27.6.16

Jaime Gil de Biedma: "Recuerda" / "Recorda": trad. de José Bento




Recorda

Formosa vida que passou e parece
não passar mais...
                           Desde agora, aprofundo
sonhos na memória: e estremece
a eternidade do tempo lá no fundo.
E de repente um remoinho cresce:
sorve-me, arrasta-me, até que me afundo
numa gruta aonde vai, precipitado,
para sempre, sumindo-se, o passado.




Recuerda

Hermosa vida que pasó y parece
ya no pasar...
                         Desde este instante, ahondo
sueños en la memoria: se estremece
la eternidad del tiempo allá en el fondo.
Y de repente un remolino crece
que me arrastra sorbido hacia un trasfondo
de sima, donde va, precipitado,
para siempre sumiéndose el pasado.




BIEDMA, Jaime Gil de. "Recuerda" / "Recorda". In:_____. Antologia poética. Tradução por José Bento. Lisboa: Cotovia, 2003.

25.6.16

Daúde canta "Quase", de Caetano Veloso (música) e Antonio Cicero (letra)



Gosto muito de ouvir a Daúde cantando a canção que Caetano Veloso fez com meu poema "Quase". Ouçam:

23.6.16

Glauco Mattoso: "Madrigal usual"




Madrigal usual

Nenhuma lingua é “morta” emquanto alguem
a falla. Orthographia, assim tambem.

Vocabulo em “desuso” não existe.
Existe uso restricto duma forma
fallada, escripta, caso não conquiste
maior acceitação. Nenhuma norma
chamada “official”, de dedo em riste,
impõe de antigas praxes a reforma.



MATTOSO, Glauco. "Madrigal usual". In:_____. Madrigaes tragicomicos. São Paulo: Lumme, 2016.

21.6.16

É HOJE O LANÇAMENTO DO LIVRO DO JORGE REIS-SÁ!

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Hildeberto Barbosa Filho: "Poética II"




Poética II

O poema
também se faz
daquele verso
ausente,
aquele que seria
o ouro da poesia.

Aquele que vem subitamente
e nos habita à luz
da solidão.



BARBOSA FILHO, Hildeberto. "PoéticaII". In: Cândido. Jornal da Biblioteca Pública do Paraná, nº 58, maio de 2016.

19.6.16

Lançamento de romance de Jorge Reis-Sá

No dia 21, terça-feira, às 19h, na Livraria Travessa de Ipanema, eu, Eucanaã Ferraz e Alice Sant'Anna teremos o prazer de ler trechos do belo romance A definição do amor, de Jorge Reis-Sá, que lá estará, vindo de Portugal, para lançar seu livro.

Clique sobre a imagem, para ampliá-la:




Antero de Quental: "Consulta"




Consulta

                                a Alberto Sampaio

Chamei em volta do meu frio leito
As memórias melhores de outra idade,
Formas vagas, que às noites, com piedade,
Se inclinam, a espreitar, sobre o meu peito...

E disse-lhes: – No mundo imenso e estreito
Valia a pena, acaso, em ansiedade
Ter nascido? Dizei-mo com verdade,
Pobres memórias que eu ao seio estreito...

Mas elas perturbaram-se – coitadas!
E empalideceram, contristadas,
Ainda a mais feliz, a mais serena...

E cada uma delas, lentamente,
Com um sorriso mórbido, pungente,
Me respondeu: – Não, não valia a pena!



QUENTAL, Antero de. "Consulta". In:_____. Sonetos. Org. por António Sergio. Lisboa: Sá da Costa, 1963.

15.6.16

Ricardo Silvestrin: "Seleção"




Seleção

Não é mesmo a minha
trilhar o caminho certo,
andar na linha,
equilibrista no circo.

Olhado à distância,
o passado é uma mancha,
um feixe de nervos
e ânsias.

Não me pergunte
como saí vivo
da infância
e de tudo
que veio em sequência.

