30.6.08

Sérgio Salvia Coelho: "Wagner Moura faz o Hamlet da sua geração"

Assisti à estréia do excelente "Hamlet" dirigido por Aderbal Freire-Filho e protagonizado pelo Wagner Moura, que mereceu, em 24 do corrente, na "Ilustrada", da Folha de São Paulo, a seguinte crítica de Sérgio Salvia Coelho, que se encontra disponível no seu blog, "Na Moita" (http://namoita.zip.net/):


WAGNER MOURA FAZ O HAMLET DA SUA GERAÇÃO

Wagner Moura lançou-se na empreitada iniciática de “fazer seu Hamlet” anunciando a intenção que fosse apenas mais uma montagem. Falhou: é o Hamlet emblemático da sua geração. Espelho inesgotável, mas que reflete apenas o que se põe na sua frente, a obra prima de Shakespeare, síntese do Teatro, já teve o rosto compenetrado de Sérgio Cardoso, do Teatro do Estudante, que assumia a responsabilidade de construir o moderno teatro brasileiro; e no extremo oposto, um Marcelo Drummond se estraçalhando em uma entrega camicase ao caos dos anos 90, na montagem do Teatro Oficina.

Moura, Hamlet do milênio, tem pela frente um país que se reergue praticamente de ruínas, mas tendo aprendido importantes lições. Vestindo o personagem como uma armadura, consciente da batalha, Moura precisa primeiro exorcizar o fantasma da grandiloqüência com o humor adolescente que tanto o marcou. Não é pela melancolia, mas pelo deboche exasperado que ele rejeita a podridão de seu reino, e ganha a platéia nos trocadilhos e na marcação frenética. Mas há método nessa loucura: quando é preciso, triunfa pela simplicidade, e inesquecíveis monólogos marcam sua entrada definitiva no mundo adulto.

Com uma preciosa tradução dividida entre ele, Bárbara Harrington e o diretor Aderbal Freire-Filho, se faz compreender sem perder o frescor nem a beleza sonora. O “ser ou não ser” tem seu peso devido, ou seja, um devaneio entre parênteses, quando o mais importante está em suas considerações sobre o próprio teatro, e aí a bandeira de Shakespeare se desfralda com o vigoroso vento da sede por um teatro livre dos truques retóricos da autocontemplação.

Para isso, é preciso um diretor que ponha seu currículo inteiro em cena, como faz Freire-Filho. Não pode ser menos, com “Hamlet”: tudo o que o diretor já fez soa como uma preparação para o que se vê aqui. No cenário, retoma com Fernando Mello da Costa a experiência do “Púcaro Búlcaro”: coxias abertas, abarrotadas, com atores atentos, em contraste com o palco nu. Há o vídeo em cena, que esfriava “O Que Diz Molero”, e que agora acompanha passo a passo o texto, desdobrando suas leituras com grande impacto visual. Há sobretudo a soberania total do ator, que dispõe de todos os recursos do “romance em cena”, que lhe põe na mão instantaneamente tudo o que ele precisa.

Em uma das muitas metalinguagens, o pai de Hamlet, rei destronado por um canastrão, é uma entidade coletiva, feita por todo o elenco de apoio que se reveza na armadura: a verdadeira majestade é da trupe, não do indivíduo. Mas cada peça desse quebra-cabeças é precisamente ajustada.

Tonico Pereira, com sua bonomia que remeteria mais a Polônio, faz um Rei Cláudio extremamente simpático, e por isso perigoso: humano na sua fraqueza, Pereira atinge a maturidade como ator encontrando a tragédia no centro do cômico.

Georgiana Góes é uma Ofélia adolescente que se estraçalha na dor, por sambas e frevos que parecem improvisados na hora (façanha do autor da trilha, o hermano Rodrigo Amarante) para culminar no assombro do grito de Munch. Fábio Lago faz um Laertes transfigurado pelo ódio, que recobra a integridade no final; enquanto que Gillray Coutinho aproveita tudo o que Polônio pode lhe oferecer, na sua técnica espantosa, frenesi de tiques e pirotecnia verbal. Marcelo Flores e Cláudio Mendes, par de clowns meticulosos, sabem também honrar seus solos, enquanto coveiros e atores. Carla Ribas tem grande dignidade como Gertrudes, mas fica um pouco deslocada quando o desvario triunfa. Caio Junqueira (um Horácio carismático) e Felipe Kouri (que tira o máximo dos menores personagens) completam um elenco no qual ninguém faz sombra a ninguém, e é a história que prevalece.

