13.5.07

César Vallejo: Heces

Heces

Esta tarde llueve, como nunca; y no
tengo ganas de vivir, corazón.

Esta tarde es dulce. Por qué no ha de ser?
Viste gracia y pena; viste de mujer.

Esta tarde en Lima llueve. Y yo recuerdo
las cavernas crueles de mi ingratitud;
mi bloque de hielo sobre su amapola,
más fuerte que su "No seas así!"

Mis violentas flores negras; y la bárbara
y enorme pedrada; y el trecho glacial.
Y pondrá el silencio de su dignidad
con óleos quemantes el punto final.

Por eso esta tarde, como nunca, voy
con este búho, con este corazón.

Y otras pasan; y viéndome tan triste,
toman un poquito de ti
en la abrupta arruga de mi hondo dolor.

Esta tarde llueve, llueve mucho. ¡Y no
tengo ganas de vivir, corazón!



VALLEJO, César. Obra poética. Org. A. Ferrari. Paris: UFRJ Editora, 1996, p.46.

11.5.07

Hölderlin: Sócrates e Alcibíades

SÓCRATES E ALCIBÍADES

“Por que honras, sagrado Sócrates,
“Sempre esse jovem? Não conheces nada maior?
“Por que o fitam com amor,
“como aos deuses, os teus olhos?”

Aquele que pensou o mais fundo ama o mais [vivaz,
Aquele que encarou o mundo entende a [juventude altiva
E enfim frequentemente os sábios
curvam-se aos belos.




SOKRATES UND ALCIBIADES

“Warum huldigest du, heiliger Sokrates,
„Diesem Jünglige stets? kennest du Größeres [nicht?
„Warum siehet mit Liebe,
„Wie auf Götter, dein Aug’ auf ihn?“

Wer das Tiefeste gedacht, liebt das Lebendigste,
Höhe Jugend versteht, wer in die Welt geblickt
Und es neigen die Weisen
Oft am Ende zu Schönem sich.


Hölderlin, F. Sokrates und Alcibiades. Sämtliche Werke und Briefe. Vol 1. München: Karl Hanser, 1970, p.227.

A tradução é minha. A.C.

9.5.07

Alex Varella: Escrevia com lápis e borracha

Um poema do belíssimo livro Em Ítaca, de Alex Varella:


Escrevia com lápis e borracha
Em folhas
Do caderno de caligrafia.
Com tijolo, telha e carvão
Abrindo sulco na terra,
No chão,
No muro e na calçada.
Com canivete na mão, no tronco das árvores.
Até que um dia descobri
Que a mesma folha em que escrevia
Era e vinha
Das plantas e das árvores.
Foi desde então que resolvi
(e inda hoje quero assim)
Que só devo escrever mesmo em folhas [verdadeiras,
As originais.


VARELLA, Alex. Em Ítaca. Ilha de Santa Catarina: Noa Noa, 1985.

7.5.07

A filosofia e a língua alemã

O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da Folha de São Paulo, sábado, 5 de maio:


A FILOSOFIA E A LÍNGUA ALEMÃ
Já que a França se portava como a herdeira de Roma, a Alemanha se identificaria com a Grécia

