13.4.15
Frederico Barbosa: "As cidades e seus donos"
As cidades e seus donos
há cidades desconfiadas
impessoais misteriosas
recife são paulo
em que se mora por empréstimo
de aluguel de passagem
sem se sentir dono
como inquilino temporário
mas que ninguém tem
há cidades que por mistério
se entregam por inteiro
salvador rio de janeiro
em que cada morador
é proprietário verdadeiro
em que todo o povo
sente-se e afirma-se dono
em todo gesto no menor jeito
BARBOSA, Frederico. "As cidades e seus donos". In:_____. Na lata. Poesia reunida 1978-2013. São Paulo: Iluminuras, 2013.
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Poema
11.4.15
Djalal ad-Din Rumi: "Sentados no palácio duas figuras" / trad. de Marco Luccesi
Djalal ad-Din Rumi
Sentados no palácio duas figuras,
são dois seres, uma alma, tu e eu.
Um canto radioso move os pássaros
quando entramos no jardim, tu e eu!
Os astros já não dançam e contemplam
a lua que formamos, tu e eu!
Entrelaçados no amor, sem tu nem eu,
livres de palavras vãs, tu e eu!
Bebem as aves do céu a água doce
de nosso amor, e rimos tu e eu!
Estranha maravilha estarmos juntos:
estou no Iraque e estás no Khorasan.
RUMI, Djalal ad-Din. "Sentados no palácio duas figuras". Trad. de Marco Lucchesi. In: LUCCHESI, Marco. Poemas reunidos. Rio de Janeiro: Record, 2000.
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8.4.15
Jorge Carrera Andrade: "Morada terrestre": trad. Manuel Bandeira
Morada terrestre
Habito um castelo de cartas,
Uma casa de areia, um edifício no ar,
E passo os minutos esperando
O desmoronamento do muro, a chegada do raio,
O correio celeste com a última notícia,
A sentença que voa numa vespa,
A ordem como um látego de sangue
Dispersando ao vento uma cinza de anjos.
Então perderei minha morada terrestre
E me encontrarei nu novamente.
Os peixes, os astros,
Remontarão o curso de seus céus inversos.
Tudo que é cor, pássaro ou nome,
Volverá a ser apenas um punhado de noite,
E sobre os despojos de cifras e plumas
E o corpo do amor, feito de fruta e música,
Baixará por fim, como o sonho ou a sombra,
O pó sem memória.
ANDRADE, Jorge Carrera. "Morada terrestre". Trad. de Manuel Bandeira. In: BANDEIRA, Manuel. "Poemas traduzidos". In:_____. Estrela da vida inteira.Rio de Janeiro: José Olympio, 1966.
Morada terrestre
Habito un edificio de naipes,
Una casa de arena, un castillo en el aire
Y paso los minutos esperando
El derrumbe del muro, la llegada del rayo,
El correo celeste con la final noticia,
La sentencia que vuela en una avispa,
La orden como un látigo de sangre
Dispersando en el viento una ceniza de ángeles.
Entonces perderé mi morada terrestre
Y me hallaré desnudo nuevamente.
Los peces, los luceros
Remontarán el curso de sus inversos cielos.
Todo lo que es color, pájaro o nombre
Volverá a ser apenas un puñado de noche,
Y sobre los despojos de cifras y de plumas
Y el cuerpo del amor, hecho de fruta y música,
Descenderá por fin, como el sueño o la sombra,
El polvo sin memoria.
ANDRADE, Jorge Carrera. "Morada terrestre". In:_____. Antologia de la poesia cosmica de Jorge Carrera Andrade. Org. de Fredo Arias de la Canal. México: Frente de Armación Hispanista, 2003.
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Poema
6.4.15
Arthur Rimbaud: "Chanson de la plus haute tour" / "Canção da torre mais alta": trad. de Claudio Daniel
Canção da torre mais alta
Ociosa juventude
De tudo pervertida
Por minha virtude
Eu perdi a vida.
Ah! Que venha a hora
Que as almas enamora.
Eu disse a mim: cessa,
Que eu não te veja:
Nenhuma promessa
De rara beleza.
E vá sem martírio
Ao doce exílio.
Foi tão longa a espera
Que eu não olvido.
