17.2.12
Waly Salomão: "Ataque especulativo"
ATAQUE ESPECULATIVO
Serei um poeta construtivista
Serei um poeta desconstrutivista
Serei um poeta
Serei um
Ser
Se
S
Sob o pano de fundo do indizível
SALOMÃO, Waly. Pescados vivos. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.
Labels:
Poema,
Waly Salomão
16.2.12
Empédocles de Agrigento: poema ix.569 da Antologia grega: traduzido por José Paulo Paes
IX.569
ἤδη γάρ ποτ᾽ ἐγὼ γενόμην κοῦρός τε κόρη τε
θάμνος τ᾽ οἰωνός τε καὶ ἔξαλος ἔλλοπος ἰχθύς.
IX.569
Pois em verdade eu já fui rapaz, já fui donzela,
fui arbusto, pássaro, ardente peixe do mar.
PAES, José Paulo (org.). Poemas da Antologia grega ou palatina. Tradução de José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
NOTA de A.C.: Esse poema da Antologia grega consiste no fragmento 117 (Diels/Kranz) da obra De natura, de Empédocles.
Labels:
Empédocles de Agrigento,
José Paulo Paes,
Poema
13.2.12
Joseph Brodsky: "Odisseu a Telêmaco": tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher
Odisseu a Telêmaco
Caro Telêmaco,
encerrou-se a Guerra
de Tróia. Quem venceu, não lembro. Gregos,
sem dúvida: só gregos deixariam
tantos defuntos longe de seu lar.
Mesmo assim, o caminho para casa
mostrou-se demasiado longo, como
se Posseidon, enquanto ali perdíamos
nosso tempo, tivesse ampliado o espaço.
Não sei nem onde estou nem o que tenho
diante de mim, que suja ilhota é esta,
que moitas, casas, porcos a grunhir,
jardins abandonados, que rainha,
capim, raízes, pedras. Meu Telêmaco,
as ilhas todas se parecem quando
já se viaja há tanto tempo, o cérebro
confunde-se contando as ondas, o olho
chora entulhado de horizonte e a carne
das águas nos entope enfim o ouvido.
Não lembro como terminou a guerra
e quantos anos tens, tampouco lembro.
Cresce, Telêmaco meu filho, os deuses,
só eles sabem se nos reveremos.
Não és mais o garoto em frente a quem
contive touros bravos. Viveríamos
juntos os dois, não fosse Palamedes,*
que estava, talvez, certo, pois, sem mim,
podes, liberto das paixões de Édipo,
ter sonhos, meu Telêmaco, impolutos.
BRODSKY, Joseph. Quase uma elegia. Traduções de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996.
* NOTA (por Antonio Cicero):
Ulisses jurara lutar ao lado de Menelau e dos outros gregos contra Troia. Quando, porém, Palamedes e Menelau foram buscá-lo para a guerra, ele tentou escapar desse compromisso, fingindo estar louco. Juntando bois bravos a um arado, saiu pelo campo, semeando sal. Foi Palamedes quem o desmascarou, pois quando colocou Telêmaco, o filhinho de Ulisses, em frente à parelha, este a freou para não atropelar a criança. Com isso, revelou que não estava realmente fora de si. Resultado: teve que ir à guerra, após a qual se extraviou pelo mar durante vinte anos.
Labels:
Boris Schnaiderman,
Joseph Brodsky,
Nelson Ascher,
Poema
11.2.12
Marcel Proust: trecho de "À l'ombre des jeunes filles en fleurs"
[...] Compreendi melhor desde então que quando estamos apaixonados por uma mulher projetamos nela simplesmente um estado de nossa alma; que em conseqüência o importante não é o valor da mulher, mas a profundidade do estado; e que as emoções que uma moça medíocre nos dá podem permitir-nos fazer com que se elevem à nossa consciência partes mais íntimas de nós mesmos, mais pessoais, mais longínquas, mais essenciais do que poderia fazê-lo o prazer proporcionado pela conversação com um homem superior ou mesmo a contemplação e a admiração de suas obras.