AO CABO de uma palestra que fiz recentemente, perguntaram-me se concordo com a tese de que só é possível filosofar em alemão. Não foi a primeira vez. Essa questão se tornou popular no Brasil a partir de dois versos da canção "Língua", de Caetano Veloso, a saber: "Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção/ Está provado que só é possível filosofar em alemão".
Ocorre que os versos que se encontram no interior de um poema ou de uma canção não estão necessariamente afirmando aquilo que afirmariam fora do poema, noutro contexto. Por exemplo, no poema de Carlos Drummond de Andrade "O Sobrevivente", um verso diz: "O último trovador morreu em 1914". Esse verso vale no poema pelo efeito que causa: pouco importa que seja verdadeiro ou falso. Seria diferente se, em vez de um verso, fosse uma proposição num livro de história da literatura.
Nesse sentido, um poema é análogo a uma pintura. Um episódio da vida de Matisse ajuda a ilustrar esse fato. Visitando o ateliê do mestre, ao ver uma das suas últimas obras, uma senhora comentou: "Parece-me que o braço dessa mulher está muito comprido". "Madame", respondeu ele polidamente, "a senhora está equivocada. Não se trata de uma mulher, mas de uma pintura."
Analogamente, a quem quiser debater com Caetano a afirmação de que só é possível filosofar em alemão, ele poderia responder: "Não se trata de uma afirmação, mas de uma canção". Na verdade, o verso em questão possui uma forte carga irônica e provocativa: tanto mais quanto a afirmação de que só é possível filosofar em alemão é geralmente atribuída a Heidegger, filósofo cujo tema precípuo é o ser. Ora, logo no início de "Língua", um verso ("Gosto de ser e de estar") explora um importante privilégio poético-filosófico da língua portuguesa e de pouquíssimas outras línguas latinas, que é a distinção entre ser e estar: privilégio não compartilhado pela língua alemã.
Mas, abstraindo da canção de Caetano, consideremos a própria tese de Heidegger. Para ele, a língua que hoje mais se aproxima da grega antiga -que considerava a língua do pensamento por excelência- é a alemã. Essa pretensão tem uma história. Os poetas e pensadores românticos da Alemanha inventaram a superioridade filosófica do seu idioma porque foram durante muito tempo assombrados pela presunção, que lhes era opressiva, da superioridade do latim e do francês.
Como se sabe, o latim foi a língua da filosofia e da ciência na Europa inteira desde o Império Romano até a segunda metade do século 18, enquanto o alemão era considerado uma língua bárbara. Na segunda metade do século 17 e no século 18, a França dominou culturalmente a Europa. Paris foi a nova Roma e o francês o novo latim. O alemão Leibniz escreveu seus tratados filosóficos em latim e francês. O filósofo alemão Christian Wolff e o jovem Kant também escreveram em latim. Na corte de Frederico o Grande, falava-se francês; nas escolas prussianas, o alemão, depreciado como "língua de cocheiros", era proibido.
Não admira que os intelectuais alemães -de origem burguesa ou pequeno-burguesa- tenham reagido violentamente, tanto contra o culto que a aristocracia do seu país dedicava a tudo o que era francês quanto contra o concomitante desprezo que reservava a tudo o que era alemão. Para eles, já que a França se portava como a herdeira de Roma, a Alemanha se identificaria com a Grécia. Se o léxico francês era descendente do latino, a morfologia e a sintaxe alemãs teriam afinidades com as gregas. Se modernamente o francês, como outrora o latim, posava de língua da civilização universal, é que eram superficiais a civilização e a universalidade; o alemão seria, ao contrário, a língua da cultura e da particularidade germânica: autêntica, profunda, e o equivalente moderno do grego.
Levando isso em conta, estranha-se menos o fato de que Heidegger tenha sido capaz de querer crer que a superficialidade que atribui ao pensamento ocidental moderno -o "esquecimento do ser"- tenha começado com a tradução dos termos filosóficos gregos para o latim; ou de afirmar que os franceses só consigam começar a pensar quando aprendem alemão.
Estranho é que haja franceses ou brasileiros que acreditem nesses mitos germânicos, quando falam idiomas derivados da língua latina, cujo vocabulário é rico de 2000 anos de filosofia, e que tinha – ela sim – enorme afinidade com a língua grega, além de ter absorvido diretamente a sua herança.

4.5.07

Waly Salomão: ARS POÉTICA - OPERAÇÃO LIMPEZA

Um belíssimo poema de Waly Salomão, que imensa SAUDADE me causa:



ARS POÉTICA
OPERAÇÃO LIMPEZA
Assi me tem repartido extremos, que não entendo...
(Sá de Miranda)


I
SAUDADE é uma palavra
Da língua portuguesa
A cujo enxurro
Sou sempre avesso
SAUDADE é uma palavra
A ser banida
Do uso corrente
Da expressão coloquial
Da assembléia constituinte
Do dicionário
Da onomástica
Do epistolário
Da inscrição tumular
Da carta geográfica
Da canção popular
Da fantasmática do corpo
Do mapa da afeição
Da praia do poema
Pra não depositar
Aluvião
Aqui
Nesta ribeira.


II
Súbito
Sub-reptícia sucurijuba
A reprimida resplandece
Se meta-formoseia
Se mata
O q parecia pau de braúna
Quiçá pedra de breu
Quiçá pedra de breu
CINTILA
Re-nova cobra rompe o ovo
Da casca velha
SIBILA

III
SAUDADE é uma palavra
O sol da idade e o sal das lágrimas



De: SALOMÃO, Waly. Armarinho de miudezas. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1993.

1.5.07

Vinícius de Moraes: Soneto da maioridade

Não se pode economizar superlativos ao falar do poema a seguir; trata-se sem dúvida de um dos sonetos mais bonitos que existem:


Soneto da maioridade

O Sol, que pelas ruas da cidade
Revela as marcas do viver humano
Sobre teu belo rosto soberano
Espalha apenas pura claridade.

Nasceste para o Sol; és mocidade
Em plena floração, fruto sem dano
Rosa que enfloresceu, ano por ano
Para uma esplêndida maioridade.

Ao Sol, que é pai do tempo, e nunca mente
Hoje se eleva a minha prece ardente:
Não permita ele nunca que se afoite

A vida em ti, que é sumo de alegria
De maneira que tarde muito a noite
Sobre a manhã radiosa do teu dia.


MORAES, Vinícius. "Soneto da maioridade". In: Nova antologia poética. Org. p. A. Cicero e E. Ferraz. São Paulo: Companhia de Bolso, 2003, p.155.

Drummond: A céu aberto...

O seguinte -- extraordinário -- poema de Carlos Drummond de Andrade não se encontra em nenhuma antologia que eu conheça. Colhi-o no Jornal do Brasil, por ocasião da morte de Drummond, que foi -- nunca é demais repetir -- um dos maiores poetas do século XX, e o maior poeta que o Brasil já produziu.


A céu aberto reúnem-se em congresso
os corpos que a manhã torna esculpidos,
ao entardecer envoltos de doçura.
Aqui pousam morenas redondezas
entregues à delícia de existir
ao calor da onda glauca, sem problemas.
Existir, simplesmente -- a vida é cor,
é curva adolescente, é surfe e papo.
O mar, irmão. O cão namora o peixe?
A barraca levada pelo vento?
A obrigação tediosa postergada?
Deixa fluir o tempo! O tempo é nada.