15.1.10

Fernando Pessoa/Ricardo Reis: "Já sobre a fronte vã"




Já sobre a fronte vã se me acinzenta
O cabelo do jovem que perdi.
Meus olhos brilham menos,
Já não tem jus a beijos minha boca.
Se me ainda amas, por amor não ames:
Traíras-me comigo.



PESSOA, Fernando. "Ficções do interlúdio / Odes de Ricardo Reis". Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.

12.1.10

Nicolás Gómez Dávila: de "Sucesivos escolios a un texto implícito"



Quem não se sinta herdeiro até dos seus adversários intelectuais não recolhe senão parte de sua herança.

*

Nada que tenha valor se distingue do que não o tem senão pelo próprio valor.

*

Os filósofos costumam influir mais com o que parecem ter dito que com o que na verdade disseram.



DÁVILA, Nicolás Gomez. Sucesivos escolios a un texto implícito. Barcelona: Áltera, 2002.

10.1.10

As minorias que estão "por dentro"



O seguinte artigo foi publicado no sábado, 9 de janeiro, na minha coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo:


ANTONIO CICERO

As minorias que estão por dentro


NO LIVRO "AS ESTRELAS Descem à Terra", o filósofo Theodor Adorno observa que aquele que conhece a astrologia já se considera acima do homem comum, isto é, do homem que aceita acriticamente o senso comum sobre o mundo existente.

"A astrologia", diz Adorno, "à maneira de outras crenças irracionais, como o racismo, oferece um atalho, reduzindo o que é complexo a uma fórmula prática e oferecendo, simultaneamente, uma agradável gratificação: o indivíduo que se sente excluído dos privilégios educacionais pode, ainda assim, pertencer a uma minoria que está "por dentro'".

Essa descrição da astrologia aplica-se bem a inúmeras outras ideologias, religiosas e laicas. Como pretendo dizer algo tanto sobre aquelas quanto sobre estas, mas não há espaço para isso tudo numa só coluna, falarei apenas das religiosas neste artigo, deixando as laicas para o próximo.

Lembremo-nos, por exemplo, do cristianismo primitivo. Segundo seu verdadeiro fundador, o apóstolo Paulo, Deus disse: "Destruirei a sabedoria dos sábios e rejeitarei a inteligência dos inteligentes". Paulo pergunta: "Onde está o erudito? Onde está o questionador desta era? Acaso não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?" E explica, adiante: "Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus [...]. O Senhor conhece os pensamentos dos sábios e sabe como eles são fúteis". No lugar da sabedoria deste mundo, Paulo propõe a fé, que, como diz, não se baseia na sabedoria humana, mas no poder de Deus.

Com essas penadas são varridas, entre outras coisas, a filosofia, a ciência, a medicina, a história, a retórica, a literatura clássicas. As obras de Platão, Aristóteles, Epicuro, Lucrécio, Euclides, Arquimedes, Hipócrates, Heródoto, Tucídides, Demóstenes, Cícero, Homero, Hesíodo, Píndaro, Virgílio e inúmeros outros são cassadas, entre as quais (segundo a sabedoria dos sábios, a inteligência dos inteligentes e a erudição dos eruditos, tanto da época de Paulo quanto da nossa) algumas das maiores preciosidades jamais produzidas pelos seres humanos.

Nesse caso, os que estão "por dentro" da palavra de Deus não apenas se sentem superiores ao homem comum, como diz Adorno, mas também -e sobretudo- aos "sábios", aos "inteligentes" e aos "eruditos". Vingam-se assim -de novo, nas palavras de Adorno- de se sentirem excluídos dos privilégios educacionais.

Foi indignado com as palavras de Paulo acima citadas que Nietzsche afirmou que a religião cristã, sendo "inimiga mortal da sabedoria do mundo, isto é, da ciência, aprovará todos os meios pelos quais a disciplina do espírito, a integridade e o rigor em ciências do espírito puderem ser envenenados, caluniados, desacreditados. A fé como imperativo é o veto contra a ciência -na prática a mentira a todo custo... Paulo compreendeu que a mentira, que a "fé" era necessária; mais tarde a Igreja compreendeu Paulo".

