13.11.10

Paulo Henriques Britto: "Súcubo"




SÚCUBO

A lucidez de certos sonhos
que nem parecem ser reais,
tal como faz a realidade.

Entra-se neles de repente,
não no começo, sem saber
de onde se vem e aonde se vai,

e pouco a pouco dá-se conta
de que há um sentido nisso tudo,
só que não está ao nosso alcance,

e quando menos se imagina
tudo termina de repente,
tal como faz a realidade.




BRITTO, Paulo Henriques. Macau. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

11.11.10

Geraldo Carneiro: "a outra voz"




a outra voz


não adianta, nada neste mundo

pertence a ti, nem essa ínfima parte

que te compete recifrar em arte.

só é teu o circo das desilusões,

o canto das sereias, o naufrágio

no qual perdeu-se a vida, o rumo, a nave,

a memória da ilha em que viveste

o ato inaugural da tua odisséia.

Penélope esgarçou-se em muitas faces,

e mesmo a guerra, com seus alaridos,

só sobrevive nas versões dos bardos.

não há mais ilha, nem há mais princípio:

teu principado é só imaginário.

 
 
CARNEIRO, Geraldo. "Balada do impostor". Poemas reunidos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

9.11.10

Ricardo Silvestrin: "não quero mais de um poeta"

Li o seguinte poema de Ricardo Silvestrin no excelente livro que Antonio Carlos Secchin acaba de lançar, Memórias de um leitor de poesia, e não pude deixar de pescá-lo para os leitores deste blog:




não quero mais de um poeta

que a sua letra

palavra presa na página

borboleta

nem quero saber da sua vida

da verdade que nunca foi dita

mesmo por ele

que tudo que viveu duvida

não revirem a sua cova

o seu arquivo

é no seu livro que o poeta está enterrado

vivo.




SILVESTRIN, Ricardo. "não quero mais de um poeta". Palavra mágica. Porto Alegre: Massao Ohno, 1994.

SECCHIN, Antonio Carlos. Memórias de um leitor de poesia. Rio de Janeiro: Topbooks, 2010.

8.11.10

Bill Maher: "Religião não causa mal nenhum"




Na semana passada assisti, na HBO, a um programa engraçadíssimo e inteligente do comediante Bill Maher. Como ontem descobri que um dos seus trechos mais engraçados se encontrava no You Tube, resolvi postá-lo aqui. Aí está:


7.11.10

Waly Salomão: "Câmara de ecos"

Câmara de ecos

Cresci sob um teto sossegado,
meu sonho era um pequenino sonho meu.
Na ciência dos cuidados fui treinado.

Agora, entre meu ser e o ser alheio
a linha de fronteira se rompeu.



SALOMÃO, Waly. Algaravias: cãmara de ecos. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.

6.11.10

Jorge Luis Borges: "Spinoza" / "Spinoza": trad. de José Marcos Mariani Macedo



Spinoza

Las traslúcidas manos del judío
Labran en la penumbra los cristales
Y la tarde que muere es miedo y frío.
(Las tardes a las tardes son iguales.)
Las manos y el espacio de jacinto
Que palidece en el confín del Ghetto
Casi no existen para el hombre quieto
Que está soñando un claro laberinto.
No lo turba la fama, ese reflejo
De sueños en el sueño de otro espejo,
Ni el temeroso amor de las doncellas.
Libre de la metáfora y del mito
Labra un arduo cristal: el infinito
Mapa de Aquel que es todas Sus estrellas.


Spinoza

As translúcidas mãos do judeu
Lavram na penumbra os cristais
E a tarde que morre é medo e frio.
(As tardes às tardes são iguais.)
As mãos e o espaço de jacinto
Que empalidece nos confins do Gueto
Quase não existem para o homem quieto
Que está sonhando um claro labirinto.
Não o perturba a fama, esse reflexo
De sonhos no sonho de outro espelho,
Nem o temeroso amor das donzelas.
Livre da metáfora e do mito
Lavra um árduo cristal: o infinito
Mapa d’ Aquele que é todas as Suas estrelas.



BORGES, Jorge Luis. "El otro, el mundo". Obras completas. Buenos Aires: Emecé Editors, 1974.

BORGES, Jorge luis. Esse ofício do verso. Traduçao de José Marcos Mariani Macedo. São Paulo: Companhia das letras, 2007.

2.11.10

Machado de Assis: "Spinoza"




Spinoza

Gosto de ver-te, grave e solitário,
Sob o fumo de esquálida candeia,
Nas mãos a ferramenta de operário,
E na cabeça a coruscante idéia.

E enquanto o pensamento delineia
Uma filosofia, o pão diário
A tua mão a labutar granjeia
E achas na independência o teu salário.

Soem cá fora agitações e lutas,
Sibile o bafo aspérrimo do inverno,
Tu trabalhas, tu pensas, e executas

Sóbrio, tranqüilo, desvelado e terno,
A lei comum, e morres, e transmutas
O suado labor no prêmio eterno.



ASSIS, Machado de. Obra completa, v.3. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1973.