29.9.10
Wilson Luques Costa: "O poeta de Ascurra"
O poeta de Ascurra
Vendeu papiros do egito nas praças
Lá vilipendiaram seu labor
Em pergaminhos fez versos/palavras
Dos óstracos se fez perguntador
Da antiga grécia veio e de estrelas mortas
Foi de seus livros um mau vendedor
Gritaram pueril louco pateta
Um vate sofredor o fazedor
Sonhos belos fez em áspero lito
Visitou deus pã baco e velhos mitos
Para que lhe viesse um lindo verso
Escrito num soneto ouro em papiro
Sonhou conhecer os faraós ciro
Cantou baladas odes e diversos
Nas ruas andou só foi grã-poeta
.
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Wilson Luques Costa
26.9.10
Ruy Belo: "Gênese e desenvolvimento do poema"
Gênese e desenvolvimento do poema
Vozes vizinhas vindas da infância
através do sotaque de quem fala aqui ao lado
o sol inexorável sobre as águas
pressentimentos vindos com o vento
a velha fortaleza a vista da baía
a maré cheia a tarde as nuvens o azul
memória disto tudo noutro verão noutro lugar
e pelo meu olhar visivelmente vitimado
tudo possível pela mesa e pela esferográfica
pelo papel desculpa ó minha amiga pelo bar
a solidão assegurada pela multidão
a luz a hora as lérias o domingo
o cruzeiro de pedra o largo o automóvel
tudo isto não importa importam só
as mínimas e únicas palavras que me ficam
                                        disto tudo
e tudo isto fixam: «tempo suspenso» ou «mar
                                        imóvel»
ou «sinto-me bem» ou – que sei eu? – «alguém
                                        morreu»
BELO, Ruy. Transporte no tempo. Introdução de Fernando Pinto Amaral. Lisboa: Editorial Presença, 1997.
21.9.10
Ferreira Gullar: "Anoitecer em outubro"
Anoitecer em outubro
A noite cai, chove manso lá fora
    meu gato dorme
            enrodilhado
                      na cadeira
Num dia qualquer
            não existirá mais
            nenhum de nós dois
para ouvir
            nesta sala
a chuva que eventualmente caia
            sobre as calçadas da rua Duvivier
FERREIRA GULLAR. Em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.
A noite cai, chove manso lá fora
    meu gato dorme
            enrodilhado
                      na cadeira
Num dia qualquer
            não existirá mais
            nenhum de nós dois
para ouvir
            nesta sala
a chuva que eventualmente caia
            sobre as calçadas da rua Duvivier
FERREIRA GULLAR. Em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.
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19.9.10
A figura do autor
O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo, no sábado, 18 de setembro.
A figura do autor
EMBORA ROLAND Barthes (1915-1980) seja um autor que tanto leio quanto admiro, manifestei, em artigo aqui publicado no mês passado, discordar da sua tese de que as figuras do autor e da originalidade fossem produtos da época moderna. Observei que elas existem desde a Antiguidade, tendo surgido com a generalização do emprego da escritura.
Vários leitores me enviaram e-mails, defendendo as proposições que eu combatera. Um comentarista anônimo formulou bem uma ideia que resolvi comentar, pois parece ser hoje compartilhada por muita gente. Segundo ele, "originalidade no sentido forte surgiu no século 18, quando os escritores começaram a ganhar dinheiro com a venda de livros. Antes o que existia era o patronato e se vivia desse dinheiro. Fora o prestígio, pouco valia insistir na autoria". Entre os exemplos de autores que pouco se importavam com a originalidade, ele citava Dante e Shakespeare.
Embora a originalidade seja sempre relativa, isso não significa que não seja importante. Se encontrarmos duas obras literárias (ou duas peças musicais) idênticas, diremos não estar diante de duas obras, mas da mesma. Etimologicamente, aliás, a palavra latina "auctor", de "augere", isto é, "aumentar", significa aquele que aumenta ou incrementa. Não é autor quem simplesmente reproduz o que já há.
Quanto à valorização da originalidade entre os antigos, basta lembrar que o filósofo Lucrécio (séc. 1 a.C.), afirmava pretender percorrer, na poesia, caminhos que ninguém trilhara antes, e concluía: "É bom ir às fontes virgens e beber, é bom colher flores desconhecidas e com elas trançar para minha fronte coroa insigne, qual nunca a ninguém puseram as Musas".
E nada é mais questionável do que a menção de Dante e Shakespeare como autores para os quais era indiferente a originalidade, uma vez que precisamente Dante foi tido como o protótipo do indivíduo criativo pelo filósofo Schelling, e precisamente Shakespeare foi considerado o gênio original por excelência por, entre outros, Diderot e Goethe.