[...] Je m’étais rendu mieux compte depuis qu’en étant amoureux d’une femme nous projetons simplement en elle un état de notre âme ; que par conséquent l’important n’est pas la valeur de la femme mais la profondeur de l’état ; et que les émotions qu’une jeune fille médiocre nous donne peuvent nous permettre de faire monter à notre conscience des parties plus intimes de nous-même, plus personnelles, plus lointaines, plus essentielles, que ne ferait le plaisir que nous donne la conversation d’un homme supérieur ou même la contemplation admirative de ses œuvres.
PROUST, Marcel. À l'ombre des jeunes filles en fleur. Paris: Gallimard, 1919.
Labels:
Marcel Proust,
Paixão
9.2.12
Rainer Maria Rilke: "Das Lied des Selbstmörders" / "A canção do suicida": tradução de Augusto de Campos
A canção do suicida
É sempre assim: no último momento
alguém vem e me corta
a corda.
Há pouco era tão intenso o meu intento
que eu já sentia o infinito nos
intestinos.
Uma colher me é estendida,
a colher da vida.
Não, já cheguei ao limite.
Permitam-me que eu me vomite.
Sei que a vida é boa e grande
e o mundo tem beleza à bessa,
mas ela não entra no meu sangue,
apenas sobe à minha cabeça.
A outros ela nutre, a mim só me afeta.
Creiam, a nem todos ela apraz.
Agora, por mil anos ou mais
vou precisar de uma dieta.
Das Lied des Selbstmörders
Also noch einen Augenblick.
Daß sie mir immer wieder den Strick
zerschneiden.
Neulich war ich so gut bereit,
und es war schon ein wenig Ewigkeit
in meinen Eingeweiden.
Halten sie mir den Löffel her,
diesen Löffel Leben.
Nein ich will und ich will nicht mehr,
laßt mich mich übergeben.
Ich weiß, das Leben ist gar und gut,
und die Welt ist ein voller Topf,
aber mir geht es nicht ins Blut,
mir steigt es nur zu Kopf.
Andere nährt es, mich macht es krank;
begreift, daß man's verschmäht.
Mindestens ein Jahrtausend lang
brauch ich jetzt Diät.
RILKE, Rainer Maria. "Das Lied des selbstmörders" / "A canção do suicida". trad. Augusto de Campos. In: CAMPOS, Augusto. Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2007.
Labels:
Augusto de Campos,
Poema,
Rainer Maria Rilke
6.2.12
Fiódor Dostoiévski: trecho de "O idiota"
Agradeço a Bruno Cosentino por me ter lembrado do seguinte trecho de O idiota, de Dostoievski:
Uma vez que de todos os escritores russos até agora apenas esses três [Lomonóssov, Púchkin e Gógol] conseguiram dizer a cada leitor algo efetivamente seu, próprio seu, não tomado de empréstimo a ninguém, dessa forma esses três se tornaram imediatamente nacionais. Quem dentre os russos disser, escrever ou fizer algo de seu, de seu inalienável e não assimilado, imediatamente se tornará nacional, ainda que fale mal o russo."
Dostoiévski, Fiódor. O idiota. Tradução: Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2002. p. 376, 377.
Labels:
Fiódor Dostoiévski,
nacionalidade,
Originalidade
2.2.12
Carlos Drummond de Andrade: "Confissão"
Confissão
Não amei bastante meu semelhante,
não catei o verme nem curei a sarna.
Só proferi algumas palavras,
melodiosas, tarde, ao voltar da festa.
Dei sem dar e beijei sem beijo.
(Cego é talvez quem esconde os olhos
embaixo do catre.) E na meia-luz
tesouros fanam-se, os mais excelentes.
Do que restou, como compor um homem
e tudo o que ele implica de suave,
de concordâncias vegetais, múrmurios
de riso, entrega, amor e piedade?
Não amei bastante sequer a mim mesmo,
contudo próximo. Não amei ninguém.
Salvo aquele pássaro -vinha azul e doido-
que se esfacelou na asa do avião.
ANDRADE, Carlos Drummond de. "Claro enigma". In:_____Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.
Labels:
Carlos Drummond de Andrade,
Poema
Assinar:
Postagens (Atom)