22.6.13

Juan Ramón Jiménez: "La memoria" / "A memória": trad. de Adriano Nunes






"A memória"

Que tristeza este passar
o caudal de cada dia
(voltas por cima e por baixo!),
pelo corredor da noite
(voltas por baixo e por cima!),
ao outro sol!

Quem soubesse
deixar o manto, contente,
dentro das mãos do passado;
não olhar mais pra o que foi;
entrar de frente e com gosto,
todo desnudo, na livre
alegria do presente!



La memoria


¡Qué tristeza este pasar
el caudal de cada día
(¡vueltas arriba y abajo!),
por el puente de la noche
(¡vueltas abajo y arriba!),
¡al otro sol!

¡Quién supiera
dejar el manto, contento,
en las manos del pasado;
no mirar más lo que fue;
entrar de frente y gustoso,
todo desnudo, en la libre
alegría del presente!




JIMÉNEZ, Juan Ramón. Unidad. Antología Poética. Prólogo y selección de Antonio Colinas. Madrid: Alianza Editorial, 2006.

21.6.13

André Luiz Pinto: "sem título"






sem título


Sem sonho
e sem castigo
chora chora crocodilo

no sofá de madrugada.
Ontem não foi feliz.
O dia sangrava

contra o sol.
Provou que é só garganta.
E não há o que fazer

senão assistir
se está fora
de perigo

se
à promessa
de leite

e mel
vou beber
de canudinho.

Essa é a ausência
que guardo
nas mãos.

Essas são
as esporas.
Ninguém lhe trará rosas.

Você está
a um passo
do paraíso

e o melhor é dar as costas
ante o que há
de fogo

e combustão
a cada sentença
de manhã.




PINTO, André Luiz. terno novo. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2012.

19.6.13

Fernando Pinto do Amaral: "Voz"








Voz




Nada sabes.     Saberás cada vez menos

o que ainda procuras

outro corpo     uma alma

suspensa no abismo ou nada disso

apenas uma luz

apenas uma voz ou simplesmente

palavras

à espera de outra voz que por acaso

seja de novo a tua.





AMARAL, Fernando Pinto do. Paliativos. Lisboa: Língua Morta, 2012

9.6.13

Leila Míccolis: "Animais"






Animais

                                             para o Whisky

Meu gato persa pensa que é gente:
passeia de carro
dorme na cama
come na mesa
assiste à noite televisão
e olha às vezes
como se eu fosse
o seu bichinho de estimação...




MÍCCOLIS, Leila. Desfamiliares. Poesia completa de Leila Míccolis - 1965 - 2012. São Paulo: Annablume, 2013.

7.6.13

Mikhail Kuzmin: Canções alexandrinas / Trad. de Oleg Almeida






II AMOR




Quando nos encontramos pela primeira

vez, não recorda a pobre memória:

foi de manhã ou de dia,

de noite, de madrugada?

Lembro-me só das pálidas faces tuas,

dos olhos cinza debaixo das sobrancelhas escuras,

da gola azul no pescoço moreno;

então me parece que vi tudo isso quando criança,

embora seja mais velho que tu, muito mais velho.




KUZMIN, Mikhail. Canções alexandrinas. Trad. de Oleg Almeida. São Paulo: Arte Brasil Editora, 2011.

5.6.13

Alberto da Costa e Silva: "Mais um poema de avô"






Mais um poema de avô


                                    Para o Filipe



Se te disserem, "vê, a vida é breve",

ao falarem de mim, no meu descanso,

repara ao teu redor, vê como para

em cada cousa o tempo e se faz leve.



Vou sob o sol desta manhã de março,

e eis o musgo, e eis o risco que no muro

pôs no meu teu olhar limpo de enganos.

Ou pus no teu o meu, o antigo e puro.



Que não te deixe a distração da brisa

pensar que já não és este minuto.

Cada instante que fomos sempre somos

e canta, ainda que pareça mudo.





Costa e Silva, Alberto da. Poemas reunidos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.

2.6.13

Fernanda Montenegro declama "Guardar" em vídeo de Eduardo Menezes






No ano passado, fiquei muito orgulhoso quando a primeira dama do teatro, Fernanda Montenegro, declamou meu poema "Guardar", em belo vídeo dirigido por Eduardo Menezes. Eis o link para ele no YouTube:

http://www.youtube.com/watch?v=w3GoeFdP_uU