30.6.14

Cacaso: "Lar doce lar"




Lar doce lar

Minha pátria é minha infância:
Por isso vivo no exílio



CACASO. "Lar doce lar" In: MORICONI, Italo (org.). Destino Poesia. Antologia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.

29.6.14

Ruy Castro: "Não ia ter Copa"

O seguinte -- excelente -- artigo de Ruy Castro foi publicado no jornal Folha de São Paulo, em 28 de junho do corrente:



Não ia ter Copa


Não ia ter Copa, lembra-se? Cinquenta desajustados mentais em cada cidade exibiam cartazes com esses dizeres e, misturando-se a manifestantes com reivindicações legítimas e específicas, atreviam-se a falar pelos milhões de brasileiros que gostam de futebol. E, por quase um ano, valendo-se da nossa incapacidade para cumprir prazos, respeitar orçamentos e prover segurança, fizeram parecer que seu mote ganharia quorum para se tornar realidade.

Nós, da mídia, fomos essenciais para esse pessimismo, denunciando a Fifa como Estado invasor, o fracasso na preparação da infraestrutura exigida para receber os visitantes e a diferença entre o custo estimado dos estádios e o custo real --embora não me lembre de nenhuma reportagem dizendo para onde foi o dinheiro. O "Imagina na Copa!", que começou como uma brincadeira, tornou-se a sentença para a nossa inabalável vocação para o subdesenvolvimento.

A revolta ficou ainda maior ao se constatar que, pela configuração dos estádios, o preço dos ingressos e a escolha de certas cidades-sede, esta seria uma Copa de e para as "elites" --triste ironia sabendo-se que fazia parte do plano de um governo "popular" para eternizar-se no poder. Como se fosse pouco, veio o desgaste do dito governo, provocado pela economia pífia, a corrupção comprovada e o cansaço do discurso oficial. A Copa, em certo momento, parecia simbolizar toda uma farsa. Era inevitável que entrasse na agenda dos protestos que começaram em junho de 2013.

28.6.14

Demétrio de Azeredo Soster: "aquele que está em mim"






aquele que está em mim


o outro, aquele
que está em mim,

aquele que sou
sem que eu mesmo
                  o saiba,

este ente
      desencarnado,
                entediado,

este que volta
    sem nunca ter ido,

nem sentença
      nem crime,
            nem castigo,

este ser não existe: é.

e ser assim lhe basta.



SOSTER, Demétrio de Azeredo. livro de razão. Florianópolis: Insular, 2014.

26.6.14

Bertold Brecht: "Dauerten wir unendlich" / "Se fôssemos infinitos": trad. Paulo César de Souza






Se fôssemos infinitos

Fôssemos infinitos
Tudo mudaria
Como somos finitos
Muito permanece.



BRECHT, Bertold. Poemas 1913-1956. Seleção e tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Editora 34, 2000.



Dauerten wir unendlich

Dauerten wir unendlich
So wandelte sich alles
Da wir aber endlich sind
Bleibt alles wie beim alten.



BRECHT, Bertold. Gesammelte Werke in 20 Bänden. Frankfurt: Suhrkamp Verlag, 1967.

24.6.14

Tony Bellotto: "A Zelite Branca"

O seguinte texto fez parte da espirituosa coluna de Tony Bellotto intitulada "A Zelite Branca e outras histórias", publicada no domingo, 22 de junho do corrente, no Segundo Caderno do Jornal O Globo.




A Zelite Branca

A Zelite Branca é uma sociedade secreta brasileira mais ou menos equivalente à Klu Klux Klan norte-americana. A odiosa Zelite Branca adora xingar oprimidos em geral e mulheres negras, pobres e exploradas em particular, principalmente as oriundas de classes baixas e desassistidas, como Marta Suplicy e Dilma Rousseff. A expressão maior da Zelite Branca é o juiz Joaquim Barbosa, branco elitista, nascido em família rica e abastada, descendente direto da nobreza imperial. Como dizem negros pobres referindo-se a Michael Jackson, fazendo valer a cota de retaliação histórica que lhes é permitida por tantos anos de opressão: branco rico é foda, quando não caga na entrada, caga na saída.