De fato, o direito autoral surgiu com o iluminismo. É racional que, uma vez que alguém ganhe reconhecimento e/ou dinheiro com a exploração de uma obra, deva algo ao autor. Mas quem disse que o valor da autoria se reduz ao dinheiro que ela possa proporcionar? Isso é evidentemente falso. Pense-se, por exemplo, na situação dos poetas.
Todos sabem que livro de poesia não dá dinheiro. No entanto, nada seria mais absurdo do que supor que os poetas fazem menos questão de ter reconhecida a autoria das obras que escreveram do que os escritores cujas obras são capazes de render direitos autorais. Na verdade, talvez seja exatamente o contrário. "Nos domínios da criação, que são também os domínios do orgulho", como diz, com razão, Paul Valéry, "a necessidade de se distinguir é indivisível da existência mesma".
Contudo, no caso da poesia, essa distinção mesma tem um caráter distinto. Ela não se reduz à mera fama mundana. Em texto que escreveu para a reabertura do teatro de Weimar, em outubro de 1798, Schiller explica que os artistas do palco precisavam do aplauso do público porque a arte deles (ao contrário da dos poetas, que é capaz de perdurar por séculos) se extinguia junto com suas vozes e gestos. Como a posteridade não lhes teceria grinaldas (como as que costumava tecer aos poetas), eles não podiam deixar de ser ávidos do reconhecimento contemporâneo. Assim, por compaixão, o poeta Schiller pedia ao público que aplaudisse os atores.
Ao falar da perenidade da arte do poeta, Schiller podia estar pensando na obra do poeta romano Ovídio (sec. 1 d.C.), por exemplo. Este, concluindo seu grande poema “Metamorfoses”, afirmou que terminara obra “que nem a ira de Júpiter / nem o fogo ou o ferro ou a voraz velhice / abolirão. Quando chegar a minha hora / será para meu corpo apenas, encerrando / os meus dias; mas a melhor parte de mim / alçarei muito acima dos mais altos astros, / perene, e nosso nome será indelével. / Que onde quer que se abra a potência de Roma / sobre as terras dominadas eu seja lido / pelo povo, e de fama, por todos os séculos / (se os presságios dos vates valerem), eu viva”. Os presságios valeram.
A distinção que os poetas enquanto poetas almejam não se reduz, portanto, nem a ganhos materiais nem à fama mundana. O que pretendem – desde a Antiguidade – é a glória de terem sido os autores de poemas que, valendo por si por serem, como as demais obras clássicas, dotados do "eterno e irreprimível frescor" de que falava o poeta Ezra Pound, sejam indiferentes às contingências do tempo.
16.9.10
José Paulo Paes: "O aluno"
O aluno
São meus todos os versos já cantados:
A flor, a rua, as músicas da infância,
O líquido momento e os azulados
Horizontes perdidos na distância.
Intacto me revejo nos mil lados
De um só poema. Nas lâminas da estância,
Circulam as memórias e a substância
De palavras, de gestos isolados.
São meus também os líricos sapatos
De Rimbaud, e no fundo dos meus atos
Canta a doçura triste de Bandeira.
Drummond me empresta sempre o seu bigode.
Com Neruda, meu pobre verso explode
E as borboletas dançam na algibeira.
PAES, José Paulo. Poesia completa. Apresentação de Rodrigo Naves. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
14.9.10
Jaime Gil de Biedma: "Happy ending": trad. de José Bento
Happy ending
Aunque la noche, conmigo,
no la duermas ya,
sólo el azar nos dirá
si es definitivo.
Que aunque el gusto nunca más
vuelve a ser el mismo,
en la vida los olvidos
no suelen durar.
Happy ending
Bem que de noite, comigo
tu não durmas já,
só o acaso nos dirá
se é definitivo.
Que embora o gosto nunca mais
volte a ser o antigo,
nunca na vida os olvidos
costumam durar.
BIEDMA, Jaime Gil de. "Moralidades". Antologia poética. Seleção e tradução de José Bento. Lisboa: Cotovia, 2003.
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12.9.10
Bertold Brecht: "Meiner Mutter" / A minha mãe: trad. de Paulo César de Souza
A minha mãe
Quando ela acabou, foi colocada na terra
Flores nascem, borboletas esvoejam por
                                        cima...
Leve, ela não fez pressão sobre a terra
Quanta dor foi preciso para que ficasse tão
                                        leve!
Meiner Mutter
Als sie nun aus war, ließ man in Erde sie
Blumen wachsen, Falter gaukeln darüber hin...
Sie, die Leichte, drückte die Erde kaum
Wieviel Schmerz brauchte es, bis sie so leicht
                                        ward!
BRECHT, Bertold. Poemas 1913-1956. Seleção e tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Editora 34, 2000.
BRECHT, Bertold. Gesammelte Werke in 20 Bänden (8-10). Frankfurt: Suhrkamp, 1967.
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