12.12.15

Pedro Du Bois: "Partir"




Partir

Sinto a hora: a partida invade a espera
despedaçada. Retornar é o remédio
na prescrição sábia do entorno.

Sou errante
colocado sobre cidades
emparedadas: sonho
idas
e desprezo
voltas.

Tortos ângulos
tergiversam respostas:
a aposta se distancia
e me perco
em cartas mal amadas.




BOIS, Pedro Du. "Partir". In:_____. O livro infindável e outros poemas. Mossoró: Sarau das Letras, 2015.


10.12.15

Lêdo Ivo: "A saudação"




A saudação

Todo anonimato
tem os seus limites.
O melhor disfarce
não esconde nada.

Usar uma máscara
a ninguém evita
ser reconhecido
em plena avenida.

Segredo e silêncio
são engano e vento.
Quando à noite passo

pela praça, a estátua
desce o pedestal
e me cumprimenta.



IVO, Lêdo. "A saudação". In:_____. Antologia poética. Porto: Edições Afrontamento, 2012.

7.12.15

Màximo Simpson: "La fuente" / "A fonte": trad. Jair Ferreira dos Santos



A fonte

É pálida, violácea, transparente,
é rubra mas verde,
é azul mas emana rupturas de desejo.
É única talvez,
ou é múltipla, incorpórea.
Não é ausência nem olvido,
e espreita de longe, de perto,
de dentro do náufrago e seu traje.
É o centro sem centro da dor,
a fonte inexplicável dos dias que passam.




La fuente

Es pálida, violácea, transparente,
es roja pero es verde,
es azul pero emana rupturas del deseo.
Es única tal vez,
o es múltiple, incorpórea.
No es ausencia ni olvido,
y acecha desde lejos, desde cerca,
desde dentro del náufrago y su traje.
Es el centro sin centro del dolor,
la fuente inexplicable de los días que pasan.




SIMPSON, Máximo. "La fuente" / "A fonte". Trad. de Jair Ferreira dos Santos. In: Candido. Jornal da Biblioteca Pública do Paraná, nº 52, novembro de 2015.

5.12.15

Cecília Meireles: "Homem que descansas à sombra das árvores"




Homem que descansas à sombra das árvores

Homem que descansas à sombra das árvores,
com um cesto de frutas cercado de abelhas,
a camisa aberta, o sol derramando
pela tua barba pétalas vermelhas,

– vires de tão longe, do reino da Fábula
para adormeceres nesta humilde estrada!
De onde são teus sonhos? De que céus e areias?
Que é da tua vida, ó sultão do nada?



MEIRELES, Cecília. "Homem que descansas à sombra das árvores". In:_____. "Canções". In:_____. Obra poética. Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1967.

3.12.15

Dylan Thomas recita "And death shall have no dominion"


Ouçam o poeta Dylan Thomas a ler seu poema "And death shall have no dominion", cujo texto, em inglês e em português, na tradução de Augusto de Campos, encontra-se na postagem anterior:



Dylan Thomas: "And death shall have no dominion" / "E a morte não terá domínio": trad. Augusto de Campos





And death shall have no dominion

And death shall have no dominion.
Dead man naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to a wheel, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan't crack;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift its head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down,
And death shall have no dominion.



E a morte não terá domínio

E a morte não terá domínio.
Nus, os mortos há de ser um.
Com o homem ao léu e a lua em declínio.
Quando os ossos são só ossos que se vão,
Estrelas nos cotovelos e nos pés;
Mesmo se loucos, há de ser sãos,
Do fundo do mar ressuscitarão
Amantes podem ir, o amor não.
E a morte não terá domínio.

E a morte não terá domínio.
Sob os turvos torvelinhos do mar
Os que jazem já não morrerão ao vento,
Torcendo-se nos ganchos, nervos a desfiar,
Presos a uma roda, não se quebrarão,
A fé em suas mãos dobrará de alento,
E os males do unicórnio perderão o fascínio,
Esquartejados não se racharão
E a morte não terá domínio.

E a morte não terá domínio.
Os gritos das gaivotas não mais se ouvirão
Nem as ondas altas quebrarão nas praias.
Onde uma flor brotou não poderá outra flor
Levantar a cabeça às lufadas da chuva;
Embora sejam loucas e mortas como pregos,
Testas tenazes martelarão entre margaridas:
Irromperão ao sol até que o sol se rompa,
E a morte não terá domínio.




THOMAS, Dylan. "And death shall have no dominion" / "E a morte não terá domínio". Trad. Augusto de Campos. In:_____. CAMPOS, Augusto de. Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006.

1.12.15

Eduardo Tornaghi: "Graal"





Graal

Há uma outra leitura
Dentro de cada poema.
Não se contente nunca
Com um sentido apenas.

Há na superfície mesmo
Escondida nas obviedades,
Nas tônicas, nos termos,
Nas vírgulas, na sintaxe,

Uma pulsação que exala
O mistério das sensações,
uma alguma outra fala
que salta de formas e sons.

Sentidos muitos se tramam
em teias, em redes, impulso
onde o que nos humana
Goza ao tocar o oculto.



TORNAGUI, Eduardo. "Graal". In:_____. Matéria de rascunho: poemas. Rio de Janeiro: Edição 00 (duplo zero), 2011.