13.3.10

António Ramos Rosa: "Quase se disse quase"




Quase se disse quase


Quase se disse quase
sobre os joelhos sob os muros
quase os dedos no murmúrio lento
quase na ferida a ferida lábio e língua

e foram dois na muralha sem cavalos
folha a folha deitados sob a sombra
e o verde crespo do sexo na boca
o esplendor obscuro entre as pernas claras

e foram um só na pedra branca
pela língua interior da terra e da folhagem




ROSA, António Ramos. As marcas no deserto. Lisboa: & Etc, 1978.

10.3.10

Evando Nascimento: "semáforo"





semáforo
(desvio)

atenção ao vão entre o trem e a plataforma
vire à direita, não dobre à esquerda
ceda a preferencial
não aceite imitações
com quantas chaves se faz uma prisão
não ultrapasse a faixa amarela
mantenha distância
proibido não fumar
saída de emergência
horários de atendimento:
este lado para cima
fechar portas
pare! siga! recue...
brigada de incêndio
um minuto de sua atenção
bancos preferenciais para idosos
caixa idem, fila ibidem
no atacado e no varejo
serviços de marmoraria e flores
queima total de estoque até o último cliente
descanse em paz na eterna saudade
aqui jazz sessão noturna livre
cessão de direitos
seção de presentes ou de cadastro
(intersessão intercessão interseção)
trânsito lento normal congestionado
pegue o atalho, marginal
ironia não vale
tomar uma única dose no desjejum
seu sistema pode estar em risco!
observe as normas de segurança
apague o extintor
a companhia anuncia
sentido único
não há saída deste aeroporto
consentido dobrar a coluna e/ou ajoelhar
se persistirem os sintomas, procure especialista
como você achar melhor
eu preferia não
modo de usar
favor não tocar
receitas no verso
artigos para pronta-entrega
mão dupla contramão “promoção”
stop! siga! diminua... pare! avance se tiver coragem
acesso reservado a pessoas estranhas ao serviço
como fazer coisas sem palavras
pisar na grama
permitido proibir
beba sem moderação
pista interrompida
dirigir-se ao guichê do lado
repare nos avisos luminosos
atar cintos e afrouxar a gravata
fumar faz (bem) (mal) à saúde
agite antes de ingerir
mercadoria adulterada
beba frio morno quente
puxe a lingüeta para abrir
pede-se urinar fora do vaso
departamento pessoal
sal a gosto
válido até segunda ordem
olá, tudo bem?
digite sua senha
ordinário, marche
animais selvagens
atendimento personalizado
embalagem anônima
privacidade garantida
data de expedição
ligar mais tarde
tente outra vez
frágil
só para contrariar
extra! extra! extra!
recorte no pontilhado
zele por sua cultura geral
tome apenas genéricos
em doses homeopáticas e/ou letais
overdose sua saúde, tenha paciência
no momento não estou em casa
perdoai-os, pai, eles sabem o que fazem
objetos encontrados, sujeitos perdidos
arquivo editar inserir formatar ajuda – socorro!
o negócio é o seguinte:
mãos para o alto
corações também
deixe sua mensagem
após o bipppp
pise no freio
já volto
câmbio!
servir numa travessa
almoço comercial
prato-feito
vide bula
sentido!
expediente externo
para seu descontrole
jogue fora do lixo
servir com champanhe
solicitar confirmação de leitura
marque com x a resposta certa
recomendado para menores de 18 anos
ame-o deixe-o esqueça
passagem liberada com restrições
lombada e quebra-mola
se dirigir não beba, se beber não escreva
preencha corretamente as informações solicitadas
você deseja: salvar como – abrir – cancelar – perder a cabeça?
declaro inaugurada a exposição
feche os olhos, agora abra, veja só
senhor fulano, compareça ao balcão da empresa
mas traga a patroa
tornei-me um ébrio
como manda o figurino
comme il faut, por favor
ligação interurbana a cobrar
consertam-se roupas e eletrodomésticos
cavalheiros (ele) / damas (ela)
masculino feminino neutro
ou vice-versa: wc
entre sem bater
código morse braille de barras
luz câmeras flash!
3, 2, 1 gravando
nenhuma mensagem nova
sorria, você está sendo filmado
na alegria e na tristeza
deitado, deitado
inspire, expire, diga bééé
rasgue o selo para leitura
assaltos adiante
perigo polícia
disque denúncia
identifique-se ou morra
disque suicídio, a vida ou seu dinheiro de volta
a bolsa ou a própria
seja bandido, seja herói
muito obrigado!
abc olp onu fmi fbi & cia – fui!
senhores passageiros, meteoro à vista
vai passando a grana
zona de turbulência
tenha uma boa noite
declive aclive
deslize para o azul, ou rosa
apresente-se à recepção
queira aguardar
como quiseres
venda a prazo até acabar o estoque
aceita-se oferta
siga as instruções
não pise na bola
deixa rolar