O terror, fera,
Aos céus dedico.
E uma sede estranha
Corrói-me as entranhas.
Assim os Prados
Vastos, floridos
De mirra e nardo
Vão esquecidos
Na viagem tosca
De cem feias moscas.
Ah! A viuvagem
Sem quem as ame
Só têm a imagem
Da Notre-Dame!
Será a prece pia
À Virgem Maria?
Ociosa juventude
De tudo pervertida
Por minha virtude
Eu perdi a vida.
Ah! Que venha a hora
Que as almas enamora!
Trad. de Claudio Daniel
Chanson de la plus haute tour
Oisive jeunesse
À tout asservie,
Par délicatesse
J'ai perdu ma vie.
Ah! que le temps vienne
Où les cœurs s'éprennent.
Je me suis dit : laisse,
Et qu'on ne te voie :
Et sans la promesse
De plus hautes joies.
Que rien ne t'arrête
Auguste retraite.
J'ai tant fait patience
Qu'à jamais j'oublie;
Craintes et souffrances
Aux cieux sont parties.
Et la soif malsaine
Obscurcit mes veines.
Ainsi la Prairie
À l'oubli livrée,
Grandie, et fleurie
D'encens et d'ivraies,
Au bourdon farouche
De cent sales mouches.
Ah! Mille veuvages
De la si pauvre âme
Qui n'a que l'image
De la Notre-Dame!
Est-ce que l'on prie
La Vierge Marie ?
Oisive jeunesse
À tout asservie,
Par délicatesse
J'ai perdu ma vie.
Ah! que le temps vienne
Où les cœurs s'éprennent.
RIMBAUD, Arthur. "Chanson de la plus haute tour". In: RIMBAUD, Arthur; CROS, Charles; CORBIÈRE, Tristan; LAUTRÉAMONT. Oeuvres poétiques complètes. Paris: Robert Laffont, 1980.
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Poema
4.4.15
Luis Cernuda: "Ofrenda" / "Oferenda": trad. Antonio Cicero
Ofrenda
Para que los dioses te fueran
Propicios, más de una guirnalda,
Romero, mirto, mejorana,
Les has tejido en primavera.
Cuando el invierno venga, ¿dónde
Tu mano ha de encontrar las hojas,
Tus ojos una luz sin sombras,
Tu amor su forma en cuerpo joven?
Esa pobreza es grata al cielo:
Deja a los dioses en ofrenda,
Tal grano vivo que se siembra,
La desnudez de tu deseo.
Para que os deuses te fossem
propícios, mais de uma grinalda,
alecrim, mirto, manjerona,
teceste-lhes na primavera.
Quando o inverno chegar, onde
tua mão encontrará as folhas,
teus olhos uma luz sem sombras,
teu amor sua forma em corpo jovem?
Essa pobreza é grata ao céu:
Deixa aos deuses em oferenda,
qual grão vivo e semeado,
a desnudez de teu desejo.
CERNUDA, Luis. "Ofrenda". In:_____. "Como quien espera el alba". In:_____. Poesía completa. Vol. I. Madrid: Siruela, 1993.
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Poema
2.4.15
Cecília Meireles: "Realização da vida"
Realização da vida
Não me peças que cante,
pois ando longe,
pois ando agora
muito esquecida.
Vou mirando no bosque
o arroio claro
e a provisória
flor escondida.
E procuro minha alma
e o corpo, mesmo,
e a voz outrora
em mim sentida.
E me vejo somente
pequena sombra
sem tempo e nome,
nisto perdida,
– nisto que se buscara
pelas estrelas,
com febre e lágrimas,
e que era a vida.
MEIRELES, Cecília. "Realização da vida". In:_____. "Mar absoluto". In:_____. Obra poética. Rio de Janeiro: Aguilar, 1967.
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Poema
1.4.15
Antonio Cicero lê o poema "Na curva deste minuto", de Eucanaã Ferraz
No seguinte vídeo, leio o poema "Na curva deste minuto", de Eucanaã Ferraz. O poema se encontra no novo livro de Eucanaã, intitulado Escuta. Publicado pela Companhia das Letras, ele será lançado na quinta-feira, dia 16, às 19h, na Livraria da Travessa de Ipanema.
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