16.8.15

Nelson Motta homenageia Marina Lima




Na semana passada, Nelsinho Motta fez uma bela homenagem à Marina Lima, no Jornal da Globo. Abaixo, vocês encontrarão o link para ela.

Aproveito para corrigir apenas um pequeno equívoco. Ao contrário do que Nelsinho pensava, Marina não nasceu no Piaui. Nossos pais são, de fato, piauienses, porém não se conheceram lá, mas no Rio de Janeiro, onde namoraram, casaram-se e tiveram seus filhos. Mas isso é um detalhe. A homenagem de Nelsinho é linda.

13.8.15

Manuel Joaquim Ribeiro: "Mais pode o sol deixar de ser luzente"





Mais pode o Sol deixar de ser luzente,
E com a noite misturar-se o dia;
Ser a calma, bem como a neve fria,
E ser por natureza o gelo quente:

Mais pode o mar de ser movente,
E de ser rocha a bruta penedia,
Tornar-se em trevas tudo o que alumia,
E a mesma terra ser resplandecente:

Mais pode o mundo em nada ser desfeito
A matéria perder a gravidade,
Deixar o fogo de queimar o efeito:

Mais pode, enfim, ser sombra a claridade,
Que eu deixar de sentir no terno peito
O golpe que me fere da saudade.



RIBEIRO, Manuel Joaquim. "Mais pode o sol deixar de ser luzente". In: AMORA, Antonio Soares (org.). Panorama da poesia brasileira, vol.1. Era luso-brasileira (séculos XVI-c. XIX). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1959.

11.8.15

Moshé Ibn Ezra: "São túmulos de tempos antigos, velhos"

Moshé Ibn Ezra viveu em Granada, de 1055 a 1135.




São túmulos de tempos antigos, velhos.
Neles há gente que dorme um sono eterno.
Nem ódio, nem inveja há no seu interior,
nem amor, nem zangas de vizinhos.
Os meus pensamentos não podem, quando os veem,
distinguir entre servos e senhores.



EZRA, Moshé Ibn. “São túmulos de tempos antigos, velhos”. Versão de Francisco José Viegas, tradução do hebraico de Maria José Cano. In: VIEGAS, Francisco José (org.). Cem poemas para savar a nossa vida, vol.1. Lisboa: Quetzal, 2014.

9.8.15

Salgado Maranhão: "Viajor"




Viajor

caminho no torrão
onde a língua guardou
seus trapos; sua
vertigem de lírios
e sermões. Sigo

à deriva,
entre fogueiras e degelo,
neste voo escarrado de abismo
e santidade.

Sou o viajor que carrega
a seara mítica
e a liturgia do fogo.

Sonhei uma aldeia
de vinhas
                 (ou um barco
arrancado aos piratas?)

 e tenho só este sol
que me queima a língua;
e tenho só esta sede inflamável
misturada ao sangue
dos bichos.

Estou contaminado de esquinas
e devires.



MARANHÃO, Salgado. "Viajor". In:_____. "Chão de mitos". In:_____. Ópera de nãos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2015.

7.8.15

Luís Miguel Nava: "Há uma pedra feroz"





Há uma pedra feroz

Há uma pedra feroz,
um rapaz,
há o olhar do rapaz atado à pedra,
o olhar do rapaz, a minha casa,
o olhar do rapaz às vezes é a pedra.



NAVA, Luís Miguel. "Há uma pedra feroz". In_____. "Onde a nudez". In:_____. Poesia completa. 1979-1994. Org. de Gastão Cruz. Lisboa: Dom Quixote, 2002.

3.8.15

Waly Salomão: "Fallax opus"





FALLAX OPUS

OBRA ENGANADORA
                   
           Como se fosse dialogando com Zé Celso Martinez Correia


– Falar é fogo-fátuo

Chego e constato:
– Teatro não se explica
Teatro é ato

Afônico sim, afásico não
Eu, poeta, perco a voz
E quase me some o nume
Ícaro caído
Asas crestadas pelo sol
Dos refletores
Caricatura de Ícaro
Sapecado

Estatelado no átrio pergunto:
– Aonde eu entro?
Onde eu entro?

Um eco cavo cavernoso retruca:
– No entreato
No entreato
No entreato



SALOMÃO, Waly. "Fallax opus". In:_____. Poesia total. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

1.8.15

Leandro Jardim: "Indisfarce"





Indisfarce

Não me ilumina a ideia
de falar apenas
aos poucos doutos,

nem me inebria o fardo
do entendimento pleno
que se precisa raso.

Sigo cambaleante
o equilíbrio errante
do que é profundo e claro,

como o que farta aos grandes
e é a mim tão raro
– disse o aspirante.



JARDIM, Leandro. "Indisfarce". In:_____. Peomas. Rio de Janeiro: Oito e Meio, 2014.