A luz de Maneco Quinderé é sutil e precisa, enquanto que o figurino de Marcelo Pies sabe conciliar despojamento e requinte. Este Hamlet é indispensável e antológico justamente por sua essencialidade. Não busca ser original, mas eficiente, e faz um apelo emocionante e contagiante pela própria grandeza do Teatro. É para deixar qualquer um que tenha cedido à idéia da morte do teatro com vergonha. Na ratoeira de Hamlet, o que fica preso é o coração da platéia, com os olhos abertos para se ver refletido nesse espelho infinito. (quatro estrelas)

29.6.08

A noção de humanidade

O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo, sábado, 27 de junho:


A noção de humanidade


"NÃO HÁ homem no mundo", afirma Joseph de Maistre, em 1797. "Vi em minha vida", continua, "franceses, italianos, russos. Sei até, graças a Montesquieu, que se pode ser persa; mas quanto ao homem, declaro nunca tê-lo encontrado; se ele existe, ignoro". A boutade de Maistre, inimigo declarado da Revolução Francesa e do Iluminismo, atinge, entre outras coisas, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789. É naturalmente irônica a menção a Montesquieu, cujo livro "Cartas Persas" havia sido uma das primeiras manifestações da Ilustração.

Na verdade, o epigrama de Maistre não deve ser levado a sério, pois, assim como ele diz que não há homens no mundo, mas apenas franceses, italianos, russos etc., alguém poderia sustentar que não há italianos, mas apenas piemonteses, lombardos, toscanos etc.; ao que um terceiro poderia replicar que não há toscanos, mas apenas florentinos, sienenses, pisanos etc.; e assim por diante, até chegar a um indivíduo. E o indivíduo? Esse será todas essas coisas e muitas outras, inclusive homem (no sentido de "ser humano"), animal, ser vivo, ser.

Maistre morreu muito antes da publicação, em 1899, dos cadernos de Montesquieu. Pois bem, estranhamente, num desses cadernos, o autor de "O Espírito das Leis" parece postumamente responder à sentença de Maistre, ao afirmar: "Sou necessariamente homem, e só sou francês por acaso". Em termos escolásticos, ele poderia ter dito: sou essencialmente homem, e acidentalmente francês.

Mas não poderia sua humanidade ser fruto do acaso? Não poderia ele ter dito, por exemplo: "Sou necessariamente animal, e só sou homem por acaso"? Não. O único animal que Montesquieu poderia ser é o homem (no sentido de "ser humano"), pois, de todos os animais, só o homem é capaz de pensar e dizer tais coisas.

Aos modernos, a maneira de pensar de Montesquieu é normal. É normal, por exemplo, que um brasileiro pense que, por acaso, é brasileiro, mas que poderia ter sido chinês ou nigeriano, ou americano, ou espanhol... E raramente nos damos conta de que os seres humanos só há pouco tempo aprenderam a ver as coisas desse modo. É claro que nesse ponto, como em tantos outros, alguns gregos já eram modernos. Diógenes, o Cínico, por exemplo, se dizia "kosmou polités", de onde "cosmopolita", que quer dizer "cidadão do mundo", expressão adotada pelos filósofos estóicos. Mas eles eram relativamente poucos.

Lévi-Strauss ensina que "a noção de humanidade, englobando, sem distinção de raça ou de civilização, todas as formas da espécie humana, é de aparição muito tardia e de expansão limitada. Lá mesmo onde ela parece ter atingido seu mais alto desenvolvimento, não é de modo algum certo -a história recente o prova- que ela esteja a salvo de equívocos e regressões. Mas para vastas frações da espécie humana e durante dezenas de milhares de anos, essa noção parece estar totalmente ausente. A humanidade cessa às fronteiras da tribo, do grupo lingüístico, às vezes até do vilarejo".

Para termos uma idéia de como Lévi-Strauss tem razão ao falar da "aparição tardia" desse modo moderno de pensar, basta lembrar que os 250 anos que nos separam de Montesquieu estão para os 50 mil anos do Homo sapiens como os últimos sete minutos de um dia de 24 horas.

Hoje é um truísmo dizer que vivemos num mundo cada vez menor, mais economicamente interdependente e mais tecnologicamente interconectado do que jamais antes. Ao mesmo tempo, nunca foi tão desenvolvida e disseminada a consciência do caráter acidental, para o ser humano, não só da sua nacionalidade, mas da sua língua, cultu- ra, religião, etnia. Em tal mundo, seria de se esperar que as fronteiras políticas se tornassem cada vez mais porosas.

Entretanto, não é necessariamente isso que se observa, nem mesmo nas regiões do mundo onde a modernidade é mais desenvolvida e disseminada. De novo, Lévi-Strauss tem razão, ao dizer que a concepção moderna de humanidade não está a salvo de equívocos e regressões. Esta última palavra, aliás, mostra que, no fundo, ele considera essa concepção superior às pré-modernas. E como não o faria, se ela constitui uma das condições de possibilidade da própria antropologia que ele representa? De todo modo, aqueles que pensam assim e prezam a liberdade de pensamento e ação que só se tornou possível no mundo moderno devem ficar alertas. Se alguém duvidar disso, que leia, por exemplo, a regressiva legislação sobre imigração recentemente aprovada pelo Parlamento Europeu.

