31.8.09
Nelson Ascher: "Mallarmé"
Mallarmé
Porquanto ao jogo adestre
a língua que selvagem
condensa-se em linguagem
o ensimesmado mestre
perscruta além das extre-
midades na voragem
de estrelas que interagem
uma inscrição rupestre
gravada desde o início
na abóbada suprema
que lhe descerra o indício
de um verbo que se queima
feito minério físsil
na origem do poema.
Nelson Ascher escreveu esse poema para os 150 anos de nascimento de Mallarmé (1992). Ele foi publicado no livro O sonho da razão (Rio de Janeiro: Editora 24, 1993) e recentemente retrabalhado pelo autor.
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Poema
29.8.09
Armando Freitas Filho: "Fuso"
Fuso
Tento acertar meu relógio
pelo seu, parado, há tanto
com o suor do pulso, seco
a pulseira de couro partida
que ainda guarda algum sal.
Pai, a certeza de sua hora
me falta, e mesmo tendo
andado, não consegui chegar
a tempo, de pegar seu passo
emparelhar-me — servir
de companhia para sempre —
e passar à descendência
os firmes compromissos
pois me perdi pelo caminho.
FREITAS FILHO, Armando. Lar,. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
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Poema
Blog do Adriano Nunes
Ouçam Adriano Nunes recitar o poema de sua autoria "Antonio Cicero", no seu blog, quefaçocomoquenãofaço.
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quefaçocomoquenãofaço
28.8.09
Evando Nascimento: "pensamento (feições)"
pensamento
(feições)
e fazer a coisa
e pensar a coisa
e pensar é fazer a coisa
e a coisa se faz pensando
e fazendo a coisa se pensa
e pensando a coisa se faz
e pensar a coisa é fazer
e fazer pensar é a coisa
e pensar fazer é quase
a mesma coisa.
(03.III.05)
NASCIMENTO, Evando. Retrato desnatural. (diários - 2004 a 2007). Rio de Janeiro: Record, 2008.
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Poema
26.8.09
24.8.09
Novalis: de "Hymnen an die Nacht" / "Hinos à noite"
Mais celestes que essas estrelas cintilantes parecem-nos os olhos infinitos que a noite abriu em nós.
Himmlischer, als jene blitzenden Sterne, dünken uns die unendlichen Augen, die die Nacht in uns geöffnet.
NOVALIS. "Hymnen an die Nacht". Werke. München: Beck, 1981.
22.8.09
Juan Antonio González Iglesias: "Acepto que belleza" / "Aceito que a beleza"
Acepto que belleza
Acepto que belleza es la fulguración
natural de las cosas naturales.
Me digo que tus dientes mostrados en sonrisa
son eso. Que tus ojos me dan tanta dulzura
porque cumplen remotas instrucciones genéticas.
Que tu cuerpo de hombre con mi cuerpo de hombre
construyen un lugar necesario en el mundo.
Que nada extraordinario hay en dos que se aman.
Pero, cuando te abrazo una noche tras otra
y me encuentro tu pulso a oscuras en cualquiera
de los puntos que laten en tu cuerpo dormido,
cruza por mi cerebro la palabra milagro.
Aceito que a beleza
Aceito que a beleza é a fulguração
natural das coisas naturais.
Digo-me que teus dentes, revelados no sorriso
são isso. Que teus olhos me dão tanta doçura
porque cumprem remotas instruções genéticas.
Que teu corpo de homem com meu corpo de homem
constroem um lugar necessário no mundo.
Que nada extraordinário há em dois que se amem.
Mas quando te abraço uma noite após a outra,
e encontro teu pulso às escuras em qualquer
dos pontos que latem no teu corpo adormecido,
cruza por meu cérebro a palavra milagre.
GONZÁLEZ IGLESIAS, Juan Antonio. Un ángulo me basta. Madrid: Visor Libros, 2002.
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