Outros encham a boca:
“viveria tudo
outra vez”.
Escolho os melhores dias
 e vivo só mais um mês.



SILVESTRIN, Ricardo. "Seleção". In:_____. Typographo. São Paulo: Patuá, 2016.

13.6.16

Cesare Pavese: "Paesaggio VIII" / "Paisagem VIII": Trad. Carlos Leite




Paisagem VIII

As recordações começam ao cair da tarde
com o hálito do vento a erguer o rosto
e a escutar a voz do rio. A água
é a mesma, na escuridão, dos anos mortos.

No silêncio da escuridão eleva-se um murmúrio
onde passam vozes e risos distantes;
acompanha o rumor uma cor inútil,
de sol, margens e olhos claros.
Um verão de vozes. Cada rosto contém
como um fruto maduro um sabor passado

Cada olhar que volta conserva um gosto
a erva e a coisas impregnadas de pôr-do-sol
na praia. Conserva um hálito de mar.
Como um mar nocturno é esta vaga sombra
de ânsias e arrepios antigos, que o céu roça
e que volta ao fim de cada dia. As vozes mortas
assemelham-se à rebentação daquele mar.




Paesaggio VIII

I ricordi cominciano nella sera
sotto il fiato del vento a levare il volto
e ascoltare la voce del fiume. L’acqua
è la stessa, nel buio, degli anni morti.

Nel silenzio del buio sale uno sciacquo
dove passano voci e risa remote;
s'accompagna al brusio un colore vano
che è di sole, di rive e di sguardi chiari.
Un'estate di voci. Ogni viso contiene
come un frutto maturo un sapore andato.

Ogni occhiata che torna, conserva un gusto
di erba e cose impregnate di sole a sera
sulla spiaggia. Conserva un fiato di mare.
Come un mare notturno è quest'ombra vaga
di ansie e brividi antichi, che il cielo sfiora
e ogni sera ritorna. Le voci morte
assomigliano al frangersi di quel mare.



PAVESE, Cesare. "Paesaggio VIII" / "Paisaem VIII". In:_____. Trabalhar cansa / Lavorare stanca. Trad. Carlos Leite. Lisboa: Cotovia, 1997.


10.6.16

Konstatinos Kaváfis: "Melancolia de Jasão de Cleandro, poeta em Comagene, 595 d.C.": trad. de Haroldo de Campos




Melancolia de Jasão de Cleandro, poeta em Comagene, 595 d.C.

Meu corpo, minhas feições envelhecem:
ferida de pavoroso punhal.
Suportá-la? Não sei como! Não tenho forças para suportá-la.
A ti recorro, Arte da Poesia,
para ti me volto,
que tens noções de fármacos e analgésicos,
tentando narcotizar essa dor
em fantasia e palavra.

Ferida de pavoroso punhal.
Favorece-me com teus fármacos, Arte
da Poesia, que fazem – por um
átimo – insensível a ferida.



CAVÁFIS, Constantinos. "Melancolia de Jasão de Cleandro, poeta em Comagene". Trad. de Haroldo de Cmapos. In:_____. Poemas de Konstantinos Kaváfis. Tradução: Haroldo de Campos. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

8.6.16

Antonio Ventura: "A flauta mágica"




A flauta mágica

Ainda hoje procuro a flauta mágica.
Procuro-a nos rios, nas águas
cristalinas.

Até no suor das tempestades,
nas nuvens espessas,
procuro a flauta mágica.

Até na voz do povo,
no murmúrio de todas as gentes,
procuro a mágica flauta.

Até no sorriso da amada
e no grito timpânico
das máquinas, procuro a flauta mágica.

Na coragem do corajoso,
no sol que ilumina os dias
e no choro da criança, a flauta mágica.

Ainda hoje a procuro.
No voo livre dos pássaros
 e na garganta da sede, a flauta mágica.




VENTURA, Antonio. A educação pelo abismo. Poemas escolhidos de Antonio Ventura. Org. por Antonio Carlos Secchin. Rio de Janeiro: Topbooks, 2016.

6.6.16

Friedrich Rückert: "Dem Libesänger" / "Ao cantor de amor": trad. de Bernardo Taveira Júnior




Ao cantor de amor

Se queres em peito humano
Todas as cordas mover,
Desfere os sons da tristeza;
Não descantes o prazer.
Para muitos cá na terra
Nunca a ventura existiu:
Mas quem ainda no peito
A voz da dor não ouviu?




Dem Libesänger

Wenn du willst in Menschenherzen
Alle Saiten rühren an;
Stimme du den Ton der Schmerzen,
Nicht den Klang der Freuden an.
Mancher ist wohl der erfahren
Hat auf Erden keine Lust,
Keiner, keiner der nicht still bewahren
Wird ein Weh in seiner Brust.





RÜCKERT, Friedrich. "Dem Libesänger" / "Ao cantor de amor". Trad. Bernardo Taveira Júnior.. In: CAMPOS, Geir. O livro de ouro da poesia alemã. Antologia de poetas da língua alemã. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d.

4.6.16

Serge Nuñez Tolin: "En tout paysage" / "Em toda paisagem": trad. Júlio Castañon Guimarães




Em toda paisagem, há alguma coisa nascendo, a começar pelo olhar.

A visão não acaba onde ela chega, começaria até mesmo no ponto onde se perde.




En tout paysage, il y a quelque chose de naissant, à commencer par le regard.

La vue ne finit pas où elle porte, elle commencerait même au point où elle se perd.




NUÑEZ TOLIN, Serge. "En tout paysage" / "Em toda paisagem". In:_____. Noeud noué par personne / Nó dado por ninguém. tRAD. Júlio Castañon Guimarães. São Paulo: Lumme, 2015.

2.6.16

Antonio Cicero: "Tâmiris"



Hoje fiquei contente de ouvir no program "A vida breve", da RTP -- Rádio e Televisão de Portugal -- o meu poema "Tamiris", recitado por mim mesmo. Fica no seguinte enderço: http://www.rtp.pt/play/p1109/e238101/a-vida-breve


O poema, baseado em mito relatado na Ilíada, é o seguinte:



Tâmiris

Jamais poeta algum houve mais alto
do que Tâmiris, o trácio, rival
de Orfeu, cujo canto é capaz de dar
saudade do que nunca nos foi dado
salvo reflexo em verso de cristal.
Se um mortal alcançasse ser feliz,
tal seria Tâmiris: quem o vir
deitado sobre a grama com o rapaz
(digno, pela beleza, de dormir
nos braços do próprio Apolo) que o ama
e cujos cabelos Zéfiro afaga
com dedos volúveis, há de convir
comigo em que é assim, a menos que haja
visto, no rio em que agora mergulham
ou na relva que ao sol dourada ondula
no antebraço do moço à beira d'água
ou na ode em que essa manhã fulgura
e foge para sempre, agora e aqui
refolharem-se o passado, o porvir,
o alhures: tantas trevas na medula
da luz. Já Tâmiris quer possuir
as Musas que o possuem. É seu fado
desafiá-las e perder: insensato,
esplêndido, cego, cheio de si.




CICERO, Antonio. "Tâmiris". In:_____. A cidade e os livros. Rio de Janeiro: Record, 2002.

1.6.16

Alphonsus de Guimaraens Filho: "Cantiga na praia"




Cantiga na praia

Estou sozinho na praia,
estou sozinho e não sei.
Que luz adormece a face
se em gritos já me afoguei?

Estou dançando na praia?
Estou dançando? Não sei.
Eu colho com as mãos da ausência
a rosa que não beijei.

Que luz chega do outro lado,
do outro rio, do outro mar?
Estou sozinho na praia...
Ó mundo, vamos dançar!



GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. "Cantiga na praia". In: CAMPOS, Milton de Gody (org.). Antologia poética da geração de 45. São Paulo: Clube de Poesia, 1966.