12.6.14
Eugénio de Andrade: "É assim, a música"
É assim, a música
A música é assim: pergunta,
insiste na demorada interrogação
– sobre o amor?, o mundo?, a vida?
Não sabemos, e nunca
nunca o saberemos.
Como se nada dissesse vai
afinal dizendo tudo.
Assim: fluindo, ardendo até ser
fulguração – por fim
o branco silêncio do deserto.
Antes porém, como sílaba trémula,
volta a romper, ferir,
acariciar a mais longínqua das estrelas.
ANDRADE, Eugénio de. "Os lugares do lume". In:_____. Poemas de Eugénio de Andrade. Seleção, estudo e notas de Arnaldo Saraiva.
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Poema
9.6.14
Rainer Maria Rilke: "Der König" / "O rei": trad. Augusto de Campos
O Rei
O rei tem só dezesseis anos e
já é o Estado.
Como de uma emboscada, vê,
por entre os velhos do Senado,
a sala, de olhos fitos muito além,
e talvez sinta apenas o frio
do colar de ouro que mantém
sob o queixo longo, duro e esguio.
A sentença de morte à sua frente
há longo tempo aguarda sem
seu nome. Pensam: "Como se tortura..."
Mal sabem que ele simplesmente
conta, devagar, até cem
antes de apor a assinatura.
Der König
Der König ist sechzehn Jahre alt.
Sechzehn Jahre und schon der Staat.
Er schaut, wie aus einem Hinterhalt,
vorbei an den Greisen vom Rat
in den Saal hinein und irgendwohin
und fühlt vielleicht nur dies:
an dem schmalen langen harten Kinn
die kalte Kette vom Vlies.
Das Todesurteil vor ihm bleibt
lang ohne Namenszug.
Und sie denken: wie er sich quält.
Sie wüßten, kennten sie ihn genug,
daß er nur langsam bis siebzig zählt
eh er es unterschreibt.
RILKE, Rainer Maria. In: CAMPOS, Augusto de. "Neue Gedichte - I" / "Novos poemas - I". Trad. Augusto de Campos. In:_____. Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013.
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7.6.14
Ferreira Gullar: "A farsa das galerias e a ditadura dos curadores"
Essa gratuidade da arte contemporânea se reflete ainda, por exemplo, numa obra como aquela levada para uma galeria onde o cara pega um cachorro, amarra numa coleira, deixa ele preso numa gaiola durante dias sem dar comida nem água, e o cachorro então morre. Aí o cara vai lá e escreve numa placa: arte perecível. Agora, se ele faz isso no quintal da casa dele, não é arte. Mas na galeria é arte. Quer dizer: o que transforma a obra dele é a instituição. Que vanguarda é essa que precisa da instituição? Vê como é tudo uma besteirada? Uma farsa? Uma bobagem? Essa postura da arte contemporânea não leva a lugar nenhum.
GULLAR, Ferreira. In: "Um alquimista chamado Ferreira Gullar. Entrevista a João Pombo Barile". In: Suplemento. Belo Horizonte: Secretaria de Estado de Cultura, março/abril 2014.
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6.6.14
Manuel Bandeira: "Poema só para Jaime Ovalle"
Poema só para Jaime Ovalle
Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.
BANDEIRA, Manuel. "Belo belo". In:_____. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.
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Poema
3.6.14
Zizi Possi canta "Alma caiada", de Marina Lima e Antonio Cicero
Muita gente me pergunta qual foi a primeira letra de canção que fiz. Bem, era um poema, guardado na gaveta, que Marina musicou. Chama-se "Alma caiada". Maria Bethania chegou a gravá-la, mas ela foi censurada pela ditadura. Depois, Zizi Possi a gravou lindamente. Ei-la:
Aprendi desde
criança
que é melhor
me calar
e dançar
conforme a dança
do que jamais
ousar
mas às vezes
pressinto
que não me
enquadro na lei:
minto sobre o
que sinto
e esqueço
tudo o que sei.
Só comigo
ouso lutar:
sem me poder
vencer,
tento afogar
no mar
o fogo em que
quero arder.
De dia caio
minh’alma.
Só à noite
caio em mim:
por isso me
falta calma
e vivo
inquieto assim.
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Zizi Possi
31.5.14
Angela Melim: "tem um lance de lua no neon"
tem um lance de lua
no neon, a lua é fria
a mulher ri
agulha
o salto da sandália devagar
mergulha - de verniz, cintila - e voa
fura
todas as letras do hotel gritam no céu.
MELIM, Angela. Vale o escrito. Rio de Janeiro: edição da autora, 1981.
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Poema
29.5.14
Ivan Junqueira: "Antes que o sol se ponha"
Antes que o sol se ponha
Antes que o sol se ponha e seja tarde,
e o azul crepuscular me deite a garra,
e eu, nu, retorne à terra sem fanfarra
ou mortalha que o corpo me resguarde;
antes que murche a pétala na jarra,
e eu cale, para sempre, sem alarde,
e tudo o que me coube, por covarde,
não mais recorde a relva que se agarra
às últimas raízes da existência;
antes que eu cerre os olhos e adormeça,
e em minhas próprias células esqueça
as chamas que me arderam na consciência;
antes que a luz regresse e que amanheça,
e eu a mim mesmo já não me conheça.
JUNQUEIRA, Ivan. "A sagração dos ossos". In:_____. Poemas reunidos. Rio de Janeiro: Record, 1999.
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