30.1.17

Adriano Espínola: "'Lamas' -- bar e restaurante"




"Lamas" -- bar  e restaurante

                                           A Horácio Dídimo


À noite
todos os lépidos
são larápios,

todos os otários
são
notórios,

todas as lânguidas
são
lésbicas

todas as cópulas
são
cédulas,

todos os lúcidos
são
trágicos

todos os bêbados
são
sábios.



ESPÍNOLA, Adriano. "'Lamas' -- bar e restaurante". In:_____. O lote clandestino. Rio de Janeiro: Topbooks, 2002.


28.1.17

Bertold Brecht: "Entdeckung an einer jungen Frau" / "Descoberta numa jovem mulher": trad. de André Vallias

Agradeço a André Vallias por me ter enviado sua bela tradução do seguinte belo soneto de Brecht:


Entdeckung an einer jungen Frau


Des Morgens nüchterner Abschied, eine Frau
Kühl zwischen Tür und Angel, kühl besehn
Da sah ich: eine Strähn in ihrem Haar war grau
Ich konnt mich nicht entschließen mehr zu gehn

Stumm nahm ich ihre Brust, und als sie fragte
Warum ich, Nachtgast, nach Verlauf der Nacht
Nicht gehen wolle, denn so war’s gedacht
Sah ich sie unumwunden an und sagte

Ist’s nur noch eine Nacht, will ich noch bleiben
Doch nütze deine Zeit, das ist das Schlimme
Daß du so zwischen Tür und Angel stehst

Und laß uns die Gespräche rascher treiben
Denn wir vergaßen ganz, daß du vergehst
Und es verschlug Begierde mir die Stimme



BRECHT, Bertold. "Entdeckung an einer jungen Frau". In:_____. Werke. Groβe kommentierte Berliner und Frankfurter Ausgabe. Hg. von W. Hecht, J. Knopf, W. Mittenzwei, K-D Müller. Berlin, Weimar, Frankfurt: Suhrkamp Verlag, 1988, Bd.13.



Descoberta numa jovem mulher


Uma mulher, no sóbrio adeus de uma manhã,
Com o pé na soleira, fria, examinada:
Descubro então a mecha de cabelo bran-
Co, e já não sei se vou bater em retirada

Calado, pus as minhas mãos sobre os seu seios
Quando ela me indagou por que eu estava ainda
Ali – um hóspede noturno, a noite finda —
Olhei pra ela, e aí lhe disse sem rodeios

Foi uma noite apenas, e eu quero ficar
Mas usufrua do seu tempo, é bem pior
Você permanecer com o pé na soleira

Porém, vamos deixar a conversa pra lá
Nos esquecemos que você vai virar pó —
E me embargaram a voz as chamas da fogueira



Trad. de André Vallias

25.1.17

Antonio Cicero: "Solo da paixão"





SOLO DA PAIXÃO

  O solo da paixão não dura mais
que um dia antes de afundar, não mais
que esta noite ou esta noite e um dia
e o clarão da noite antes de amargar.
Um dia solar eu vou lhe entregar:
Que ela seqüestre o mundo por um dia
(um dia só será que já vicia?)
Depois devolva tudo: terra céu e mar.




CICERO, Antonio. "Solo da paixão". In:_____. Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996.

23.1.17

Comemoração do 50º aniversário do Tropicalismo, no Gabinete de Leitura Guilherme Araújo




Na próxima quinta-feira, dia 26, às 19h30, estarei no Gabinete de Leitura Guilherme Araújo, dizendo poemas para comemorar os 50 anos do Tropicalismo. A cantora e compositora Georgeana Bonow também se apresentará, na mesma ocasião. 

Endereço do Gabinete de Leitura:Rua Redentor, 157, Ipanema, Rio de Janeiro 

Telefone: 
(21) 2523-1553), 

22.1.17

Ivan Junqueira: "E caem sobre ti"




E caem sobre ti

E caem sobre ti as folhas mortas
nesta pálida tarde em que navegam
vozes sem dono, brisas que carregam
o eco fugaz de antigas ruas tortas,
onde duendes e espíritos se apegam
ao que resta de luz por sob as portas
de pardieiros em cujas ermas hortas
crescem apenas cardos que nos cegam.
Tudo sucumbe ao teu domínio. Cortas,
de um golpe, as raras vênulas que regam
esses despojos com que não te importas
e que ao desterro a sua sorte entregam.
Confessas que a ninguém jamais confortas,
pois caem sobre ti as folhas mortas.




JUNQUEIRA, Ivan. "E caem sobre ti". In:_____. O outro lado. 1998-2006. Rio de Janeiro: Record, 2007.

20.1.17

Ítalo Moriconi: "Sem retorno"




Sem retorno

A sombra da terra de origem
esvaneceu-se, é como fiapos de nuvem
entre montanhas amenas, oliveiras,
percursos de trem
e um oceano inteiro, um salto
interplanetário, entre estrelas
apenas entrevistas.
O sortilégio do Amazonas, a foz,
as fontes inexauríveis do fluxo vital,
os cipós entrelaçados desde um tempo
de mais esfumada lembrança: enredos transgressivos
possivelmente ancestrais, é como um de-ene-ah!
Tudo se tornou longínquo, lendário,
material para um romance,
para um devaneio solitário.




MORICONI, Ítalo. "Sem retorno". In: _____. "Viagem à Itália". In: Candido. Jornal da Biblioteca Pública do Paraná, nº65, dezembro de 2016.

18.1.17

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Pescador"




          Pescador

               1

Irmão limpo das coisas
Sem pranto interior
sem introversão



               2

Este que está inteiro em sua vida
Fez do mar e do céu seu ser profundo
E manteve com serena lucidez
Aberto seu olhar e posto sobre o mundo.




ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Pescador". In: _____. "Livro sexto". In: _____. Obra poética. Alfragide: Caminho, 2011.

15.1.17

Haroldo de Campos: "zenbúdica"



zenbúdica

            para aguilar via oswald


               buda
            está
            no   u
            de humor
            e no a
            de    amor




CAMPOS, Haroldo de. "zenbúdica". In:_____. "zen". In:_____. crisantempo: no espaço curvo nasce um. São Paulo: Perspectiva, 2004.  

13.1.17

Bertold Brecht: Zum Freitod des Flüchtlings W.B. / Ao suicídio do fugitivo W.B.: trad. por André Vallias


Agradeço a André Vallias por me ter enviado sua excelente tradução do belo -- e estranhamente atual -- poema que Brecht fez sobre o suicídio de Walter Benjamin, perseguido pelos nazistas.




Zum Freitod des Flüchtlings W.B.

Ich höre, daß du die Hand gegen dich erhoben hast 
Dem Schlächter zuvorkommend. 
Acht Jahre verbannt, den Aufstieg des Feindes beobachtend 
Zuletzt an eine unüberschreitbare Grenze getrieben 
Hast du, heisst es, eine überschreitbare überschritten. 

Reiche stürzen. Die Bandenführer 
Schreiten daher wie Staatsmänner. Die Völker
Sieht man nicht mehr unter den Rüstungen.

So liegt die Zukunft in Finsternis, und die guten Kräfte
Sind schwach. All das sahst du
Als du den quälbaren Leib zertörtest.



BRECHT, Bertold. "Zum Freitod des Flücherlin/Weimanr/Frankfort: Suhrkamp, 1993.




Ao suicídio do fugitivo W.B.

Ouço que ergueste a mão contra ti
Ao carniceiro te antecipando.
Oito anos desterrado, observando a ascensão do inimigo
Por fim, coagido a uma fronteira intransponível
Uma transponível, diz-se, ultrapassaste.

Reinos desabam. Os chefes de quadrilha
Avançam como homens de Estado. Não
Se vê mais os povos sob tanto armamento.

Assim o futuro jaz na escuridão, e as forças do bem
Estão fracas. Tudo isso enxergaste
Quando o torturável corpo destruíste.


Trad. por André Valias

11.1.17

Ferreira Gullar: "A estrela"

Agradeço a meu amigo Arthur Nogueira (vejam http://arthurnogueira.blogspot.com.br/2017/01/a-estrela.html) por me ter lembrado da seguinte obra-prima do Ferreira Gullar:



A estrela

Gatinho, meu amigo,
fazes ideia do que seja uma estrela?

Dizem que todo este nosso imenso planeta
      coberto de oceanos e montanhas
      é menos que um grão de poeira
      se comparado a uma delas

Estrelas são explosões nucleares em cadeia
numa sucessão que dura bilhões de anos

O mesmo que a eternidade

Não obstante, Gatinho, confesso
que pouco me importa
                 quanto dura uma estrela

Importa-me quanto duras tu,
                querido amigo,
                e esses teus olhos azul-safira
                com que me fitas



GULLAR, Ferreira. "A estrela". In:_____. "Em alguma parte alguma". In:_____. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.

9.1.17

Horácio: Ode III.i: trad. Pedro Braga Falcão




III.i

Odeio o vulgo profano, e mantenho-o longe;
guardai um silêncio sagrado: como sacerdote
das musas para virgens e rapazes odes
nunca antes ouvidas canto.

Os temíveis reis dominam o seu povo,
Júpiter governa esses mesmos reis,
ele, glorioso no triunfo sobre os Gigantes,
com sua sobrancelha tudo fazendo mover.

Pode até ser que um homem nos sulcos suas árvores
disponha mais vastamente que outro; que um candidato,
de sangue mais nobre, até ao Campo desça,
adversário de um outro melhor no carácter

e na reputação; que outro homem um maior séquito tenha
de clientes; a Necessidade contudo, com imparcial lei,
a sorte dos grados e dos humildes tira:
a vasta urna agita o nome de todos.

Àquele sobre cujo ímpio pescoço pende
a nua espada, não mais os sicilianos festins
doces sabores lhe requintarão,
nem o canto das aves e da cítara

lhe trará o sono. O suave sono não despreza
as humildes casas dos homens do campo,
nem as umbrosas margens de um rio,
nem Tempe agitada pelos Zéfiros.

Quem mais do que o suficiente não deseja,
não o inquieta o revolto mar, nem o feroz
ataque do poente Arcturo,
nem os Cabritos quando surgem,

nem as vinhas pelo granizo zurzidas, nem a traiçoeira
quinta, quando a árvore se queixa ora das águas,
ora das estrelas que queimam os campos,
ora dos iníquos invernos.

Sentem os peixes que o mar se aperta quando à água
enormes pedras são lançadas; para aqui repetidamente
arremessa o empreiteiro com seus escravos
o formigão, e o senhor farto de terra:

mas o Medo e as Ameaçasscalam por onde
o patrão trepa, e a negra Inquietude a sua posição
na trirreme de bronze não abandona,
postando-se atrás do cavaleiro.

Mas se nem o mármore frígio, nem as vestes de púrpura,
brilhando mais que uma estrela, nem a vinha
de Falemo e o costo de Aquémenes
podem valer aquele que sofre,

porque hei-de erigir, em novo e sublime estilo,
um átrio com invejandas portas?
Porque hei-de trocar o meu vale sabino
por mais laboriosas riquezas?



III.i

Odi profanum volgus et arceo.  
favete linguis: carmina non prius      
audita Musarum sacerdos          
virginibus puerisque canto.  

regum timendorum in proprios greges,  
reges in ipsos imperium est Iovis,      
clari Giganteo triumpho,          
cuncta supercilio moventis.  

est ut viro vir latius ordinet  
arbusta sulcis, hic generosior      
descendat in campum petitor,          
moribus hic meliorque fama  

contendat, illi turba clientium  
sit maior: aequa lege Necessitas      
sortitur insignis et imos,          
omne capax movet urna nomen.  

destrictus ensis cui super inpia  
cervice pendet, non Siculae dapes      
dulcem elaborabunt saporem,          
non avium citharaeque cantus    

somnum reducent: somnus agrestium  
lenis virorum non humilis domos       
fastidit umbrosamque ripam,          
non Zephyris agitata tempe.  

desiderantem quod satis est neque  
tumultuosum sollicitat mare      
nec saevus Arcturi cadentis          
impetus aut orientis Haedi,  

non verberatae grandine vineae  
fundusque mendax, arbore nunc aquas      
culpante, nunc torrentia agros          
sidera, nunc hiemes iniquas.  

contracta pisces aequora sentiunt  
iactis in altum molibus: huc frequens      
caementa demittit redemptor          
cum famulis dominusque terrae  

fastidiosus; sed Timor et Minae  
scandunt eodem quo dominus, neque      
decedit aerata triremi et         
post equitem sedet atra Cura.  

quodsi dolentem nec Phrygius lapis  
nec purpurarum sidere clarior      
delenit usus nec Falerna         
vitis Achaemeniumque costum, 

cur invidendis postibus et novo  
sublime ritu moliar atrium?      
cur valle permutem Sabina          
divitias operosiores?   



HORÁCIO. Odes. Trad. Pedro Braga Falcão. Lisboa: Cotovia, 2008.

HORATIUS Flaccus, Q. Opera. E.C. Wickham e H.W. Garrott (orgs.).  Oxford: Oxford Classical Texts, 1912.



7.1.17

Cioran: "Nossa época"



Nossa época será marcada pelo romantismo dos apátridas. Já se forma a imagem de um universo onde ninguém mais terá direito de cidadania.

Em todo cidadão de hoje jaz um meteco futuro.


CIORAN. "Occident". In:_____. Syllogismes de l'amertume. Paris: Gallimard, 1980.

4.1.17

William Butler Yeats: "The spur" / "A espora": trad. de José Agostinho Baptista



The spur

You think it horrible that lust and rage
Sould dance attention upon my old age;
They were not such a plague when I was young;
What else have I to spur me into song?



A espora

Parece-te horrível que luxúria e ira
Cortejem a minha velhice;
Quando jovem não me flagelavam assim;
Que mais tenho eu que esporeie até cantar?



YEATS, William Butler. "The spur" / "A espora". In:_____. Uma antologia. Seleção e tradução de José Agostinho Baptista. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010.

2.1.17

Anacreonte: "Ode XXIV"




Ode XXIV

Pois que mortal, homem, nasci,
O caminho da vida transporei.
Só sei do tempo em que vivi,
Do que falta correr, eu nada sei...
Deixai-me, pois, tetros cuidados!
Vindo de vós, nada me afeta:
Jamais a vós me renderei
Nem me fareis triste nem fraco.
Antes que eu chegue à grande meta,
Rirei brincando e dançarei
Aos pés do belo e moço Baco!



ANACREONTE. "Ode XXIV". In:____. Odes de Anacreonte. Trad. de Almeida Cousin. Rio de Janeiro: Pongetti, 1948