14.1.11

Federico García Lorca: "Casida de la rosa" *




Casida de la rosa

La rosa
no buscaba la aurora:
casi eterna en su ramo,
buscaba otra cosa.

La rosa,
no buscaba ni ciencia ni sombra:
confín de carne y sueño,
buscaba otra cosa.

La rosa,
no buscaba la rosa.
Inmóvil por el cielo
buscaba otra cosa.



Casida da rosa

A rosa
não buscava a aurora:
quase eterna em seu ramo,
buscava outra coisa

A rosa
não buscava nem ciência nem sombra:
confim de carne e sonho,
buscava outra coisa.

A rosa
não buscava a rosa.
Imóvel pelo céu
buscava outra coisa.



LORCA, Federico García. Casidas Madrid: Ediciones de Arte y Bibliofilia, 1969.


* "Casida" é o nome de uma forma poética árabe.

12.1.11

Cassiano Ricardo: "Em voz alta"




Em voz alta

Eu quis contar o meu maior segredo
sem encontrar ninguém que mo escutasse.
Pois ninguém quer ouvir a dor alheia.
O mundo é sempre mau : Voltou-me a face.

Chegue-me o bem que espero tarde ou cedo,
que me adianta gritar, se o céu é mudo?
se o segrédo que guardo no meu peito
por mais que eu grite fica sempre oculto?

Em vão falo em voz alta, subo a uma árvore,
quando tento contar o meu segredo.
Mal secreto como este nunca houve.

Maior não é o segrédo inconfessável,
mas o que fica em nós como um rochedo.
E quanto mais gritado menos se ouve.



RICARDO, Cassiano. In: CAMPOS, Paulo Mendes. Forma e expressão do soneto (org.) Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1952.

9.1.11

Rainer Maria Rilke: "Was wirst du tun, Gott..." / "Deus, que será de ti...": trad. José Paulo Paes



Rafael Martins observou um paralelo entre o poema do José Luis Hidalgo e o seguinte poema de Rilke:


Deus, que será de ti...

Deus, que será de ti, quando eu morrer?
Eu sou teu cântaro (e se me romper?)
A tua água (e se me corromper?)
Sou teu agasalho, sou teu afazer.
Vai comigo o significado teu.

Não tens mais sem mim aquela casa, Deus,
que com quentes palavras te acolhia.
Perdem teus pés exaustos as macias
sandálias: também elas eram eu.

De ti desprende-se o teu longo manto.
O teu olhar, que a minha face, quente
coxim acolhe, virá entrementes,
virá procurar-me longamente
e deitar-se depois, ao sol poente,
entre pedras estranhas, nalgum canto.

Deus, que será de ti? Tenho medo, tanto...


Was wirst du tun,Gott...

Was wirst du tun, Gott, wenn ich sterbe?
Ich bin dein Krug (wenn ich zerscherbe?)
Ich bin dein Trank (wenn ich verderbe?)
Bin dein Gewand und dein Gewerbe
mit mir verlierst du deinen Sinn.

Nach mir hast du kein Haus, darin
dich Worte, nah und warm, begrüßen.
Es fällt von deinen müden Füßen
die Samtsandale, die ich bin.

Dein großer Mantel läßt dich los.
Dein Blick, den ich mit meiner Wange
warm, wie mit einem Pfühl, empfange,
wird kommen, wird mich suchen, lange -
und legt beim Sonnenuntergange
sich fremden Steinen in den Schoß.

Was wirst du tun, Gott? Ich bin bange.



RILKE, Rainer Maria. "De O livro das horas". Poemas. Tradução e introdução de José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

7.1.11

José Luis Hidalgo: "Si supiera, Señor..." / "Se soubesse, Senhor..."




Si supiera, Señor...

Si supiera, Señor, que Tú me esperas,
en el borde implacable de la muerte,
iría hacia tu luz, como una lanza
que atraviesa la noche y nunca vuelve.

Pero sé que no estás, que el vivir sólo
es soñar con tu ser, inútilmente,
y sé que cuando muera es que Tú mismo
será lo que habrá muerto con mi muerte.



Se soubesse, Senhor...

Se soubesse, Senhor, que Tu me esperas
na borda implacável da morte,
iria a tua luz, como uma lança
que atravessa a noite e nunca volta.

Porém sei que não estás, que viver só
é sonhar com teu ser, inutilmente,
e sei que, quando eu morra, é que Tu mesmo
Terás morrido com a minha morte.



HIDALGO, José Luis. In: RODRIGUEZ, M.D. y TABOADA, M.P.D. (orgs.) Antologia de la poesía española del siglo XX. Madrid: Istmo, 1991.

6.1.11

Entrevista ao blog do "Poemas no Ônibus"




Recentemente dei uma entrevista para o blog dos "Poemas no Ônibus", que é um bem-sucedido projeto da Prefeitura de Porto Alegre. O endereço é: http://www.poemasnoonibus.blogspot.com/

4.1.11

Paul Celan: "Leuchten" / "Cintilar": trad. de João Barrento




Cintilar

De corpo silencioso
estás junto a mim na areia,
superestrelada.

...............................


Quebrou-se algum raio
para chegar até mim?
Ou foi o bastão
que sobre nós quebraram
que vejo cintilar?




Leuchten

Schweigenden Leibes
liegst du im Sand neben mir,
Übersternte.

................................


Brach sich ein Strahl
herüber zu mir?
Oder war es der Stab,
den man brach über uns,
der so leuchtet?





CELAN, Paul. "Von Schwelle zu Schwelle". Sete rosas mais tarde. Antologia poética. Seleção, tradução e introdução de João Barrent e Y.K. Centeno. Lisboa: Cotovia, 1996.

2.1.11

Jorge Salomão: "osso / ofício"




osso / oficio

na noite escuridão,
escrevo.
silencio,
nenhum sinal,
nada.
amanhecendo,
um corpo escreve
os sonhos


jorge salomão rio 2011