– faz todo sentido.
– você é muito agradável.
– eu ia dizer o mesmo a seu respeito.
– ficamos combinados.
– totalmente de acordo.
– até lá então.
– até, tchauzinho.



NASCIMENTO, Evando. Retrato desnatural. Rio de Janeiro: Record, 2008.

9.3.10

Mesa-redonda "Literatura, artes & filosofia", com Evando Nascimento, Karl Erik e Antonio Cicero





DIA 10 MARÇO
A Editora Civilização Brasileira e A Casa do Saber convidam para o lançamento do livro:
Ficção brasileira contemporânea,
de karl Erik Schöllhammer
e para a mesa-redonda
"Literatura, artes & filosofia: em torno da coleção contemporânea", com Antonio Cicero, Karl Erik Schöllhammer e Evando Nascimento


Local: LAGOA

Dia/horário:10 DE MARÇO - QUARTA-FEIRA, ÀS 18:30h

EVENTO GRATUITO: VAGAS LIMITADAS. RESERVAS PELO TELEFONE 2227-2237



7.3.10

Mind the gap




O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo, no sábado, 6 de março:



Mind the gap


NO METRÔ do Rio de Janeiro, quando o trem se aproxima de uma estação, ouve-se uma voz a anunciá-la, dizendo, por exemplo: "Próxima estação: Botafogo". De um tempo para cá, começaram a anunciar a próxima estação também em inglês, como: "Next station: Botafogo". Em português, às vezes dão outras informações, como "estação de transferência para a Gávea" etc. Em inglês, porém, só dizem o nome da estação. Por isso, recentemente fiquei surpreso quando, tendo ouvido a advertência "cuidado com o vão entre o trem e a plataforma", ouvi, em seguida: "Mind the gap".

Isso me transportou para muitos anos atrás, quando eu morava em Londres. Lembro-me de que me divertia ao ouvir essa mesma sentença em algumas estações do metrô. É que "mind the gap" quer dizer, literalmente, "atenção ao vão", "cuidado com o vão" ou "cuidado com a lacuna", e tudo isso já era sugestivo. Ademais, a palavra "mind" pode ser também usada como substantivo, significando "mente". A expressão "mind the gap" pode, portanto, ser ouvida mais ou menos como "a mente, o vão" ou “a mente, a lacuna”. E eu "viajava" um pouco com essa ambigüidade.

Naturalmente, não fui o único a perceber a graça de "mind the gap". Há pouco tempo, tomei conhecimento de que existem ao menos um filme, uma produtora de cinema, uma companhia de teatro e um romance chamados "Mind the Gap", todos inspirados na frase dita no metrô de Londres.

De todo modo, o prazer que eu sentia com a ambiguidade da sentença "mind the gap" dita no metrô era de natureza estética. Eu apreendia essa sentença à maneira de um "ready made" poético. Como se sabe, o conceito de "ready made", cunhado pelo artista plástico Marcel Duchamp, designa um objeto já existente que, deslocado do seu contexto e colocado numa exposição ou num museu, pede para ser apreciado esteticamente. É o caso do urinol que Duchamp submeteu a uma exposição.

