12.1.15

Sophia de Mello Breyner Andresen: "As três Parcas"




As três Parcas

As três Parcas que tecem os errados
Caminhos onde a rir atraiçoamos
O puro tempo onde jamais chegamos
As três Parcas conhecem os maus fados.

Por nós elas esperam nos trocados
Caminhos onde cegos nos trocamos
Por alguém que não somos nem amamos
Mas que presos nos leva e dominados.

E nunca mais o doce vento aéreo
Nos levará ao mundo desejado
E nunca mais o rosto do mistério

Será o nosso rosto conquistado
Nem nos darão os deuses o império
Que à nossa espera tinham inventado.



ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "As três Parcas". In:_____. BERARDINELLI, Cleonice. Cinco séculos de sonetos portugueses. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.

A imprensa face ao terrorismo




Ontem, na Alemanha, terroristas atearam fogo a um jornal que havia republicado as charges que os assassinos da equipe do Charlie Hebdo haviam considerado ofensivas.

Proponho que toda imprensa de todo país democrático adote, de maneira geral, a seguinte atitude: cada vez que uma matéria publicada por um periódico seja usada como pretexto para um ataque terrorista, todos os veículos da imprensa republiquem-na com destaque.

Com isso, os ataques terroristas à imprensa serão equivalentes a tiros pela culatra.



10.1.15

Antero de Quental: "Nirvana"




Nirvana

Para além do Universo luminoso,
Cheio de formas, de rumor, de lida,
De forças, de desejos e de vida,
Abre-se como um vácuo tenebroso.

A onda desse mar tumultuoso
Vem ali expirar, esmaecida...
Numa imobilidade indefinida
Termina ali o ser, inerte, ocioso...

E quando o pensamento, assim absorto,
Emerge a custo desse mundo morto
E torna a olhar as coisas naturais,

À bela luz da vida, ampla, infinita,
Só vê com tédio, em tudo quanto fita,
A ilusão e o vazio universais.



QUENTAL, Antero de. "Nirvana". In:_____. Sonetos. Organização de António Sérgio. Lisboa: Sá da Costa, 1962.

8.1.15

Salman Rushdie sobre o ataque à Charlie Hebdo




"A religião, que é uma forma medieval de irracionalidade, quando se combina com armamentos modernos, torna-se uma ameaça real às nossas liberdades. O totalitarismo religioso tem causado uma mutação mortal no coração do Islã. Vimos as consequências trágicas disso hoje em Paris. Estou com Charlie Hebdo, como todos nós devemos estar, para defender a arte da sátira, que sempre foi uma força pela liberdade e contra a tirania, a desonestidade e a burrice. O “respeito pela religião” tornou-se um chavão que significa “medo da religião”. As religiões, como todas as outras ideias, merecem crítica, sátira e, sim, nossa destemida falta de respeito."



RUSHDIE, Salman. Declaração ao Wall Street Journal. 07/01/2015.

6.1.15

Friedrich Hölderlin: "Lebenslauf" / "Curso da vida": trad. Paulo Quintela




Curso da Vida

Coisas maiores querias tu também, mas o amor
A todos vence, a dor curva ainda mais,
E não é em vão que o nosso círculo
Volta ao ponto donde veio!

Para cima ou para baixo! Não sopra em noite sagrada,
Onde a Natureza muda medita dias futuros,
Não domina no Orco mais torto
Um direito, uma justiça também?

Foi isso que aprendi. Pois nunca, como os mestres mortais,
Vós, ó celestiais, ó deuses que tudo mantendes,
Que eu saiba, nunca com cuidado
Me guiastes por caminho plano.

Tudo experimente o homem, dizem os deuses,
Que ele, alimentado com forte mantença, aprenda a ser grato por
                                                                                   [tudo,    
E compreenda a liberdade
De partir para onde queira.




Lebenslauf

Größers wolltest auch du, aber die Liebe zwingt
All uns nieder, das Leid beuget gewaltiger,
Doch es kehret umsonst nicht
Unser Bogen, woher er kommt.

Aufwärts oder hinab! herrschet in heilger Nacht,
Wo die stumme Natur werdende Tage sinnt,
Herrscht im schiefesten Orkus
Nicht ein Grades, ein Recht noch auch ?

Dies erfuhr ich. Denn nie, sterblichen Meistern gleich,
Habt ihr Himmlischen, ihr Alleserhaltenden,
Daß ich wüßte, mit Vorsicht
Mich des ebenen Pfades geführt.

Alles prüfe der Mensch, sagen die Himmlischen,
Daß er, kräftig genährt, danken für Alles lern,
Und verstehe die Freiheit,
Aufzubrechen, wohin er will.




HÖLDERLIN, Friedrich. "Lebenslauf" / "Curso da vida". In:_____. Poemas. Seleção e tradução de Paulo Quintela. Coimbra: Atlândida, 1959. 

4.1.15

Rainer Maria Rilke: "Eingang" / "Entrada": trad. Augusto de Campos




Entrada

Quem quer que você seja: quando a noite vem,
saia do quarto, que você conhece bem;
seu último reduto antes do além:
quem quer que seja o quem.
Com os seus olhos que, de cansaço,
mal conseguem se erguer do pó,
levante, lento, a árvore negra do espaço
e a ponha contra o céu: esguia, só.
E você fez o mundo. E ele é grande
como a palavra que o silêncio expande.
E quando o seu sentido lhe penetre a mente,
que os seus olhos o levem suavemente...



Eingang

Wer du auch seist: am Abend tritt hinaus 
aus deiner Stube, drin du alles weißt; 
als letztes vor der Ferne liegt dein Haus: 
wer du auch seist. 
Mit deinen Augen, welche müde kaum 
von der verbrauchten Schwelle sich befrein, 
hebst du ganz langsam einen schwarzen Baum 
und stellst ihn vor den Himmel: schlank, allein. 
Und hast die Welt gemacht. Und sie ist groß 
und wie ein Wort, das noch im Schweigen reift. 
Und wie dein Wille ihren Sinn begreift, 
lassen sie deine Augen zärtlich los... 



RILKE, Rainer Maria. "Eingang" / "Entrada". Trad. Augusto de Campos. In: CAMPOS, Augusto de. Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013.

2.1.15

Stendhal: sobre Deus





A única desculpa de Deus é que ele não existe.



Cit. por:
NIETZSCHE, Friedrich. "Warum ich so klug bin". In:_____. Ecce homo. Wie man wird, was man ist. In:_____. Studienausgabe, Bd.4. Frankfurt am Main: Fischer, 1968.