convinced of his freedom,
A few thousand will think of this day
As one thinks of a day when one did something slightly unusual.

O all the instruments agree
The day of his death was a dark cold day.

II

You were silly like us; your gift survived it all:
The parish of rich women, physical decay,
Yourself; mad Ireland hurt you into poetry.
Now Ireland has her madness and her weather still,
For poetry makes nothing happen: it survives
In the valley of its saying where executives
Would never want to tamper, it flows south
From ranches of isolation and the busy griefs,
Raw towns that we believe and die in; it survives,
A way of happening, a mouth.


III

Earth, receive an honoured guest:
William Yeats is laid to rest.
Let the Irish vessel lie
Emptied of its poetry.

Time that is intolerant
Of the brave and innocent,
And indifferent in a week
To a beautiful physique,

Worships language and forgives
Everyone by whom it lives;
Pardons cowardice, conceit,
Lays its honours at their feet.

Time that with this strange excuse
Pardoned Kipling and his views,
And will pardon Paul Claudel,
Pardons him for writing well.

In the nightmare of the dark
All the dogs of Europe bark,
And the living nations wait,
Each sequestered in its hate;

Intellectual disgrace
Stares from every human face,
And the seas of pity lie
Locked and frozen in each eye.

Follow, poet, follow right
To the bottom of the night,
With your unconstraining voice
Still persuade us to rejoice;

With the farming of a verse
Make a vineyard of the curse,
Sing of human unsuccess
In a rapture of distress;

In the deserts of the heart
Let the healing fountain start,
In the prison of his days
Teach the free man how to praise.




AUDEN, W.H. Outro tempo. Trad. por Margarida Vale de Gato. Lisboa: Relógio D'Água, 2003.

11.7.13

Frederico Barbosa: "Desexistir"





Desexistir


Quando eu desisti
de me matar
já era tarde.

Desexistir
já era um hábito.

Já disparara
a auto-bala:
cobra cega se comendo
como quem cava
a própria vala.

Já me queimara.

Pontes, estradas,
memórias, cartas,
toda saída dinamitada.

Quando eu desisti
não tinha volta.

Passara do ponto,
já não era mais
a hora exata.




BARBOSA, Frederico. Contracorrente. São Paulo: Iluminuras, 2000.

10.7.13

José Paulo Paes: "Poética"






Poética


conciso? com siso

prolixo? pro lixo





PAES, José Paulo. Os melhores poemas de José Paulo Paes. seleção de David Arrigucci Jr. São Paulo: Global, 1998.