9.8.09
Domingos Carvalho e Silva: "Poema terciário"
Poema terciário
Cavalos já foram pombos
de asas de nuvem. Um rio
banhava o rosto da aurora.
Cavalos já foram pombos
na madrugada do outrora.
Onde há florestas havia
golfos oblongos por onde
tranqüilos peixes corriam.
Uma lua alvissareira
passava a noite. E deixava
reticências de cometa
vagalumeando na relva
das margens, até à aurora
da Idade de Ouro do outrora,
quando cavalos alados
tinham estrelas nas crinas
alvas como asas de pombo.
O Verbo não existia.
Deus era incriado ainda.
Só as esponjas dormitavam
trespassadas por espadas
de água metálica, impoluta.
E as gaivotas planejavam
etapas estratosféricas
próximo às praias ibéricas.
E as montanhas desabavam
em estertores terciários,
em agonias de estrondo,
nas manhãs de sol atlântico,
quando cortavam as nuvens
– alvos garbosos eqüinos –
esquadrões marciais de pombos.
Teu cabelo era ainda musgo.
Teus olhos o corpo frio
de uma ostra semiviva.
E tua alma sempre-viva
Sobrenadava o oceano
qual uma estrela perdida.
Teu coração era concha
fechada e sem pulsação.
E teu gesto – que é teu riso –
era urn mineral estático
ainda não escavado
pelo mar duro e fleumático.
Cavalos já foram pombos.
E a prata que anda na garra
dos felinos, reluzia
em vibrações uterinas
no ventre da terra fria,
quando o dia era só aurora
e Deus sequer existia,
na madrugada do outrora.
8.8.09
7.8.09
Carlos Pena Filho: "A solidão e sua porta"
A solidão e sua porta
Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar,
(nem o torpor do sono que se espalha).
Quando pelo desuso da navalha
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha
a arquitetar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal te resta a vida
com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.
PENA FILHO, Carlos. Livro geral. Olinda: Gráfica Vitória, 1977.
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Poema
6.8.09
Blog Prosa em Poema
.
Quem gosta de poesia vai adorar o blog Prosa em Poema http://prosaempoema.wordpress.com/, do meu grande amigo Paulo Roberto Sabino Júnior, o Paulinho. Há já algum tempo, Paulinho periodicamente brinda seus amigos com belas seleções dos poemas que mais admira. Agora, finalmente, ele os torna disponíveis a quem quer que acesse o seu blog. Recomendo-o enfaticamente.
Como ele mesmo diz:
"'Prosa em poema' é o título que cabe à minha proposta: a de clarificar por que as linhas escolhidas me tocam, me sensibilizam. os meus textos desnudam a razão de ser daquilo tudo na minha existência. portanto, é uma espécie de diálogo, de prosa, que travo com as linhas, com os textos e poemas postados; é a prosa que enxergo nos versos, o diálogo que desenvolvo com eles".
Quem gosta de poesia vai adorar o blog Prosa em Poema http://prosaempoema.wordpress.com/, do meu grande amigo Paulo Roberto Sabino Júnior, o Paulinho. Há já algum tempo, Paulinho periodicamente brinda seus amigos com belas seleções dos poemas que mais admira. Agora, finalmente, ele os torna disponíveis a quem quer que acesse o seu blog. Recomendo-o enfaticamente.
Como ele mesmo diz:
"'Prosa em poema' é o título que cabe à minha proposta: a de clarificar por que as linhas escolhidas me tocam, me sensibilizam. os meus textos desnudam a razão de ser daquilo tudo na minha existência. portanto, é uma espécie de diálogo, de prosa, que travo com as linhas, com os textos e poemas postados; é a prosa que enxergo nos versos, o diálogo que desenvolvo com eles".
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Poema em Prosa,
Poesia
5.8.09
Eugénio de Andrade: "Sempre a água"
.
Sempre a água
Sempre a água me cantou nas telhas.
Habito onde as suas bicas,
as suas bocas jorram.
As palavras que no cântaro
a noite recolhe e bebe
com agrado
sabem a terra por serem minhas.
Não sou daqui e não vos devo
nada, ninguém
poderá negar a evidência
de ser chama ou água,
fluir em lugar de ser pedra.
Perdoai-me a transparência.
ANDRADE, Eugénio de. O Sal da Língua Precedido de Trinta Poemas. Lisboa: Bibliotex, 2001.
Sempre a água
Sempre a água me cantou nas telhas.
Habito onde as suas bicas,
as suas bocas jorram.
As palavras que no cântaro
a noite recolhe e bebe
com agrado
sabem a terra por serem minhas.
Não sou daqui e não vos devo
nada, ninguém
poderá negar a evidência
de ser chama ou água,
fluir em lugar de ser pedra.
Perdoai-me a transparência.
ANDRADE, Eugénio de. O Sal da Língua Precedido de Trinta Poemas. Lisboa: Bibliotex, 2001.
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Poema
3.8.09
"Inverno": tradução para o russo de Oleg Almeida
.