Na verdade, com o triunfo e a consolidação do cristianismo, na Idade Média, as coisas mudaram. De maneira geral, a doutrina da Igreja Católica se tornou senso comum, em diferentes níveis de sofisticação, tanto para os que se beneficiavam de privilégios educacionais -nas universidades, por exemplo, onde parte da herança clássica foi assumida- quanto para os que deles eram excluídos.

Isso não quer dizer que não tenha havido seitas que se considerassem acima do senso comum e se rebelassem contra a sabedoria deste mundo, inclusive contra a pretensa sabedoria da doutrina católica. Durante a Idade Média, proliferaram seitas de hereges, milenaristas, salvacionistas etc. a manifestar seu ódio contra toda sabedoria humana e, em particular, contra a razão.

Assim também fizeram os líderes da reforma protestante. Não admira que Martinho Lutero, declarado discípulo de Paulo, tenha chamado a razão de "puta amaldiçoada". "A razão", diz, "tem que ser enganada, cegada e destruída. A fé tem que pisar toda razão, senso e entendimento".

Em que essas ideologias religiosas são próximas da astrologia, tal como descrita por Adorno? Em se considerarem acima do senso comum e em proporcionarem aos seus adeptos a sensação de pertencerem a uma minoria que está "por dentro".

Mas não é toda ciência assim? A diferença, para Adorno, é que a astrologia consiste numa "crença irracional". Falarei disso no próximo artigo.

E em que são distantes da astrologia? Em desprezarem não só o senso comum, mas toda sabedoria humana, inclusive a razão. Nesse sentido, as ideologias laicas, de que falarei também no próximo artigo desta coluna, estão bem mais próximas da astrologia.

8.1.10

Nelson Ascher: "Um ótimo poema repulsivo"




No seguinte artigo, publicado em 30/06/2008 na "Ilustrada", da Folha de São Paulo, Nelson Ascher comenta o poema de Philip Larkin traduzido por ele e aqui postado em 30/11/2009:



NELSON ASCHER

Um ótimo poema repulsivo


É NUM tom paradoxalmente triunfalista ("Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria") que, em 1881, Machado de Assis arrematava "Memórias Póstumas de Brás Cubas".

Noventa anos depois, em 1971, o poeta inglês Philip Larkin (1922-1985) encerrava simbolicamente a carreira com um breve poema cuja última estrofe afirma e aconselha (em tradução literal) o seguinte: "Os homens passam (ou legam) a miséria uns aos outros. (...) Não tenhas filho algum".

O texto, um dos mais citados de sua língua, é, assim, um epitáfio.

Diante de tamanha coincidência (aliás, a tradução britânica do romance machadiano, sugestivamente intitulada "Epitaph of a Small Winner", saíra em 1968, numa edição da Penguin), seria tentador imaginar que o poeta de lá (bibliotecário profissional) tomara conhecimento do prosador daqui e se inspirara em seu livro. Tal vínculo de causa e efeito, porém, nada tem de obrigatório. Operando com materiais similares, mentes e temperamentos semelhantes chegam não raro a resultados parecidos.

Há imagens notáveis que, de tão usadas, perdem o impacto original e até deixam de expor claramente o que dizem, a que vieram. É o que ocorre com o sutil oxímoro formulado pelo brasileiro e pelo inglês. Cada qual, falando de um "legado de miséria", cria uma imagem à cuja família pertencem, por exemplo, "sua ausência preencheu uma grande lacuna" (atribuída a Stanislaw Ponte Preta), "a cárie (...) que enche inteiramente o cheio de vazio" (de um poeta que desconheço) e, no limite, o "nada que é tudo" pessoano.

Nada impede, portanto, que Larkin e Machado de Assis (ou melhor, Brás Cubas), numa destilação que, a nossos ouvidos, soa, a um tempo, bíblica, darwiniana e psicanalítica, sintetizassem independentemente a essência do niilismo.

