16.11.15

Federico Garcia Lorca: "Cantos nuevos" / "Cantos novos": trad. William Agel de Melo





Cantos novos

Agosto de 1920
(Vega de Zujaira)

Diz a tarde: "Tenho sede de sombra!"
Diz a lua: "Eu, sede de luzeiros."
A fonte cristalina pede lábios
e suspira o vento.

Eu tenho sede de aromas e de sorrisos,
sede de cantares novos
sem luas e sem lírios,
e sem amores mortos.

Um cantar de manhã que estremeça
os remansos quietos
do porvir. E encha de esperança
suas ondas e seus lodaçais.

Um cantar luminoso e repousado
cheio de pensamento,
virginal de tristezas e de angústias
e virginal de sonhos.

Cantar sem carne lírica que encha
de risos o silêncio
(um bando de pombas cegas
lançadas ao mistério).

Cantar que vá à alma das coisas
e à alma dos ventos
e que descanse por fim na alegria
do coração eterno.



Cantos nuevos

Agosto de 1920
(Vega de Zujaira)

Dice la tarde: "¡Tengo sed de sombra!"
Dice la luna: "¡Yo, sed de luceros!"
La fuente cristalina pide labios
y suspira el viento.

Yo tengo sed de aromas y de risas,
sed de cantares nuevos
sin lunas y sin lirios,
y sin amores muertos.

Un cantar de mañana que estremezca
a los remansos quietos
del porvenir. Y llene de esperanza
sus ondas y sus cienos.

Un cantar luminoso y reposado
pleno de pensamiento,
virginal de tristezas y de angustias
y virginal de ensueños.

Cantar sin carne lírica que llene
de risas el silencio
(una bandada de palomas ciegas
lanzadas al misterio).

Cantar que vaya al alma de las cosas
y al alma de los vientos
y que descanse al fin en la alegría
del corazón eterno.




GARCIA LORCA, Federico. "Cantos nuevos" / "Cantos novos". In:_____. "Libro de poemas (1921)" ; "Livro de poemas".. In:_____. Obra poética completa. Tradução de William Agel de Melo. Brasília: Editora U. de Brasília; São Paulo: Martins Fontes, 1989.

14.11.15

PÁGINA DO FACEBOOK FALSAMENTE ATRIBUÍDA A MIM, ANTONIO CICERO




Aviso aos amigos que não é minha, nem é feita com minha autorização a página do Facebook intitulada "Na cidade frenética [...]", cujo endereço é
https://www.facebook.com/AntonioCiceroCorreiaLima/info/?tab=page_info.
Não tenho nada a ver com essa página.

Antonio Cicero

13.11.15

João Bandeira: poema "Existir existiram" lido por Antonio Cicero










Existir existiram
imagino
em toda a história
seres assim
outras a quem
eu também
me dedicaria
admito

mas na falta de mais
exatos registros
preto no branco é isso:

embora há tempos
transformada em harpia
depois do advento
da fotografia ao menos
para um menino
nenhuma houve ainda
tão linda e quente
como Brigitte



BANDEIRA, João. "Existir existiram". In:_____. Quem quando queira. São Paulo: Cosac Naify, 2015.

11.11.15

Giuseppe Ungaretti: "Eterno": trad. Geraldo Holanda Cavalcanti




Eterno

Entre uma flor colhida e outra ofertada
o inexprimível nada



Eterno

Tra un fiore colto e l'altro donato
l'inesprimibile nulla



UNGARETTI, Giuseppe. "Eterno". In:_____. A alegria. Edição bilíngue. Tradução e notas de Geraldo Holanda Cavalcanti. Rio de Janeiro: Record, 2003.







8.11.15

Jorge Salomão: "luz da manhã"





luz da manhã
você abrindo a porta
depois da noite morta
tudo é flor
meu Rio maio cor
acende rápido
um beijo em pleno asfalto
se abre em rios
luz da manhã
caminho 
ruas vazias
na varanda filtra o sol
alegria!
outra paixão
linda luz
entre mistérios
decifra-me ou devoro-te
nova canção
na luz da manhã




SALOMÃO, Jorge. "luz da manhã". In:_____. Mosaical. Rio de Janeiro: Gryphus, 1994.

7.11.15

Bertold Brecht: "Der Lernende" / "O aprendiz": trad. Wira Selanski




O aprendiz

Primeiro construí na areia, depois na rocha,
Quando a rocha ruiu,
Não construí mais nada.
Depois construí muitas vezes de novo
Ora na areia, ora na rocha, porém
Eu aprendi.

Aqueles a quem confiei a carta
Jogaram-na fora. Os outros, que nem notei,
A mim a trouxeram de volta.
Então aprendi.

O que eu mandei fazer não foi realizado,
Mas quando cheguei ao lugar
Vi que seria errado. O certo
Foi feito.
Disso eu aprendi.

As cicatrizes doem
No tempo frio.
Mas eu digo sempre: só o túmulo
Não me ensina mais nada.




Der Lernende

Erst baute ich auf Sand, dann baute ich auf Felsen.
Als der Felsen einstürzte
Baute ich auf nichts mehr.
Dann baute ich oftmals wieder
Auf Sand und Felsen, wie es kam, aber
Ich hatte gelernt.

Denen ich den Brief anvertraute
Die warfen ihn weg. Aber die ich nicht beachtete
Brachten ihn mir zurück.
Da habe ich gelernt.

Was ich auftrug, wurde nicht ausgerichtet.
Als ich hinkam, sah ich
Es war falsch gewesen. Das Richtige
War gemacht worden.
Davon habe ich gelernt.

Die Narben schmerzen
In der kalten Zeit.
Aber ich sage oft: nur das Grab
Lehrt mich nichts mehr.





BRECHT, Bertold. "Der Lernende"/"O aprendiz". Trad. de Wira Selanski. In: SELANSKI, Wira (org.). Fonte: Antologia da lírica alemã. Rio de Janeiro: Editora Velha Lapa, 1999.

3.11.15

Abel Silva: "Relógio de pulso"




Relógio de pulso

O tempo me expõe suas teias
mas não num relógio de pulso
o tempo me pulsa nas veias.



SILVA, Abel. "Relógio de pulso". In:_____. O gosto dos dias. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014.