14.11.14

Friedrich Nietzsche: a vantagem do politeísmo sobre o monoteísmo




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[...]
No politeísmo estava prefigurada a liberdade humana e variedade de pensamento: a força de criar para si olhos novos e seus, sempre novos e cada vez mais seus; de modo que somente para o homem, entre todos os animais, não existem horizontes e perspectivas eternas.


NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. Trad., notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.


12.11.14

Adriano Nunes: "Prova"




"Prova" - para Antonio Cicero

Suponho que saberia
Apenas isso: que isso
Ser pode aquilo e
Que aquilo pode ser isso

Quando convir
Ou for preciso.
Logo te digo:
O que sei é que é possível

Tudo no infindo
Espaço da poesia.
Não vês os dragões azuis saindo
Do decassílabo,

Enfeitado de resquícios
De versos de Horácio e Ovídio,
Porque amas os seus ritmos,
Não vês grãs tigres

Saltando, já, sobre as rimas
Toantes que construí
Só para ti?
Não vês libélulas lindas

Levando-te, com capricho
E amor, num rito,
Sóis, crisântemos e lírios,
Nas maiores redondilhas?

Sim, acredita,
Na quadra finda
Em quatro sílabas
Bem cabe a vida.



NUNES, Adriano. In: http://astripasdoverso.blogspot.com.br/2014/11/adriano-nunes-prova-para-antonio-cicero.html

10.11.14

9.11.14

Paul Valéry. Sobre o Discurso do método, de Descartes




O que é então que leio no Discurso do método?


Não são os próprios princípios que nos podem reter por muito tempo. O que chama minha atenção, desde a encantadora narrativa de sua vida e das circunstâncias iniciais de sua pesquisa, é a presença dele mesmo nesse prelúdio de uma filosofia. É, pode dizer-se, o emprego do eu e do mim numa obra dessa espécie, e o som da voz humana; e é isso, talvez, que se opõe mais nitidamente à arquitetura escolástica. O eu e o mim devendo introduzir-nos a maneiras de pensar inteiramente genéricas, eis o meu Descartes. 




VALÉRY, Paul. "Descartes". In:_____. "Variété". In:_____. Oeuvres I. Paris: Gallimard, 1957.

5.11.14

Lançamento de Poesia em pauta




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Giuseppe Ungaretti: "Il porto sepolto" / "O porto sepulto": trad. Geraldo Holanda Cavalcanti




O porto sepulto
                           Mariano, 29 de julho de 1916

Ali chega o poeta
e depois regressa à luz com seus cantos
e os dispersa

Desta poesia
me sobra
aquele nada
de inesgotável segredo




Il porto sepolto
                         Mariano il 29 giugno 1916  

Vi arriva il poeta
e poi torna alla luce con i suoi canti
e li disperde

Di questa poesia
mi resta
quel nulla
d'inesauribile segreto



UNGARETTI, Giuseppe. A alegria. Edição bilingue. Trad. e notas de Geraldo Holanda Cavalcanti. Rio de Janeiro: Record, 2003.

2.11.14

Vinícius de Moraes: "O poeta Hart Crane suicida-se no mar"




O poeta Hart Crane suicida-se no mar

Quando mergulhaste na água
Não sentiste como é fria
Como é fria assim na noite
Como é fria, como é fria?
E ao teu medo que por certo
Te acordou da nostalgia
(Essa incrível nostalgia
Dos que vivem no deserto...)
Que te disse a Poesia?

Que te disse a Poesia
Quando Vênus que luzia
No céu tão perto (tão longe
Da tua melancolia...)
Brilhou na tua agonia
De moribundo desperto?

Que te disse a Poesia
Sobre o líquido deserto
Ante o mar boquiaberto
Incerto se te engolia
Ou ao navio a rumo certo
Que na noite se escondia?

Temeste a morte, poeta?
Temeste a escarpa sombria
Que sob a tua agonia
Descia sem rumo certo?
Como sentiste o deserto
O deserto absoluto
O oceano absoluto
Imenso, sozinho, aberto?

Que te falou o Universo
O infinito a descoberto?
Que te disse o amor incerto
Das ondas na ventania?
Que frouxos de zombaria
Não ouviste, ainda desperto
Às estrelas que por certo
Cochichavam luz macia?

Sentiste angústia, poeta
Ou um espasmo de alegria
Ao sentires que bulia
Um peixe nadando perto?
A tua carne não fremia
À ideia da dança inerte
Que teu corpo dançaria
No pélago submerso?

Dançaste muito, poeta
Entre os véus da água sombria
Coberto pela redoma
Da grande noite vazia?
Que coisas viste, poeta?

De que segredos soubeste
Suspenso na crista agreste
Do imenso abismo sem meta?
Dançaste muito, poeta?
Que te disse a Poesia?


MORAES, Vinícius. Nova antologia poética. Seleção e org. Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.