O poeta Oleg Almeida, autor do belo livro Memórias dum hiperbóreo, traduziu para o russo o poema "Inverno", que originalmente fiz como letra para uma melodia de Adriana Calcanhotto. Eis a tradução, para aqueles que conhecem a língua de Puchkin, e, em seguida, o original:
ЗИМА
(Сузане Мораис)
В тот день, когда я слишком счастлив был,
в твоих глазах
вдруг отразился самолёт – взлетел, исчез;
и с этих пор –
брожу ли вдоль канала взад-вперёд,
пишу ли длинное, без адреса, письмо –
зимой в Леблоне настоящий лёд.
Есть кое-что, чего не смог понять...
Где потерял ручного льва: на нём
в тот самый день ещё скакал верхом?
Я позабыл,
что одинокого судьбе не жаль,
что пьяным кораблём, в морскую даль
заброшенным, угоден ей
сейчас.
Но сам не знаю что
пытается напомнить мне подчас,
как небеса однажды встретились с землёй
для нас двоих,
немного раньше, чем закат погас.
INVERNO
(a Susana Morais)
No dia em que fui mais feliz
eu vi um avião
se espelhar no seu olhar até sumir
de lá pra cá não sei
caminho ao longo do canal
faço longas cartas pra ninguém
e o inverno no Leblon é quase glacial.
Há algo que jamais se esclareceu:
onde foi exatamente que larguei
naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei?
Lá mesmo esqueci
que o destino
sempre me quis só
no deserto sem saudades, sem remorsos, só
sem amarras, barco embriagado ao mar
Não sei o que em mim
só quer me lembrar
que um dia o céu
reuniu-se à terra um instante por nós dois
pouco antes do ocidente se assombrar.
O poeta Oleg Almeida, autor do belo livro Memórias dum hiperbóreo, traduziu para o russo o poema "Inverno", que originalmente fiz como letra para uma melodia de Adriana Calcanhotto. Eis a tradução, para aqueles que conhecem a língua de Puchkin, e, em seguida, o original:
ЗИМА
(Сузане Мораис)
В тот день, когда я слишком счастлив был,
в твоих глазах
вдруг отразился самолёт – взлетел, исчез;
и с этих пор –
брожу ли вдоль канала взад-вперёд,
пишу ли длинное, без адреса, письмо –
зимой в Леблоне настоящий лёд.
Есть кое-что, чего не смог понять...
Где потерял ручного льва: на нём
в тот самый день ещё скакал верхом?
Я позабыл,
что одинокого судьбе не жаль,
что пьяным кораблём, в морскую даль
заброшенным, угоден ей
сейчас.
Но сам не знаю что
пытается напомнить мне подчас,
как небеса однажды встретились с землёй
для нас двоих,
немного раньше, чем закат погас.
INVERNO
(a Susana Morais)
No dia em que fui mais feliz
eu vi um avião
se espelhar no seu olhar até sumir
de lá pra cá não sei
caminho ao longo do canal
faço longas cartas pra ninguém
e o inverno no Leblon é quase glacial.
Há algo que jamais se esclareceu:
onde foi exatamente que larguei
naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei?
Lá mesmo esqueci
que o destino
sempre me quis só
no deserto sem saudades, sem remorsos, só
sem amarras, barco embriagado ao mar
Não sei o que em mim
só quer me lembrar
que um dia o céu
reuniu-se à terra um instante por nós dois
pouco antes do ocidente se assombrar.
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Susana Moraes
2.8.09
Miguel Souza Tavares: "O Mediterrâneo"
O seguinte – belíssimo -- texto, do escritor português Miguel Souza Tavares, foi-me enviado por meu querido primo, Epifânio de Carvalho:
O MEDITERRÂNEO
Miguel Souza Tavares
Não gosto de catedrais, do peso das pedras, da dimensão excessiva das naves, da mitologia de um Deus em cujo nome foram construídas e que aqui convoca e esmaga os seus crentes. Não gosto da profusão de altares de castiçais de talha dourada, de sacrários e cânticos e painéis. Não gosto da arquitetura que não é à escala humana, nem nos meios utilizados nem nos fins que representa.
Prefiro a extensão plana das mesquitas, o seu jogo de colunas e sombras, o despojamento geométrico dos seus azulejos. Prefiro mil vezes a herança do mundo árabe morto em Granada do que os símbolos da Reconquista cristã que o sepultou.
Mil vezes a leveza do mundo mediterrânico do que o sufoco das catedrais e castelos do Sacro Império Romano-Germânico. Mil vezes os templos gregos, entre resina e mar e a quietude das oliveiras, do que os castelos de Inglaterra e as florestas de bétulas do Norte. Mil vezes as kasbahs de Marrocos do que os castelos feudais da Europa, mil vezes Granada do que Versalhes.
E antes um Olimpo de Deuses de cada coisa do que um Deus único, antes o Al Andaluz do que os Reis Católicos, antes Roma do que o Papado, antes a luz e a democracia gregas do que a escuridão medieval.
