12.10.07

Bertold Brecht: A paisagem do exílio

Um poema maravilhoso de Brecht, na excelente tradução do Paulo César de Souza:


A PAISAGEM DO EXÍLIO

Mas também eu, no último barco
Vi ainda a alegria da aurora no cordame
E os corpos cinza claro dos golfinhos, emergindo
Do Mar do Japão
E os pequenos carros a cavalo com decoração em ouro
E os véus cor de rosa sobre os braços das matronas
Nas ruelas da condenada Manila
Viu também o fugitivo com prazer.
As torres de petróleo e os jardins sedentos de Los Angeles
E os desfiladeiros da Califórnia ao anoitecer, e os mercados de frutas
Também não deixaram indiferente
O mensageiro do infortúnio.



DIE LANDSCHAFT DES EXILS

Aber auch ich, auf dem letzten Boot,
Sah noch den Frohsinn des Frührots im Takelzeug
Und der Delphine grauliche Leiber, tauchend
Aus der Japanischen See.
Die Pferdewäglein mit dem Goldbeschlag
Und die rosa Armschleier der Matronen
In den Gassen des gezeichneten Manila
Sah auch der Flüchtende mit Freude.
Die Öltürme und dürstenden Gärten von Los Angeles
Und die abendlichen Schluchten Kaliforniens und die Obstmärkte
Ließen auch den Boten des Unglücks
Nicht kalt.


De: BRECHT, B. Poemas 1913-1956. Seleção e tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Editora 24, 2001. p.286.

5 comentários:

Léo disse...

As viagens, partidas, chegadas, o acaso e sua presença, ora benfaseja, ora não, são temas recorrentes em sua obra de poeta e letrista. Tenho deixado poemas onde caberiam, antes, comentários. Sua vida deve ter a marca das viagens, chegadas e despedidas, tanto pessoalmente (amores, parentes, amigos) quanto no que concerne à estética. Waly falava sempre da sua erudição comigo, e às vezes me sinto meio idiota postando poemas onde deveria ser o pensamento filosófico colocado. Mas, apesar de não suportar o senso comum, "quem não tem cão caça com gato" (rsrsrs)

Léo disse...

Esse poema do Brecht me inspirou um outro, que fiz agora:

À bordo do avião, sobrevoando o oceano,
dentro da máquina com que o homem se desloca entre grandes distâncias,
penso na aventura errante, no ir e vir que nos consome,
nos torna o que somos, seres em trânsito,
entre lugares, propriamente,
e entre paisagens interiores, estações,
sofrimentos, alegrias, enfim,
vida, vão entre a clareza e o obscuro,
onde trafegamos, todos os dias,
como herdeiros, que somos,
de outros seres, viajantes, intrépidos,
como nós, cavaleiros da estrada sinuosa que nos leva ao fim,
cheios de medo, indo e vindo, apesar do medo,
apesar do pânico, já que, no fundo, fé e amor são do que somos feitos.

Antonio Cicero disse...

Léo,

Peço-lhe que você continue desprezando as convenções e postando os seus textos -- seja em prosa, seja em verso --, que são pertinentes e bonitos.

Abraço,
Antonio Cicero

Andréa N. disse...

Wow, maravilhoso mesmo. E gostei muito do poema do léo, também!

Elisa disse...

Desolação de Los Angeles, como canta o Sr. Cê.