27.6.08

Montesquieu: anotações diversas

Selecionei e traduzi alguns dos pensamentos que Montesquieu não pôs em suas obras. "São idéias que não aprofundei", diz, "e que guardo para sobre elas pensar quando surgir a ocasião".



Quase nunca tenho tristeza, e menos ainda tédio.

O estudo tem sido para mim o remédio soberano contra os desgostos da vida, e jamais tive tristeza de que uma hora de leitura não me tenha livrado.

Acordo de manhã com uma alegria secreta; vejo a luz com uma espécie de arrebatamento. Todo o resto do dia fico contente.

Passo a noite sem acordar e, à noite, quando vou para a cama, uma espécie de entorpecimento me impede de fazer reflexões.

Quando viajei pelos países estrangeiros, liguei-me a eles como ao meu próprio: tomei parte da sorte deles, e gostaria que estivessem num estado florescente.

Nunca me irritei de passar por distraído: isso me permitiu arriscar-me a cometer muitas negligências que me teriam encabulado.

Quanto à maior parte das pessoas, prefiro aprová-las a escutá-las.

Jamais vi correrem lágrimas sem me enternecer.

Perdoo facilmente, pela razão de que não sei odiar. Parece-me que o ódio é doloroso. Quando alguém quis se reconciliar comigo, senti minha vaidade lisonjeada e parei de ver como inimigo um homem que me prestava o serviço de me dar uma boa opinião de mim.

Quando se esperou que eu brilhasse numa conversa, jamais o fiz. Prefiro ter um homem de espírito a me apoiar do que muitos tolos a me aprovar.

Se eu soubesse de uma coisa útil para minha nação que fosse destruidora para outra, não a proporia ao meu príncipe, porque sou homem antes de ser francês, (ou então) porque sou necessariamente homem, e só sou francês por acaso.

Se eu soubesse de alguma coisa que me fosse útil e que fosse prejudicial à minha família, eu a expulsaria do meu espírito. Se soubesse de alguma coisa útil à minha família e que não o fosse à minha pátria, eu tentaria esquecê-la. Se eu soubesse de alguma coisa útil à minha pátria, e que fosse prejudicial à Europa, ou que fosse útil à Europa e prejudicial ao gênero humano, eu a consideraria um crime.

Não esposo opiniões, exceto as dos livros de Euclides.

Eu dizia: “Não faço parte das vinte pessoas que conhecem essas ciências em Paris, nem das cinquenta mil que crêem conhecê-la”.

Alguém me reprochou de ter mudado a seu respeito. Eu lhe disse: “Se é uma mudança para você, é uma revolução para mim”.



De: MONTESQUIEU, Charles-Louis de Secondat. "Mes pensées". In Oeuvres complètes. Vol.1. Org. p. Roger Caillois. Paris: Gallimard, 1949.

25.6.08

Caio Meira: "pequeno sutra da mais completa ignorância"

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pequeno sutra da mais completa ignorância

não sei migrar para o sul quando chega o verão, nem caminhar sobre o carvão em brasa

carroças já não passam por minha boca

desconheço regras de retórica, o manejo de sombras, tipos exóticos de peixes, datas e aparatos de cerimônia

sei que tenho 32 dentes, leio livros e jornais, vou ao mercado e ao cinema, escuto música clássica e popular, e posso dizer de cor os números dos meus documentos, além de uns poucos poemas aprendidos há muito tempo

teimo também em me lembrar dos conselhos dos amigos, que permanecem vagando desacertados entre frases que de algum modo saltam prontas de minha garganta

não posso, apesar de grandes esforços, distinguir o fútil do necessário, o que me vale tantas horas misturando fadiga e prazer

nenhum balanço pode ser feito

apesar de meus olhos e meus pés se considerarem auto-suficientes na avaliação das distâncias, acabo sempre por tropeçar numa pessoa ou numa pedra



De: MEIRA, Caio. Coisas que o primeiro cachorro na rua pode dizer. Rio de Janeiro: Azougue, 2003.

24.6.08

Paulo Leminski: "O náufrago náugrafo"

Em homenagem ao meu querido amigo, o poeta Paulo Roberto Sabino Júnior, cujo aniversário é hoje, publico um dos seus poemas favoritos.



22.6.08

Blogs de Caetano Veloso, Yoani Sanchez e Reinaldo Escobar

Hoje li e recomendo enfaticamente o blog “Obra em progresso” (http://www.obraemprogresso.com.br/), de Caetano Veloso. A partir dele, também conheci e também recomendo os blogs “Generación Y” (http://www.desdecuba.com/generaciony/), da cubana Yoani Sanchez, e “Desde aquí” (http://desdecuba.com/reinaldoescobar/), de Reinaldo Escobar, também cubano, marido de Yoani.

Carlos Pena Filho: "Soneto do desmantelo azul"

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Soneto do Desmantelo Azul

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.


De: PENA FILHO, Carlos. "A vertigem lúcida". In: Livro geral. Olinda: Gráfica Vitória, 1977.