Falo da nossa herança, o Mediterrâneo – a mais extraordinária civilização humana, a civilização da luz, da arte, da arquitetura, da democracia, do direito, da navegação e da descoberta, do mar e do deserto, das ilhas e dos golfos, das vinhas, dos olivais e dos pinhais, das estátuas profanas, das colunas e dos azulejos, dos pátios, dos terraços e das varandas, da cal, do branco e do azul. É a civilização do Egito, de Creta, de Atenas, de Roma, de Volubilis, de Tânger. Das cidades portuárias, de Alexandria a Lisboa e das Ilhas Gregas, da Sicília, de Malta, de Chipre, da Sardenha. São três mil anos a contemplar as estrelas do céu, a ouvir o som da água nas fontes e a tentar decifrar o mistério da morte.
Antes que a idéia de Deus esmagasse os homens, antes doa autos de fé, das perseguições religiosas da Inquisição e do fundamentalismo islâmico, o Mediterrâneo inventou a arte de viver. Os homens viviam livres dos castigos de Deus e das ameaças dos Profetas: na barca da morte até à outra vida, como acreditavam os egípcios. E os deuses eram, em vida dos homens, apenas a celebração de cada coisa: a caça, a pesca, o vinho, a agricultura, o amor. Os deuses encarnavam a festa e a alegria da vida e não o terror da morte.
Antes da queda de Granada, antes das fogueiras da Inquisição, antes dos massacres da Argélia, o Mediterrâneo ergueu uma civilização fundada na celebração da vida, na beleza de todas as coisas e na tolerância dos que sabem que, seja qual for o Deus que reclame a nossa vida morta, o resto é nosso e pertence-nos – por uma única, breve e intensa passagem. É a isso que chamamos liberdade – a grande herança do mundo do Mediterrâneo.
TAVARES, Miguel Souza. In Não te deixarei morrer, David Crockett. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
O MEDITERRÂNEO
Miguel Souza Tavares
Não gosto de catedrais, do peso das pedras, da dimensão excessiva das naves, da mitologia de um Deus em cujo nome foram construídas e que aqui convoca e esmaga os seus crentes. Não gosto da profusão de altares de castiçais de talha dourada, de sacrários e cânticos e painéis. Não gosto da arquitetura que não é à escala humana, nem nos meios utilizados nem nos fins que representa.
Prefiro a extensão plana das mesquitas, o seu jogo de colunas e sombras, o despojamento geométrico dos seus azulejos. Prefiro mil vezes a herança do mundo árabe morto em Granada do que os símbolos da Reconquista cristã que o sepultou.
Mil vezes a leveza do mundo mediterrânico do que o sufoco das catedrais e castelos do Sacro Império Romano-Germânico. Mil vezes os templos gregos, entre resina e mar e a quietude das oliveiras, do que os castelos de Inglaterra e as florestas de bétulas do Norte. Mil vezes as kasbahs de Marrocos do que os castelos feudais da Europa, mil vezes Granada do que Versalhes.
E antes um Olimpo de Deuses de cada coisa do que um Deus único, antes o Al Andaluz do que os Reis Católicos, antes Roma do que o Papado, antes a luz e a democracia gregas do que a escuridão medieval.
Falo da nossa herança, o Mediterrâneo – a mais extraordinária civilização humana, a civilização da luz, da arte, da arquitetura, da democracia, do direito, da navegação e da descoberta, do mar e do deserto, das ilhas e dos golfos, das vinhas, dos olivais e dos pinhais, das estátuas profanas, das colunas e dos azulejos, dos pátios, dos terraços e das varandas, da cal, do branco e do azul. É a civilização do Egito, de Creta, de Atenas, de Roma, de Volubilis, de Tânger. Das cidades portuárias, de Alexandria a Lisboa e das Ilhas Gregas, da Sicília, de Malta, de Chipre, da Sardenha. São três mil anos a contemplar as estrelas do céu, a ouvir o som da água nas fontes e a tentar decifrar o mistério da morte.
Antes que a idéia de Deus esmagasse os homens, antes doa autos de fé, das perseguições religiosas da Inquisição e do fundamentalismo islâmico, o Mediterrâneo inventou a arte de viver. Os homens viviam livres dos castigos de Deus e das ameaças dos Profetas: na barca da morte até à outra vida, como acreditavam os egípcios. E os deuses eram, em vida dos homens, apenas a celebração de cada coisa: a caça, a pesca, o vinho, a agricultura, o amor. Os deuses encarnavam a festa e a alegria da vida e não o terror da morte.
Antes da queda de Granada, antes das fogueiras da Inquisição, antes dos massacres da Argélia, o Mediterrâneo ergueu uma civilização fundada na celebração da vida, na beleza de todas as coisas e na tolerância dos que sabem que, seja qual for o Deus que reclame a nossa vida morta, o resto é nosso e pertence-nos – por uma única, breve e intensa passagem. É a isso que chamamos liberdade – a grande herança do mundo do Mediterrâneo.
TAVARES, Miguel Souza. In Não te deixarei morrer, David Crockett. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
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