12.9.15

Bernardo Vilhena: "Que música é essa?"




Que música é essa?

Que música é essa?
Que invade o poema
E me impele a escrever?

Que ritmo é esse?
Que escolhe palavras
A seu bel prazer?

Que som é esse?
Ruído imperfeito
A quebrar o desenho
Que parecia tão claro
E agora desfeito
Desdenha da forma
E se impõe por si só?

A melodia interrompida
Imita a vida com nuances
Surpresas, acasos e improvisos

Nada me resta além
Do silêncio quebrado
E a imprecisão dos sentidos



VILHENA, Bernardo. "Que música é essa?". In: Cândido. Jornal da Biblioteca Pública do Paraná,  nº 49, agosto de 2015. 

10.9.15

George Gordon Byron: estrofe XIX de "Beppo: a Venetian story" / "Beppo: uma história veneziana": trad. Paulo Henriques Britto





XIX

Já viste uma gôndola, meu prezado
Leitor? Vou descrever – é coisa à toa:
Um barco negro, coberto, alongado,
Leve e compacto; tem de ferro a proa,
E é por dois remadores tripulado.
Mais parece um caixão numa canoa,
E dentro dele, o que se diga ou faça
Jamais é percebido por quem passa.



XIX

Didst ever see a Gondola? For fear
You should not, I'll describe it you exactly:
'Tis a long covered boat that's common here,
Carved at the prow, built lightly, but compactly,
Rowed by two rowers, each call'd "Gondolier,"
It glides along the water looking blackly,
Just like a coffin clapt in a canoe,
Where none can make out what you say or do.




BYRON, George Gordon. Estrofe XIX. Trad. de Paulo Henriques Britto. In:_____. Beppo: uma história veneziana. Trad. de Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.  

8.9.15

Manuel Bandeira: "Momento num café"




Momento num café

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.




BANDEIRA, Manuel. "Momento num cafe". In:_____. 50 poemas escolhidos pelo autor. São Paulo: Cosacnaify, 2006.

6.9.15

Francisco Alvim: "O gênio da língua"




O gênio da língua

Corno manso
Bobo alegre



ALVIM, Francisco. "O gênio da língua". In:_____.  "Elefante". In:_____. Poemas [1968-2000]. Rio de Janeiro: 7 Letras; São Paulo: Cosacnaify, 2004.

4.9.15

Anacreonte: "As rédeas da alma" / trad.: Frederico Lourenço




As rédeas da alma

Jovem de olhar inocente,
procuro-te no meio das outras pessoas,
mas tu não reparas,
pois não sabes que deténs as rédeas da minha alma.



ANACREONTE. "As rédeas da alma". Trad. de Frederico Lourenço. In: LOURENÇO, Frederico (org.). Poesia grega de Álcman a Teócrito. Lisboa: Cotovia e Frederico Lourenço, 2006.



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Exposiçao Narrativas Poéticas no Rio de Janeiro

A curadoria geral da exposição NARRATIVAS POÉTICAS é de Helena Severo; a curadoria especial de artes plásticas é de Franklin Espath Pedroso; e a curadoria especial de poesia é de Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz.

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1.9.15

Arnaldo Antunes: "nada"








nada
com um vidro na frente
já é alguma coisa


nada
com um vento batendo
já é alguma coisa


nada
com o tempo passando
já é alguma coisa


mas
não é nada









ANTUNES, Arnaldo. "nada". In:_____. agora aqui ninguém precisa de si. São Paulo: Companhia das Letras, 2015