20.6.14

Noemi Jaffe: "no prison"





no prison
worse
than perfection

no crime
worse
than time

no mendicancy
worse
than money

and, oh, nothing
sort of,
worse than love.




Noemi Jaffe

18.6.14

Paul Verlaine: "Chanson d'automne" / "Canção de outono": trad. Adriano Nunes




"Canção de outono" (Tradução de Adriano Nunes)


Os suspiros infindos
Dos violinos
Do outono
Ferem meu âmago
Com langor
Monótono.

Tão sufocado
E pálido, quando
Chega a hora,
Rememoro
O tempo passado
E choro.

E me transporta
Malvado vento
De um lado
A outro, tal
Qual uma
Folha morta.



Paul Verlaine: "Chanson d'automne"


"Chanson d'automne"

Les sanglots longs
Des violons
De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l'heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure

Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.



VERLAINE, Paul. Oeuvres complètes. Paris: Librairie Léon Vanier, Éditeur, Quatrième Édition, 1908.

16.6.14

Paul Verlaine: "Chanson d'automne" / "Canção de outono": trad. Guilherme de Almeida





Canção de outono

Estes lamentos
Dos violões lentos
Do outono
Enchem minha alma
De uma onda calma
De sono.

E soluçando,
Pálido, quando
Soa a hora,
Recordo todos
Os dias doidos
De outrora.

E vou à toa
No ar mau que voa.
Que importa?
Vou pela vida,
Folha caída
E morta.



Chanson d’automne

Les sanglots longs
Des violons
De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l'heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure

Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.



VERLAINE, Paul. "Chanson d'automne". Trad. Guilherme de Almeida. In:_____. Poetas de França. São Paulo: Babel, s.d.

14.6.14

Jaime Gil de Biedma: "Amor más poderoso que la vida" / "Amor mais poderoso que a vida": trad. José Bento





Amor más poderoso que la vida

La misma calidad que el sol de tu país,
saliendo entre las nubes:
alegre y delicado matiz en unas hojas,
fulgor de un cristal, modulación
del apagado brillo de la lluvia.

La misma calidad que tu ciudad,
tu ciudad de cristal innumerable
idéntica y distinta, cambiada por el tiempo:
calles que desconozco y plaza antigua
de pájaros poblada,
la plaza en que una noche nos besamos.

La misma calidad que tu expresión,
al cabo de los años,
esta noche al mirarme:
la misma calidad que tu expresión
y la expresión herida de tus labios.

Amor que tiene calidad de vida,
amor sin exigencias de futuro,
presente del pasado,
amor más poderoso que la vida:
perdido y encontrado.
Encontrado, perdido...



Amor mais poderoso que a vida

A mesma qualidade que o sol no teu país,
a sair entre as nuvens:
alegre e delicado matiz numas folhas,
fulgor num vidro, modulação
do apagado brilho da chuva.

A mesma qualidade que a tua cidade,
tua cidade de vidro inumerável
idêntica e diferente, mudada pelo tempo:
ruas que desconheço e praça antiga
de pássaros povoada,
a praça em que uma noite nos beijámos.

A mesma qualidade que a tua expressão,
ao cabo dos anos,
esta noite ao fitar-me:
a mesma qualidade que a tua expressão
e a expressão ferida de teus lábios.

Amor que tem qualidade de vida,
amor sem exigência de futuro,
presente do passado,
amor mais poderoso do que a vida:
perdido e encontrado.
Encontrado, perdido...




BIEDMA, Jaime Gil de. "Poemas póstumos". In:_____. Antologia poética. Trad. de José Bento. Lisboa: Cotovia, 2003.

