12.4.17
Jacques Prévert: "Le cancre" / "Juquinha": trad. de Silviano Santiago
Le cancre
Il dit non avec la tête
mais il dit oui avec le cœur
il dit oui à ce qu’il aime
il dit non au professeur
il est debout
on le questionne
et tous les problèmes sont posés
soudain le fou rire le prend
et il efface tout
les chiffres et les mots
les dates et les noms
les phrases et les pièges
et malgré les menaces du maître
sous les huées des enfants prodiges
avec des craies de toutes les couleurs
sur le tableau noir du malheur
il dessine le visage du bonheur.
Juquinha
Diz não com a cabeça
diz sim com o coração
diz sim ao que ama
diz não ao professor
está de pé
sendo arguído
e todas as perguntas lhe são feitas
de repente morre de rir
e apaga tudo
os números e as palavras
as datas e os nomes
as frases e as armadilhas
e apesar das ameaças do professor
debaixo da vaia dos meninos prodígios
no quadro- negro da desgraça
com giz de todas as cores
desenha o rosto da felicidade.
PRÉVERT, Jacques. "Le cancre" / "Juquinha". Poemas. Seleção e tradução de Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
Labels:
Jacques Prévert,
Poema,
Silviano Santiago
9.4.17
Bill Knott: "Death"
Morte
Perto de dormir, cruzo as mãos sobre o peito.
Colocarão minhas mãos assim.
Parecerá que estou a voar para dentro de mim mesmo.
Death
Going to sleep, I cross my hands on my chest.
They will place my hands like this.
It will look as though I am flying into myself.
KNOTT, Bill. "Death". In:_____. I am flying into myself: selected poems, 1960-2014. Org. por Thomas Lux. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2017.
Labels:
Bill Knott,
Poema
7.4.17
Antônio Olinto: "Teoria do homem"
Teoria do homem
O começo do homem é o fim do homem
o começo é o fim
o começo é o homem
o homem é o fim
meço o homem pelo fim
o fim é a medida a medida é o começo
a medida é o meio o meio é o medo
o medo é o muro o muro é o vulto
o vulto é o vento
o vento bate na bandeira
parece passo na pressa
o passo é a pressa
a pressa é o modo
o modo é o mito
o mito é a meta
o fim é o mito
o mito é o começo
o começo do homem é o fim do homem
o fim do homem é o começo do homem.
OLINTO, Antônio. "Teoria do homem". In:_____. 50 poemas escolhidos pelo autor. Rio de Janeiro: Galo Branco, 2004.
Labels:
Antonio Olinto,
Poema
5.4.17
Seamus Heaney: "Arion" / "Aríon": trad. de Rui Carvalho Homem
Aríon
Todos estávamos em grande afã lá no barco,
Alguns em cima esticando as velas,
Outros em baixo no puxa e empurra
Dos bancos de remador, com pesada carga,
A quilha firme no mar, singrando em silêncio,
O timoneiro jovial ao leme;
E eu, que achava estar tudo garantido,
Cantava para os marinheiros.
E de súbito,
Vento tumultuoso, um turbilhão:
O timoneiro e os marinheiros morreram.
Só eu, cantando ainda, lançado
À praia pela longa vaga marinha, prossigo
O meu canto, um mistério para o meu ser de poeta,
E são e salvo debaixo de uma falésia
Estendo as minhas roupas molhadas ao sol.
do russo de Alexandre Puchkin
Arion
We were all hard at it in the boat,
Some of us up tightening sail,
Some down at the heave and haul
Of the rowing benches, deeply cargoed,
Steady keeled, our passage silent,
The helmsman buoyant at the helm;
And I, who took it all for granted,
Sang to the sailors.
Then turbulent
Sudden wind, a maelstrom:
The helmsman and the sailors perished.
Only I, still singing, washed
Ashore by the long sea-swell, sing on,
A mystery to my poet self,
And safe and sound beneath a rock shelf
Have spread my wet clothes in the sun.
from the Russian of Alexader Puchkin
HEANEY, Seamus. "Arion" / "Aríon". In:_____. Electric light. Trad. de Rui Carvalho Homem. Vila Nova de Famalicão: Quasi, s.d.
Labels:
Alexandre Puchkin,
Poema,
Rui Carvalho Homem,
Seamus Heaney
3.4.17
Nelson Ascher: "Havia um surfista em Recife"
Havia um surfista em Recife
que usava só pranchas de grife.
Tubarões, todavia,
devoraram-no um dia
pensando tratar-se de um bife.
ASCHER, Nelson. "Havia um surfista em Recife". In:_____. "Aqui (limericks, epigramas & epitáfio)". In:_____. Parte alguma: poesia (1997-2004). São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
Labels:
Nelson Ascher,
Poema
1.4.17
Derek Walcott: "Love after love" / "Amor depois de amor": trad. de Rodrigo Garcia Lopes
Love after love
The time will come
when, with elation
you will greet yourself arriving
at your own door, in your own mirror
and each will smile at the other's welcome,
and say, sit here. Eat.
You will love again the stranger who was your self.
Give wine. Give bread. Give back your heart
to itself, to the stranger who has loved you
all your life, whom you ignored
for another, who knows you by heart.
Take down the love letters from the bookshelf,
the photographs, the desperate notes,
peel your own image from the mirror.
Sit. Feast on your life.
WALCOTT, Derek. "Love after love". In:_____. Collected poems. New York: Farrar, Straus and Giroux, 1986.
Amor depois de amor
Vai vir o tempo
em que você, orgulhoso,
vai saudar a si mesmo chegando
à sua própria porta, em seu próprio espelho,
e vão trocar sorrisos de boas-vindas,
você vai dizer, sente-se. Coma.
Vai amar o estranho que um dia você foi.
Dê vinho. Dê pão. Devolva seu coração
pra ele mesmo, o estranho que o amou
por toda a sua vida, e a quem você ignorou
por outro alguém, que o conhece de cor.
Pegue da estante as cartas de amor,
as fotografias, as anotações desesperadas,
descasque seu reflexo do espelho.
Sente-se. Sirva-se da vida.
WALCOTT, Derek. "Amor depois de amor". Trad. Rodrigo Garcia Lopes. In blog Estúdio Realidade. URL: http://estudiorealidade.blogspot.com.br/2011/12/amor-depois-de-amor-derek-walcott.html. Acessado em 1 de março de 2017.
Labels:
Derek Walcott,
Poema,
Rodrigo Garcia Lopes
Eu, Waly Salomão e Derek Walcott
Eu, Waly Salomão e Derek Walcott, na casa deste, na ilha de
Saint Lucia, no Caribe, em 1994.
Em 1994, o poeta Waly Salomão e eu fomos -- graças ao apoio de
Ana Lucia Magalhães Pinto, que dirigia o departamento cultural do
Banco Nacional -- à Ilha de Saint Lucia, para convidar o poeta
Derek Walcott a vir ao Brasil, participar do ciclo internacional de
conferências intitulado "Banco Nacional de Ideias", que Waly e eu
organizamos até 1995. O poeta caribenho veio e pronunciou uma
bela palestra em São Paulo.
Assinar:
Postagens (Atom)