Na verdade, a intenção do gesto de Duchamp havia sido mais a de contestar a instituição da arte do que a de revelar a possibilidade de que qualquer coisa, mesmo a mais improvável, pudesse ser objeto de fruição estética: de que esta residisse mais na atitude estética do receptor do que na própria coisa. No entanto, creio que foi desse modo que a maior parte dos artistas e críticos sempre a entenderam.

Mais próxima de celebrar a atitude estética parece-me ser a peça musical de John Cage "4'33"". Descrevo-a para o leitor que não a conheça. Trata-se de uma composição de três movimentos, composta para qualquer instrumento ou combinação de instrumentos. Os músicos entram, mas não tocam música nos instrumentos que seguram ou ante os quais se sentam. O primeiro movimento dura trinta segundos, o segundo, dois minutos e vinte e três segundos, e o terceiro, um minuto e quarenta segundos. O que os ouvintes realmente ouvem é o “silêncio” que, na verdade, consiste no som ambiente: a tosse de alguém, o ranger de uma poltrona, a respiração do ouvinte ao lado, o som distante de um avião que passa. Trata-se, portanto, de aprender a captar esteticamente, como se fosse música, o que chamamos de “silêncio” ou de “ruído”.

O fato é que assim como, nas artes plásticas, o "ready made" levou muitos artistas e críticos de arte a considerarem obsoleta a arte de pintar ou esculpir, na poesia ele levou muitos poetas e críticos literários a considerarem obsoleta a arte de fazer poemas. Entende-se: se é possível encontrar prazer estético num texto recortado do jornal, num trecho de diálogo de uma novela mexicana, numa sentença grafitada, numa frase ouvida ao léu ou na advertência do metrô, quem precisa da arte da poesia, de poemas ou de poetas?

A melhor resposta a uma pergunta dessas seria, evidentemente: "Ninguém". Não é preciso arte ou poesia. "Toda arte é perfeitamente inútil", como diz Oscar Wilde. E: "A única desculpa para fazer uma coisa inútil é admirá-la intensamente".

Mas a verdade é que, embora a celebração da atitude estética tenha sido extremamente importante, é evidente que seria uma tolice inferir que, em consequência dela, a arte se tenha tornado obsoleta. Do fato de ser possível obter prazer estético de diversas fontes não decorre que se trate do mesmo prazer, seja quantitativa, seja qualitativamente. Do fato de que se possa obter prazer estético tanto da sentença ouvida no metrô de Londres quanto do poema "Numa estação de metrô", de Ezra Pound, não decorre que ambos tenham o mesmo valor. Pensar o contrário equivaleria a supor que, do fato de que os seres humanos são capazes de se deleitar com o farfalhar das copas das árvores ao vento, de habitar cavernas e de comer frutas silvestres, devamos jogar fora a música, a arquitetura e a culinária.

6.3.10

Tavinho Paes: "Se você beber"




No bar Nova Capela, na Lapa, no Rio, o poeta Tavinho Paes dá um importante conselho aos poetas André Vallias, Luis Serguilha, Victor Paes, Márcio-André (a seu lado), este que vos fala e Edson Cruz, organizador do livro "O que é a poesia", cujo lançamento os reunira na Livraria da Travessa, no dia 25 de fevereiro:





5.3.10

Fernando Ferreira de Loanda: "Viseu revisited"




Viseu revisited


Não falo das ruas da minha infância,
nem as nomeio,
para que ignorem a pequenez do meu mundo.

Tinham, porém, fauna e flora,
as árvores davam sombra e frutos,
os homens bom-dia e os pássaros cantavam.



LOANDA, Fernando Ferriera de. Kuala Lumpur. São Paulo: Massao Ohno, 1991.

3.3.10

Mário Quintana: "Do amoroso esquecimento"




Do amoroso esquecimento

Eu agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?




QUINTANA, Mário. Espelho mágico. Porto Alegre: Editora do Globo, 1951.