12.6.14

Eugénio de Andrade: "É assim, a música"




É assim, a música

A música é assim: pergunta,
insiste na demorada interrogação
– sobre o amor?, o mundo?, a vida?
Não sabemos, e nunca
nunca o saberemos.
Como se nada dissesse vai
afinal dizendo tudo.
Assim: fluindo, ardendo até ser
fulguração – por fim
o branco silêncio do deserto.
Antes porém, como sílaba trémula,
volta a romper, ferir,
acariciar a mais longínqua das estrelas.



ANDRADE, Eugénio de. "Os lugares do lume". In:_____. Poemas de Eugénio de Andrade. Seleção, estudo e notas de Arnaldo Saraiva.

9.6.14

Rainer Maria Rilke: "Der König" / "O rei": trad. Augusto de Campos





O Rei

O rei tem só dezesseis anos e
já é o Estado.
Como de uma emboscada, vê,
por entre os velhos do Senado,

a sala, de olhos fitos muito além,
e talvez sinta apenas o frio
do colar de ouro que mantém
sob o queixo longo, duro e esguio.

A sentença de morte à sua frente
há longo tempo aguarda sem
seu nome. Pensam: "Como se tortura..."

Mal sabem que ele simplesmente
conta, devagar, até cem
antes de apor a assinatura.



Der König

Der König ist sechzehn Jahre alt.
Sechzehn Jahre und schon der Staat.
Er schaut, wie aus einem Hinterhalt,
vorbei an den Greisen vom Rat

in den Saal hinein und irgendwohin
und fühlt vielleicht nur dies:
an dem schmalen langen harten Kinn
die kalte Kette vom Vlies.

Das Todesurteil vor ihm bleibt
lang ohne Namenszug.
Und sie denken: wie er sich quält.

Sie wüßten, kennten sie ihn genug,
daß er nur langsam bis siebzig zählt
eh er es unterschreibt.



RILKE, Rainer Maria. In: CAMPOS, Augusto de. "Neue Gedichte - I" / "Novos poemas - I". Trad. Augusto de Campos. In:_____. Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013.

7.6.14

Ferreira Gullar: "A farsa das galerias e a ditadura dos curadores"



Essa gratuidade da arte contemporânea se reflete ainda, por exemplo, numa obra como aquela levada para uma galeria onde o cara pega um cachorro, amarra numa coleira, deixa ele preso numa gaiola durante dias sem dar comida nem água, e o cachorro então morre. Aí o cara vai lá e escreve numa placa: arte perecível. Agora, se ele faz isso no quintal da casa dele, não é arte. Mas na galeria é arte. Quer dizer: o que transforma a obra dele é a instituição. Que vanguarda é essa que precisa da instituição? Vê como é tudo uma besteirada? Uma farsa? Uma bobagem? Essa postura da arte contemporânea não leva a lugar nenhum.



GULLAR, Ferreira. In: "Um alquimista chamado Ferreira Gullar. Entrevista a João Pombo Barile". In: Suplemento. Belo Horizonte:  Secretaria de Estado de Cultura, março/abril 2014.

6.6.14

Manuel Bandeira: "Poema só para Jaime Ovalle"





Poema só para Jaime Ovalle

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.



BANDEIRA, Manuel. "Belo belo". In:_____. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.

3.6.14

Zizi Possi canta "Alma caiada", de Marina Lima e Antonio Cicero




Muita gente me pergunta qual foi a primeira letra de canção que fiz. Bem, era um poema, guardado na gaveta, que Marina musicou. Chama-se "Alma caiada". Maria Bethania chegou a gravá-la, mas ela foi censurada pela ditadura. Depois, Zizi Possi a gravou lindamente. Ei-la:


ALMA CAIADA

Aprendi desde criança
que é melhor me calar
e dançar conforme a dança
do que jamais ousar

mas às vezes pressinto
que não me enquadro na lei:
minto sobre o que sinto
e esqueço tudo o que sei.

Só comigo ouso lutar:
sem me poder vencer,
tento afogar no mar
o fogo em que quero arder.

De dia caio minh’alma.
Só à noite caio em mim:
por isso me falta calma
e vivo inquieto assim.