10.2.10

Bertold Brecht: "Die Moritat von Mackie Messer" / "Balada de MacPunhal": tradução de Nelson Ascher




Agradeço a Nelson Ascher por me ter autorizado a postar aqui sua extraordinária tradução da letra de Bertold Brecht para a canção que este fez em parceria com Kurt Weill.


Balada de MacPunhal


Tubarões têm muitos dentes
E os exibem sem pudor
E Macheath tem uma faca,
Mas prefere não a expor.

Tubarões no ataque deixam,
como rastro, sangue atrás;
Mac põe luvas que não trazem
Traço algum do que ele faz.

Onde o Tâmisa flui verde,
Morre gente sem parar --
Não é cólera nem peste,
É Macheath de volta ao lar.

Num domingo lindo, um morto
Jaz na rua principal
E um sujeito dobra a esquina
Cuja alcunha é MacPunhal.

Que foi feito de Schmul Méier
E de cem ricaços mais?
Que sua grana está com Mackie,
Não se vai provar jamais.

Jenny Towler, quando achada,
Tinha, em seu peito, um punhal,
Mackie, andando junto ao rio,
Nada lembra de anormal.

E Alfons Glite, onde se encontra,
O cocheiro está no além?
Caso alguém tenha um palpite,
MacPunhal é que não tem.

Quanto ao fogo atroz no Soho
-- Sete crianças e um ancião --
Ninguém viu o responsável,
MacPunhal, lá, também não.

E a viuvinha (todos sabem
O seu nome) que, uma vez,
Acordou sendo estuprada:
Mac, que preço você fez?



Die Moritat von Mackie Messer


Und der Haifisch, der hat Zähne
Und die trägt er im Gesicht
Und Macheath, der hat ein Messer
Doch das Messer sieht man nicht.

Und es sind des Haifischs Flossen
Rot, wenn dieser Blut vergießt
Mackie Messer trägt ‘nen Handschuh
Drauf man keine Untat liest.

An der Themse grünem Wasser
Fallen plötzlich Leute um
Es ist weder Pest noch Cholera
Doch es heißt: Mackie geht um.

An’nem schönen blauen Sonntag
Liegt ein toter Mann am Strand
Und ein Mensch geht um die Ecke
Den man Mackie Messer nennt.

Und Schmul Meier bleibt verschwunden
Und so mancher reiche Mann
Und sein Geld hat Mackie Messer
Dem man nichts beweisen kann.

Jenny Towler ward gefunden
Mit ‘nem Messer in der Brust
Und am Kai geht Mackie Messer
Der von allem nichts gewußt.

Wo ist Alfons gleich, der Fuhrherr?
Kommt er je ans Sonnenlicht?
Wer es immer wissen könnte
Mackie Messer weiß es nicht.

Und das große Feuer in Soho
Sieben Kinder und ein Greis
In der Menge Mackie Messer, den
Man nichts fragt, und der nichts weiß.

Und die minderjähr’ge Witwe
Deren Namen jeder weiß
Wachte auf und war geschändet
Mackie welches war dein Preis?



Ouçam "Die Moritat von Mackie Messer", cantada por Lotte Lenya (que pula três estrofes: a segunda, a terceira e a sétima):



6 comentários:

betina moraes disse...

observador,

em primeiro lugar quero dizer que o vídeo é simplesmente fantástico, não há outra palavra.

depois, dizer que a tradução de nelson me parece perfeita, não abandona a ironia em nenhuma palavra e é incrível como se consegue traduzir assim, mantendo a alma do texto. é a questão que mais me motiva a ler as traduções que você coloca aqui, observo que há um cuidado valioso de sua parte na escolha.

lembrei-me de uma apresentação da “ópera dos três vinténs” de 1982 que vi em vídeo. sei que o teatro perde muito em vídeo, mas a questão foi que a direção era do maravilhoso e saudoso luís mendonça e no elenco haviam pessoas como a talentosa cantora daúde. eu, descobrindo o universo inteiro através do teatro, aos 13, ficando completamente deslumbrada com a cultura, o teatro, o brecht(!), achei inesquecível e a canção do mac me faz retornar ao entusiasmo daquela sensação de descoberta.
um post extremamente valioso para mim. foi um presente!

grande abraço!

betina moraes disse...

PS:

me ocorreu de lhe dizer,

há um blog "a matriz dos sonhos" de gisela ramos rosa, sobrinha do grande antónio ramos rosa
onde, por uma das maravilhas da internet, podemos ler os versos dela, que são extremamente bem cuidados, inspirados

e os de antónio, com fotos do poeta, vídeos dele recitando poetas mundiais e os desenho maravilhosos que ele faz. é imperdível para quem o admira.

deixarei o link aqui, acho que gostará de conhecer gisela e ver-ouvir antónio.

http://amatrizdossonhos.blogspot.com/

outro abraço, poeta.

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,


Sempre que venho ao Acontecimentos, ganho uma nova tez, um novo âmago.

Tudo é tão encantador que "parece" (é mesmo) que a gente descobriu aquele livro em que temos todos aqueles textos, poemas, etc e tal, que queríamos ter e que seria quase impossível, um livro vivo, uma árvore que dá "Arte" - Uma antologia única, universal, rara! Sempre serei grato por isso!

Parabéns para o Nélson Ascher por essa preciosidade de transcriação/tradução!


Grande abraço,
Adriano Nunes.

Antonio Cicero disse...

Obrigado, Betina e Adriano. Que seria do blog sem o estímulo de vocês?

Abraços

vários um disse...

Ótimo! Lembra as milongas do Borges.

Aetano disse...

Que beleza!

Muito grato, a Ascher e a Cicero

Abraços.