13.2.18

Euclides da Cunha: "Nestes três dias esplêndidos"

Agradeço ao poeta André Vallias por me ter chamado atenção para o seguinte poema de Euclides da Cunha:


Nestes três dias esplêndidos
Em que o Prazer tudo arrasa
Desde o cristão ao ateu,
Quem se sente neurastênico
Faz como eu,
Fica em casa



CUNHA, Euclides da. "Nestes três dias esplêndidos". In: Revista Fon-Fon!, Ano III, nº 8, 18/02/1909.

11.2.18

Eduardo Quina: "[nota]"



[nota]

continuamos estarrecidos a ouvir
a fatídica música de Orpheu.
a longínqua partitura do pranto
é alta. altíssima esta penúria
de que se fez irredutível o canto.
inculca-se a orquestração dos deuses
e da sua natureza impune.

e fez-se mytho e enigmático
na curva escarpada do tempo:
cesura que se abriu para sempre
nas entranhas.

inscrita na paisagem viva que se
desprende através da palavra
nas flores ocasionais da nossa infância
ou
nos estilhaços repercutidos e insignificantes da poesia.

tudo isto para dizer:
memória e ausência.



QUINA, Eduardo. "[nota]". In:_____. ausência. Leça da Palmeira: Eufeme, 2017 (2ª edição).

9.2.18

Fernando Pessoa: "Dom João, Infante de Portugal"



Dom João, Infante de Portugal

Não fui alguem. Minha alma estava estreita
Entre tam grandes almas minhas pares,
Inutilmente eleita,
Virgemmente parada;

Porque é do portuguez, pae de amplos mares,
Querer, poder só isto:
O inteiro mar, ou a orla vã desfeita --
O todo, ou o seu nada.



PESSOA, Fernando. "Dom João, Infante de Portugal". In:_____. Mensagem. Org. de Clarice Berardinelli, Maurício Matos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008.

7.2.18

Bocage: "Enquanto o sábio arreiga o pensamento"



Enquanto o sábio arreiga o pensamento
Nos fenómenos teus, ó Natureza,
Ou solta árduo problema, ou sobre a mesa
Volve o subtil, geométrico instrumento;

Enquanto, alçando a mais o entendimento,
Estuda os vastos céus, e com certeza
Reconhece dos astros a grandeza,
A distância, o lugar e o movimento;

Enquanto o sábio, enfim, mais sabiamente
Se remonta nas asas do sentido
A corte do Senhor omnipotente,

Eu louco, eu cego, eu mísero, eu perdido,
De ti só trago cheia, oh Jónia, a mente;
Do mais e de mim mesmo ando esquecido.




BOCAGE, Manuel Maria l'Hedoux de Barbosa du. Obra completa. Edição de Daniel Pires. Porto: Caixotim, 2004.

5.2.18

Paul Celan: "Schreib dich nicht" / "Não te escrevas": trad. de João Barrento



Não te escrevas
entre os mundos,

ergue-te contra
a variedade de sentidos

confia no rastro das lágrimas
e aprende a viver




Schreib dich nicht
zwischen die Welten,

komm auf gegen
die Bedeutungen Vielfalt,

vertrau der Tränenspur
und lerne leben




CELAN, Paul. "Schreib dich nicht" / "Não te escrevas". In:_____. A morte é uma flor. Poemas do espólio. Trad. de João Barrento. Lisboa: Cotovia, 1998.

3.2.18

Jean-Pierre Lemaire: "L'imprimeur" / "O impressor": trad. de Júlio Castañon Guimarães



O impressor

a Jean-François

Na entrelinha, entre os tipos,
ele às vezes põe um pedaço de papel,
acrescenta às palavras visíveis
uma folha de fino silêncio,
o arrepio dos pinheiros em torno da oficina,
a onda quase apagada
vinda de uma forja na saída do lugarejo
ou da grande bigorna
muda do Mézenc.
Mais tarde, distante dali,
o poeta relê a página impressa,
reconhece seu rosto e seu próprio mundo
com alívio:
o espelho respira.




L’imprimeur

à Jean-François

Sur la réglette, entre les caractères,
il glisse parfois un morceau de papier,
ajoute aux mots visibles
une feuille de fin silence,
le frisson des sapins autour de l’atelier,
l’onde presque éteinte
venue d’une forge au bout du village
ou de la grande enclume
muette du Mézenc.
Plus tard, loin de là,
le poète relit la page imprimée,
reconnaît son visage et son propre monde
avec soulagement :
le miroir respire.




LEMAIRE, Jean-Pierre. "L'imprimeur" / "O impressor". In:_____. Poemas. Trad. de Júlio Castañon Guimarães. São Paulo: Lemme Editor, 2010. 

1.2.18

Ramon Nunes Mello: "da sensibilidade e outras percepções agudas"



da sensibilidade e outras percepções agudas

há 
um sol
dentro de
cada palavra

todos os dias
abro janelas
para iluminar
a língua





MELLO, Ramon Nunes. "da sensibilidade e outras percepções agudas". In:_____. Há um mar no fundo de cada sonho. Rio de Janeiro: Verso Brasil Editora, 2016.