12.9.12

Manuel Bandeira: "O espelho"




O espelho

Ardo em Desejo na tarde que arde!
Oh, como é belo dentro de mim
Teu corpo de ouro no fim da tarde:
Teu corpo que arde dentro de mim
Que ardo contigo no fim da tarde!

Num espelho sobrenatural,
No infinito (e esse espelho é o infinito?...)
Vejo-te nua, como num rito,
À luz também sobrenatural,
Dentro de mim, nua no infinito!

De novo em posse da virgindade,
- virgem, mas sabendo toda a vida -
No ambiente da minha soledade,
De pé, toda nua, na virgindade
Da revelação primeira da vida!



BANDEIRA, Manuel. "O ritmo dissoluto". In:_____. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1967.

8.9.12

Adriano Espínola: "O prego"




O que mais dói não
é o retrato na parede,

mas o prego ali
cravado, persistente,

no centro da mancha
do quadro ausente.



ESPÍNOLA, Adriano. Praia provisória. Rio de Janeiro: Topbooks, 2005.

6.9.12

Nulla unda




Nulla unda
tam profunda
quam vis amoris
furibunda.




Nenhuma onda
tão profunda
quanto a força do amor
é furibunda.


Provérbio latino.

3.9.12

Adriano Nunes: "Crítica literária: 'Porventura' de Antonio Cicero




CRÍTICA LITERÁRIA:
"Porventura" de Antonio Cicero


A poesia é indispensável. Isso seria um justo balanço para que um poeta dissesse às musas o quão importante é a poesia, para o próprio poeta, para os outros poetas, para o leitor, para o mundo, para a poesia, sim, para a poesia, porque a poesia que é indispensável é a boa poesia, aquela trabalhada, pensada, muitas vezes tardia, muitas vezes mutilada, dissecada, precisa, que pode demorar anos, meses, dias, horas, minutos ou surgir, súbita, em segundos, como um susto, um lampejo, um relâmpago, para, depois de plena, lançar cosmos no cosmo, existências sobre a existência. Bem, o leitor, no final das contas, no balanço geral, definitivo, é quem mais ganha com isso. O livro "Porventura" de Antonio Cicero, recentemente lançado pelo Grupo Editorial Record, com seus 35 belos poemas, justifica afirmar: A poesia é muito mais que indispensável!

Marcado por momentos intimistas, cotidianos (perdas de amigos, familiares) e reflexivos, "Porventura" se desdobra, multiplica-se a cada vez que é lido. O livro se abre com o denso e tenso poema "Balanço" com hendecassílabos instigantes, belos, nos quais o saldo alegre, nítido, colorido que o amor impõe à vida, anulando a morte, contrapõe-se com a presença fria, dura, pesada, da morte, que também tem arte.

"Porventura" é um grande achado na poesia contemporânea. Seus poemas, aparentemente simples, muitos dos quais fazendo referências ao dia a dia, como se fossem feitos para um leitor comum, desatento, não o são. São versos calculados, feitos com maestria, onde se percebem o rigor técnico apurado, uma sensibilidade superior e um viés poético único, universal, capaz de criar imagens especiais, impactantes, de uma beleza rara, ou melhor, dadas como portentos à vista de quem lê.

Cicero trabalha ainda um de seus temas preferidos, a mitologia, a Grécia Clássica, fazendo referências explícitas a Homero, a Horácio, à Guerra de Troia, a Ícaro, iluminando-nos com o seu saber.

Ao ler "Porventura", emocionei-me bastante. Algo me tocou profundamente. Como leitor. Como poeta. Como amigo que ganha de presente um poema dedicado - "Leblon" -. E chorei ao recitar o poema "Presente" dedicado ao poeta Eucanaã Ferraz, entendendo a pergunta: E Por que não dar a mim mesmo este presente?

"Porventura" é livro para se dar, dar aos amigos, é para louvar, levá-lo aonde se vai, para que a vida seja indispensável, porque é tudo e sagrada.

Adriano Nunes

2.9.12

Pedro Tamen: "(Washington D.C.")






                                               (Washington, D.C.)

Como um velho     como um cão
sentado num parque frente aos desportistas
ressentindo Pessoa     o Campos     como ele
como um velho     como um cão
sentado num parque ao sol
a não pensar em nada ou repensando
as coisas sem interesse e sem razão

Deixar correr o tempo sem memória
entre memoriais de tudo quanto houve
valendo-me assim do que os outros lembram
para nada lembrar     não tanto
como um velho sentado num parque:
como um cão.



TAMEN, Pedro. Memorial indescritível. Lisboa: Gótica, 2000.

31.8.12

Pedro Bloch: de "Sem pedras no caminho"




Sem pedras no caminho

Carlos Drummond de Andrade ("o maior poeta que o Brasil já teve", na opinião de Manuel Bandeira) recebe aquele estudantezinho atrevido que, de saída, lhe pergunta, sem a menor cerimônia, já amigo de "tu":

-- Onde nasceste?

A vontade de Drummond seria responder: "Em Itabiriste". Mas contém e fica à espera. O menino, decididamente da extrema esquerda, quer que todos assumam posição no mundo de hoje. E pergunta:

-- Drummond, qual é a posição de escritor nos dias que vivemos?

Este não hesita e dispara:

-- A posição de escritor pode ser de pé, sentada ou deitada, conforme lhe resulte mais cômodo.

E, diante do espanto do menino, aconselha:

-- Menino, se você não é comunista, vá sendo logo, que é para deixar de ser depressa. Eu também já fui e deixei.

[...]



BLOCH, Pedro. "Sem pedras no caminho". Originalmente publicado na revista Manchete em junho de 1963. In: Carlos Drummond de Andrade. Org. por Larissa Pinto Alves Ribeiro. Rio de Janeiro: Azougue, 2011.

30.8.12

Lançamento do livro "Forma e sentido contemporâneo: Poesia"




Na próxima terça-feira, 4 de setembro, a partir das 19h30, será lançado o livro Forma e sentido contemporâneo: poesia, com textos inéditos de Tzvetan Todorov, Marjorie Perloff, Michel Deguy e José Miguel Wisnik, entre outros, no Oi Futuro do Flamengo. Vejam o convite:


Clique na imagem para ampliá-la: