25.7.15

Arthur Nogueira e Antonio Cicero: "Truques"




Ouçam a canção "Truques", resultado de uma parceria minha com Arthur Nogueira. Ela se encontra no novo e belo album dele, Sem medo nem esperança.











23.7.15

Mário Quintana: "As covas"





As covas

O bicho,
quando quer fugir dos outros,
faz um buraco na terra.

O homem,
para fugir de si,
fez um buraco no céu.



QUINTANA, Mário. "As covas". In:_____. Nova antologia poética. Rio de Janeiro: Codecri, 1981.

20.7.15

Carlos Drummond de Andrade: "Ontem"





Ontem

Até hoje perplexo
ante o que murchou
e não eram pétalas.

De como este banco
não reteve forma,
cor ou lembrança.

Nem esta árvore
balança o galho
que balançava.

Tudo foi breve
e definitivo.
Eis está gravado

não no ar, em mim,
que por minha vez,
escrevo, dissipo.



ANDRADE, Carlos Drummond de. "Ontem". In:_____. A rosa do povo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

18.7.15

Adriano Espínola: "Atento"





Atento

Todos os dias,
batalho silenciosamente.

Ao respirar, busco ser o vento.
Ao caminhar, sou o caminho.
Ao sonhar, engendro o sonho do sonho,
delirante e consciente.
Ao pensar, penso o pensamento
e devagar o componho.
Ao realizá-lo, sou a realidade,
simplesmente.

Não há outra verdade
senão a que invento.




ESPÍNOLA, Adriano. "Lixeira". In:_____. "Praia provisória". In:_____. Escritos ao sol. Antologia. Rio de Janeiro: Record, 2015.

15.7.15

Gastão Cruz: "Chegada"




Chegada

Parece-me irreal que tenhas vindo,
quase irreconhecível: onde estava
o impossível
eco de vida, íngreme, o passado
tornado mais passado?

Parece-me real que tenhas ido
ser outro ser, distante desta praia
Reconheci-te?
A lua minguante
de agosto iluminou tua chegada.



CRUZ, Gastão. "Chegada". In:_____. Escarpas. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010.

13.7.15

Charles Baudelaire: "Elévation" / "Elevação": trad. de Ivan Junqueira





Elevação

Por sobre os pantanais, os vales orvalhados,
As montanhas, os bosques, as nuvens, os mares,
Para além do ígneo sol e do éter que há nos ares,
Para além dos confins dos tetos estrelados,

Flutuas, meu espírito, ágil peregrino,
E, como um nadador que nas águas afunda,
Sulcas alegremente a imensidão profunda
Com um lascivo e fluido gozo masculino.

Vai mais, vai mais além do lodo repelente,
Vai te purificar onde o ar se faz mais fino,
E bebe, qual licor translúcido e divino,
O puro fogo que enche o espaço transparente.

Depois do tédio e dos desgostos e das penas
Que gravam com seu peso a vida dolorosa,
Feliz daquele a quem uma asa vigorosa
Pode lançar às várzeas claras e serenas;

Aquele que, ao pensar, qual pássaro veloz,
De manhã rumo aos céus liberto se distende,
Que paira sobre a vida e sem esforço entende
A linguagem da flor e das coisas sem voz!




Elévation

Au-dessus des étangs, au-dessus des vallées,
Des montagnes, des bois, des nuages, des mers,
Par delà le soleil, par delà les éthers,
Par delà les confins des sphères étoilées,

Mon esprit, tu te meus avec agilité,
Et, comme un bon nageur qui se pâme dans l'onde,
Tu sillonnes gaiement l'immensité profonde
Avec une indicible et mâle volupté.

Envole-toi bien loin de ces miasmes morbides;
Va te purifier dans l'air supérieur,
Et bois, comme une pure et divine liqueur,
Le feu clair qui remplit les espaces limpides.

Derrière les ennuis et les vastes chagrins
Qui chargent de leur poids l'existence brumeuse,
Heureux celui qui peut d'une aile vigoureuse
S'élancer vers les champs lumineux et sereins;

Celui dont les pensers, comme des alouettes,
Vers les cieux le matin prennent un libre essor,
- Qui plane sur la vie, et comprend sans effort
Le langage des fleurs et des choses muettes!




BAUDELAIRE, Charles. "Elévation". In:_____. As flores do mal. Trad. de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

11.7.15

Geraldo Carneiro: "A semântica das rosas"





A semântica das rosas

o signo rosa significa a rosa
a rosa em si mora no mundo
e é no fundo a flor da metaflora
que só floresce nos jardins suspensos de Platão

(assim, se não se sabe se uma pena
é uma pena ou é uma pena
também nunca se sabe se uma rosa
é uma rosa ou é somente a insígnia
o enigma ou a senha ou a metáfora
significando alguma outra rosa)

em suma, cada signo é uma ponte
entre a palavra, seu império
e cada rosa sempre indecifrada
em seu mistério



CARNEIRO, Geraldo. "A semântica das rosas". In:_____. novo panglossário. In:_____. lira dos cinquent'anos (1996-2002). In:_____. Poemas reunidos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira: Fundação Biblioteca Nacional, 2010.