Agora, consta que o inglês mesmo era pessoalmente uma figura no mínimo desagradável, e ninguém precisa concordar com sua mensagem explícita. A maioria das pessoas que conheço teve lá seus problemas com pai e mãe, mas sabe que tanto o presente voluntário da vida como todo o restante superam de longe as perdas e danos eventuais, e quem quer que os tenha perdido sempre lhes sentiu pungentemente a falta.
Que os pais cometem erros e nos causam dificuldades desnecessárias, tampouco é segredo. Eles, afinal, são humanos, e é deles que herdamos, sobretudo, nossa humanidade. Aqueles que atribuem o grosso de suas limitações ou insucessos a eles não passam de fracos, incapazes de reconhecer e assumir as próprias responsabilidades. Salvo em casos extremos (o de gente enviada a Auschwitz ou ao Gulag, respectivamente por Hitler ou Stálin), cabe a todo indivíduo responder, desde muito cedo, pelo que é ou faz.

O de Larkin é, sem dúvida, um poema bem-feito e, antes de mais nada, contundente (assim como as palavras derradeiras, note-se bem, de Brás Cubas, um personagem que jamais deve ser confundido com seu criador), não devido à qualidade ou agudeza de seu "insight", de sua percepção, mas a despeito da manifesta falsidade e injustiça desta. Infelizmente, o fato é que ética e estética não costumam andar de braços dados: bons sentimentos podem gerar versos medíocres, enquanto idéias repulsivas às vezes rendem ótimos poemas.

Pensando bem, no entanto, o "infelizmente" acima está errado. Ótimos poemas com mensagens detestáveis são necessários para que nunca deixemos de ter em mente que, ao contrário do que parece dizer a urna grega de Keats, o belo e o verdadeiro não são a mesma coisa. Um texto como "Este seja o poema" obriga-nos a dissociar ambos, bem como o que sentimos a seu respeito. Para quê? Para aprendermos a não ceder ao canto das sereias a ponto de acreditar em sua letra (ou vice-versa), pois, embora possa ter sido escrita por anjos ou pela serpente, ela, em nenhum dos casos, torna nossos ouvidos automaticamente refratários à sedução da melodia.




Philip Larkin
"Este seja o poema"

Teu pai e mãe fodem contigo.
Que não o queiram, tanto faz.
Passam-te cada podre antigo,
além de uns novos, especiais.

Mas de cartola e fraque, outrora,
fodera-os já do mesmo modo,
gente ora austero-piegas, ora
se engalfinhando cega de ódio.

Miséria é o que legamos: fossas
num mar que só fica mais fundo.
Dá o fora, pois, tão logo possas
sem pôr nenhum filho no mundo.

5.1.10

Paul Valéry: de "Ego"




Tenho contra mim as pessoas dotadas de opiniões – quer dizer, as pessoas que se confundem com as opiniões que lhes ocorrem; as pessoas dotadas de convicções e fés.

Mas eu me distingo das minhas, e isso é quase o que me define. Sou aquele que não é / não sou / o que lhe ocorre.



VALÉRY, Paul. "Ego". Cahiers. Paris: Gallimard, 1973.

4.1.10

Adília Lopes: "45 anos"




45 anos


É tempo
de regressar
a casa

A poesia
não está
na rua


LOPES, Adília. Le vitrail la nuit: a árvore cortada. Lisboa: Edição & etc., 2006.

1.1.10

Gottfried Benn: "Ein Wort" / "Palavra": transcriação de Antonio Cicero




Palavra

Palavra, frase: um signo embala
com súbito sentido a vida,
o sol detém-se, o céu se cala
e tudo adquire uma medida.

Palavra, chispa, voo, clarão
e rastros de astros no céu;
e torna o breu, a imensidão
e em meio ao nada o mundo e eu.






Ein Wort

Ein Wort, ein Satz –: Aus Chiffern steigen
erkanntes Leben, jäher Sinn,
die Sonne steht, die Sphären schweigen
und alles ballt sich zu ihm hin.

Ein Wort –. ein Glanz, ein Flug, ein Feuer,
ein Flammenwurf, ein Sternenstrich –,
und wieder Dunkel, ungeheuer,
im leeren Raum um Welt und Ich.


BENN, Gottfried. Gedichte in der Fassung der Erstdrucke. Frankfurt am Main: Fischer Verlag, 1982.


Para ouvir o poema em alemão: