31.7.16

Régis Bonvicino: "Estado crítico"




Estado Crítico


É o sarcófago de uma piranha
É um Tarzan míope
esmiuçando o céu azul
É o nightclub Silêncio

É um pelego: entrega Drummond
como extintor de incêndio
É a tradução de Sá-Carneiro
para o português

É Baudelaire parcelado em doze vezes
É uma babá de baratas
É um Jean Genet tratável
O atravessador passa avestruz

por Rimbaud
É a incrível banheira portátil
do apartamento onde
Maiakóvski se matou



BONVICINO, Régis. "Estado crítico". In:_____.Estado crítico. São Paulo: Hedra, 2013.

27.7.16

Régis Bonvicino: Exposição "A NOVA UTOPIA"



Quem estiver no Rio de Janeiro a partir do próximo fim-de-semana não deve perder a exposição A Nova Utopia, do poeta Régis Bonvicino, que terá sua inauguração às 19h de sábado, dia 30 de julho, no Oi Futuro Ipanema. A curadoria da exposição é de Alberto Saraiva. 

Vejam, por exemplo, a imagem do belo poema-objeto intitulado exatamente A Nova Utopia, resultado da parceria de Régis Bonvicino com o pintor Luciano Figueiredo:



















O Oi-Futuro Ipanema fica na Av. Visconde de Pirajá, 54.

25.7.16

Alcman: "Martim-pescador": trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos





Martim-pescador

Virgens de voz de mel
tão alta e clara,
meus membros já não podem transportar-me. 
Ah quem me dera ser, ah quem me dera,
um martim-pescador,
a voar, de coração sem medo,
junto aos alcíones por sobre a flor das ondas,
o próprio pássaro da primavera,
de cor purpúrea como o mar.



ALCMÃ. "Martim-pescador". In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva (organizador e tradutor). Poesia grega e latina. São Paulo: Cultrix, 1964. 




23.7.16

J.P. Cuenca: "Tudo é teatro"




Ontem foi publicado na Folha de São Paulo o seguinte ótimo artigo de João Paulo Cuenca:


Tudo é teatro

Feira de livros, cidade do interior. Depois de um debate aproxima-se uma estudante e pergunta, sem qualquer vestígio de timidez: "Você é um personagem?" Não sei o que dizer. Respondo algo como "acho que sim". E ela retruca: "O tempo inteiro?"

No prefácio da edição da Aeroplano de "Me segura qu'eu vou dar um troço" (1972), livro do Waly Salomão recém reeditado pela Companhia das Letras, o Antônio Cícero lembra da prisão do poeta e o cita numa entrevista: "Eu transformava aquele episódio, teatralizava logo aquele episódio, imediatamente, na própria cela, antes de sair. Eu botava como personagens e me incluía, como Marujeiro da Lua. Eu botava como personagens essas diferentes pessoas e suas diferentes posições no teatro: tinha uma Agente Loira Babalorixá de Umbanda, tinha um Investigador Humanista e o investigador duro. O que quer dizer tudo isso? Você transforma o horror, você tem que transformar. E isso é vontade de quê? De expressão, de que é isso? Não é a de se mostrar como vítima."

A teatralização da vida e dos seus dramas, hoje concentrada no smartphone onde metade dos leitores lerá este texto, não é de hoje –e muito menos dos anos 1970, que o diga o engenhoso fidalgo mais famoso de todos. O tema pode ser iluminado de diferentes ângulos, mas o que me traz aqui é o que o Cícero tira dessa declaração do Waly Salomão.

Ele escreve: "A vítima é o objeto nas mãos do outro. Todos nós já fomos vítimas de diferentes coisas, em diferentes momentos; porém é preciso ativamente rejeitar esses momentos, relegando-os, ainda que recentíssimos, ao passado –ainda que recentíssimo. Quem aceita a condição de vítima no presente, quem diz: "sou vítima" está, ipso facto, a tomar como consumada a condição de não ser livre. É contra essa atitude de implícita renúncia à liberdade que Waly teatraliza sua situação."

A teatralização defendida por Cícero –e por Waly– não deve ser interpretada como simples defesa do delírio dentro de um esquema binário entre realidade e imaginação. A proposta não é escapista, muito pelo contrário: trata-se de estar profundamente acordado. "Não se trata de opor o teatro ao não-teatro. O que ele julga é, antes, que tudo é teatro."


A potência desse teatro, máquina que rejeita autocomiseração, está numa certa posse de si, mesmo em momentos extremos. No limite, o único poder que temos é sobre nossa própria consciência. É ela –não as prisões que habitamos, corpos ou celas– que faz de nós quem somos. Os personagens de nós mesmos que somos.



22.7.16

Mauro Ferreira "Obra musical de Antonio Cicero geral antologia pessoal de Arthur Nogueira"




Ontem Mauro Ferreira publicou, no blog de O Globo, um artigo -- que muito me emocionou -- sobre o disco que Arthur Nogueira fez em homenagem à minha carreira. Ele se encontra aqui: http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/post/obra-musical-de-antonio-cicero-gera-antologia-pessoal-de-arthur-nogueira.html.

21.7.16

Jorge Luis Borges: "Las cosas" / "As coisas": trad. Josely Vianna Baptista



Ontem o poeta Erick Monteiro Moraes enviou-nos a tradução, por Josely Vianna Baptista, do seguinte -- belíssimo -- poema de Jorge Luis Borges. Resolvi postá-la aqui:



As coisas

A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, o baralho e o tabuleiro,
Um livro e entre suas folhas a esvaecida
violeta, monumento de uma tarde
Memorável, decerto, e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais e atlas, taças, cravos,
Servem-nos como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Nós já esquecidos, e durarão mais;
Sem nem saber que partimos, jamais.



Las cosas

El bastón, las monedas, el llavero,
La dócil cerradura, las tardías
Notas que no leerán los pocos días
Que me quedan, los naipes y el tablero,
Un libro y en sus páginas la ajada
Violeta, monumento de una tarde
Sin duda inolvidable y ya olvidada,
E1 rojo espejo occidental en que arde
Una ilusoria aurora. ¡Cuántas cosas,
Limas, umbrales, atlas, copas, clavos,
Nos sirven como tácitos esclavos,
Ciegas y extrañamente sigilosas!
Durarán más allá de nuestro olvido;
No sabrán nunca que nos hemos ido.




BORGES, Jorge Luis. "Las cosas". In:_____. Poesia. Edição bilingue. Trad. Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.





Waly Salomão e eu: foto de Bob Wolfenson




Tenho muita saudade de Waly Salomão. Ontem Arthur Nogueira me lembrou da seguinte foto, que o grande Bob Wolfenson tirou de nós dois:



19.7.16

Armando Freitas Filho: "Poema-prefácio"




Poema-prefácio


O rol desenrolado aqui
acolhe de tudo um pouco.
Coisas de cama, mesa, banho
um trivial variado, familiar
estranho, com uma pitada de déjà-vu
e o apanhado na rua, andando:
às vezes tão urgente e passageiro
que sem "nada no bolso ou nas mãos"
pedia canetas emprestadas
e um papel qualquer, onde
escrevia calcando, com letra
garranchosa, de dentro, imediata
e torta, mas que se aplicava
exata, naquilo que corria
por fora do escritório da cabeça
no vento livre de véu, a céu aberto
ou quando não, no nó apertado
cego, difícil de desmanchar
o que apressava o ponto final.



FREITAS FILHO, Armando. "Poema-prefácio". In:_____. Rol. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

17.7.16

Vielimir Khlebnikov: "Anos, países, povos": trad. Augusto de Campos




Anos, países, povos
Fogem no tempo
Como água corrente.
A natureza é espelho móvel,
Estrelas – redes; nós – os peixes;
Visões da treva – os deuses.



KLHEBNIKOV, Vielimir. "Anos, países, povos". Trad. Augusto de Campos. In: CAMPOS, Augusto de; CAMPOS, Haroldo de; SCHNAIDERMAN, Boris. (organizadores e tradutores). Poesia russa moderna. São Paulo: Perspectiva, 2001.

15.7.16

Arthur Nogueira canta "O último romântico"




Vejam o belo clipe em que Arthur Nogueira canta a canção que fiz em parceria com Lulu Santos e Sérgio Souza, "O último romântico". A direção é de Ava Rocha:


14.7.16

William Soares dos Santos: "um pássaro"




um pássaro


um pássaro não é o pássaro,
é um pássaro qualquer.

branco?
pode ser,
para combinar com o azul deste mar,
para ser livre como todos os ideais de vida.

livre como não sou,
livre como não sei o que é ser livre.

mas imagino,
tento,

um pássaro qualquer,
livre,
ser.



SANTOS, William Soares dos. "um pássaro". In:_____. Rarefeito. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2015.

12.7.16

Carlos Drummond de Andrade: "Legado"




Legado

Que lembrança darei ao país que me deu
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?
Na noite do sem fim, breve o tempo esqueceu
minha incerta medalha, e a meu nome se ri.

E mereço esperar mais do que os outros, eu?
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.

Não deixarei de mim nenhum canto radioso,
uma voz matinal palpitando na bruma
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.

De tudo quanto foi meu passo caprichoso
na vida, restará, pois o resto se esfuma,
uma pedra que havia no meio do caminho.



ANDRADE, Carlos Drummond de. "Legado". In:_____. "Claro enigma". In:_____. Poesia completa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 2002.

10.7.16

Walt Whitman: "Come, said the Muse" / "Vem, disse a Musa"




Vem, disse a Musa,
Canta-me o que ninguém jamais cantou,
Canta-me o universal.




Come said the Muse,
Sing me a song no poet yet has chanted,
Sing me the universal.



WHITMAN, Walt. Trecho inicial de "Song of the universal". In:_____. "Leaves of grass". In:_____. The complete poems. Harmondsworth: Penguin Books, 1977.

8.7.16

Percy Bysshe Shelley: "Love's philosophy" / "Filosofia do amor": trad. Adriano Scandolara




Filosofia do amor

As fontes se unem com o rio,
e esses rios ao Mar caminham,
os ventos pelos Céus, com brio,
uns nos outros se aninham;
nada está no mundo a sós;
num só espírito, dita o Céu,
tudo encontra a foz.
Por que não eu e o teu?

Os montes beijam nuvens sem chão,
e cingem-se as ondas também;
condena-se a flor-irmã que, do irmão,
vier a ter desdém;
e o raio de sol cinge o vale,
e o luar vem beijar os mares:
de que tudo então me vale
se não me beijares?




Love’s philosophy

The fountains mingle with the river,
And the rivers with the Ocean;
The winds of Heaven mix forever
With a sweet emotion;
Nothing in the world is single;
All things by a law divine
In one spirit meet and mingle
Why not I with thine? –

See, the mountains kiss high Heaven
And the waves clasp one another;
No sister-flower could be forgiven
If it disdained its brother;
And the sunlight clasps the earth,
And the moonbeams kiss the sea:
What is all this sweet work worth,
If thou kiss not me?



SHELLEY, Percy Bysshe. "Love's philosophy" / "Filosofia do amor". In:_____. Prometeu desacorrentado e outros poemas. Tradução de Adriano Scandolara. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015.



6.7.16

Adriano Nunes: "Gramatical"




Gramatical

                      para Antonio Cicero

Bem por causa
Duma crase,
Há quem ache
Que só calha
À existência a
Regra rígida
Que comanda
O liame
Entre signos
Comportados
E palavras
Para impacto,
Como se a
Liberdade
Fosse nada.


Até causa
De grãs brigas
Fora a vírgula,
Já, de fato!
Sem contar
Que os sentidos,
Quando ambíguos,
Têm gerado
Inimigos
Mortais, mesmo
Quando se
Esclarece o
O impecável
Ermo erro.

Ah, censores
Propulsores
De disputas
Formais, léxicas!
Perdoai
Os deslizes
Dos que mais
Correm riscos,
Dos que vivem
A escrever
Obras-primas
E tolices,
Que se enganam
Com o hífen,
Com as métricas!

Perdoai
Até este
Que, atrevido,
Tem brincado
Com as normas
Gloriosas
Da poética!
Perdoai,
Sem as glosas,
Sem epígrafes,
Sem esporros,
Antes que
Seja tarde
Para vossos
Despropósitos!




1.7.16

Paul Valéry: "Les pas" / "Os passos": trad. Guilherme de Almeida




Os passos

Filhos do meu silêncio amante,
Teus passos santos e pausados,
Para o meu leito vigilante
Caminham mudos e gelados.

Que bons que são, vulto divino,
Puro ser, teus passos contidos!
Deuses!... os bens do meu destino
Me vêm sobre esses pés despidos.

Se trazes, nos lábios risonhos,
Para saciar o seu desejo,
Ao habitante dos meus sonhos
O alimento feliz de um beijo,

Retarda essa atitude terna,
Ser e não ser, dom com que faço
Da vida a tua espera eterna,
E do coração o teu passo.



Les pas

Tes pas, enfants de mon silence,
Saintement, lentement placés,
Vers le lit de ma vigilance
Procèdent muets et glacés.

Personne pure, ombre divine,
Qu'ils sont doux, tes pas retenus !
Dieux !... tous les dons que je devine
Viennent à moi sur ces pieds nus !

Si, de tes lèvres avancées,
Tu prépares pour l'apaiser,
A l'habitant de mes pensées
La nourriture d'un baiser,

Ne hâte pas cet acte tendre,
Douceur d'être et de n'être pas,
Car j'ai vécu de vous attendre,
Et mon coeur n'était que vos pas.




VALÉRY, Paul."Les pas" / "Os passos". In:_____. ALMEIDA, Guilherme de (org. e trad.). Poetas de França. São Paulo: Babel, s.d.